proparoxítonas

Todas são acentuadas

Jéssica Parizotto

jéssica parizotto é uma proparoxítona, interessa-se por haicais, músicas pouco conhecidas e jogo de palavras. Queria voar de balão, mas tem medo de altura.

Ex isto - quando os opostos se abraçam

E se René Descartes viesse ao Brasil em 1637? Seu racionalismo permaneceria intacto ou o calor e as possibilidades dos trópicos mostrariam a ele que na guerra entre a razão e os sentidos, o homem é sempre um animal?


ex-isto-de-cao-guimaraes.jpg João Manoel interpretando René Descartes Paulo Leminski foi um escritor que honrou o estereótipo de poeta marginal, nome dado a quem se atrevia a fazer poesia em 1970, no Brasil. Chamava a poesia de “inutensílio”, criava poemas rápidos, porém, com carga poética intensa, trabalhou em agências de publicidade e morreu de cirrose. Bastante típico. Mas, engana-se quem pensa que atrás dos singelos haicais de Leminski estava uma pessoa de ideias corriqueiras e sem grandes questionamentos. Prova disso é seu romance mais famoso e mais temido: o Catatau. ex-isto-descartes-em-recife.jpg René Descartes em Recife

Catatau é aquele livro que quem leu orgulha-se em dizer, e quem não leu diz que faltou coragem. Um Ulysses à brasileira. E o enredo parte de uma ideia que é de dar inveja a qualquer historiador. O poeta percebeu o fato de que René Descartes fazia parte da corte de Maurício de Nassau, aliás, foi este o propósito da sua ida à Holanda em 1618, lá ele alistou-se no exército de Nassau e tinha a intenção de seguir a carreira militar. Mas, descobriu que gostava mesmo era de ouvir as histórias dos feitos militares e não chegava a ter desejo suficiente para adotar a profissão. O argumento para o romance experimental de Paulo Leminski foi o seguinte: E se René Descartes tivesse realmente se juntado à companhia de Maurício de Nassau e desembarcasse no Brasil em 1637? O que seria do seu método? Seu pensamento racional conseguiria sobreviver às terras tropicais? ex-isto-descartes-na-arvore-atorjoao-miguel-foto-divulgacao.jpg Descartes na árvore ex-isto-descartes-com-gelo.jpg O racionalidade de Descartes derrete sob o sol Para o poeta paranaense seria mais ou menos assim: “ergo sum, aliás, Ergo sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis (...)” É assim que começa o Catatau, com parte da frase mais emblemática do pensador francês: Cogito, ergo sum. Ou, na nossa tão lúdica língua: Penso, logo existo. Transpor um livro com esta carga para o cinema foi a tarefa encomendada a Cao Guimarães. E ele o fez brilhantemente. Ex isto é um filme sensorial. João Miguel interpreta o filósofo francês perdido e entorpecido pelos trópicos. As locações do filme foram entre a mata e a pororoca, mas também as cidades e o calor humano do povo nordestino. Não houve roteiro, diretor e ator liam a obra e viajavam pelas locações. Por isso, também não há diálogo, são apenas imagens, músicas e a leitura em off de trechos de ambas as obras (Catatau e o Discurso do Método) durante alguns momentos do filme. Ex isto e Catatau são obras para atiças os sentidos, justamente aquilo que René Descartes considerava apenas uma distração, pobre homem! ex-isto-descartes-na-feira.jpg O filósofo e a feira ex-isto-descartes-na-mata.jpg Descartes na mata ex-isto-de-cao-guimaraes-1.jpg Ex isto

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Jéssica Parizotto

jéssica parizotto é uma proparoxítona, interessa-se por haicais, músicas pouco conhecidas e jogo de palavras. Queria voar de balão, mas tem medo de altura..
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