proparoxítonas

Todas são acentuadas

Jéssica Parizotto

jéssica parizotto é uma proparoxítona, interessa-se por haicais, músicas pouco conhecidas e jogo de palavras. Queria voar de balão, mas tem medo de altura.

1990

Eu sou do tempo que a música dependia de sorte. Era preciso estar calmo e atento. Calmo para não apertar o botão errado e atento para não perder a chance de “aprisionar” sua canção favorita. O processo era mais ou menos assim...


6291828076_b1be84cd27_z.jpg Flickr - cassettes Você devia escolher um lugar confortável, mas a posição não dependia unicamente do seu conforto, era preciso encontrar um lugar sem ruídos externos e onde o rádio funcionasse sem interferências.

Rádio era uma coisa muito diferente de hoje em dia. De lá para cá, as funções mudaram conforme o nosso relacionamento com a música. Antes se ouvia música no conforto do lar, hoje se ouve onde quer que esteja. Naquela época os vizinhos se vangloriavam por ter comprado um “Aparelho de Som” com duas caixas enormes, com bandeja para três CDs e dois toca-fitas. Hoje o vizinho ouve música de fones de ouvido e detesta ter que tirá-los para cumprimentar o porteiro. A gente perdeu a vontade de fazer barulho! 5797313701_48534596cf_z.jpg Flickr - Marco Raaphorst

Depois de ter encontrado o lugar e estar com seu rádio a postos, era preciso ter uma fita cassete. Um objeto retangular recheado com uma fita magnética que lhe oferecia a liberdade nunca antes experimentada de gravar suas músicas favoritas. Falando assim parece fácil, mas era preciso treino e disciplina. 287797058_9a08c03108_z.jpg Flickr - kc7fys 287797731_86d7f17d3f_z.jpg Flickr - kc7ys

Inicialmente você deveria fazer um exercício de desapego: escolher em cima de quais outras músicas você iria gravar sua nova playlist. Sim, por que gravar em fitas virgens não tinha graça nenhuma. Era preciso se orgulhar de ter salvado a pobre k7 (apelido carinhoso de cassete) de tocar Raça Negra eternamente. Escolhida a fita a ser libertada do destino nefasto, era preciso rebobina-la, coisa que está extinta hoje. Fico com pena, por que só quem rebobinou uma fita cassete ou mesmo uma VHS (de vídeo) sabe que falta faz aquele barulhinho. 2304104734_83def31ff3_z.jpg Flickr - Kino Praxis 5241560849_cf9deec57f_z.jpg Flickr - Marco Raaphorst A emissora de rádio estando devidamente sintonizada... Pronto, a etapa de preparação estava completa! Partíamos, então, para a fase mais difícil: a da espera. Livros e revistas eram bem-vindos. Havia dois perigos aqui: o primeiro era distrair-se com a leitura ou cochilar e perder a música, o segundo era afobar-se e apertar o botão REC sem ter ouvido direito os primeiros acordes, gravando assim a música errada, o que não fazia um grande mal, porém representava certa falta de memória auditiva, coisa essencial a um bom “fazedor de mixtapes”.

Mas, erro mais grave, falta com direito a penalidade máxima, era não calcular direito a fita que restava e ela terminar antes do fim da música. E aí quando chegava o refrão, em que você queria soltar a voz, ouvia-se um “tec” seguido de palavrões e, dependendo da música, até mesmo choro. 5361028942_d8e25f1939_z.jpg Flickr - Marco Raaphorst Nessa época gostar de música não era fácil, mas era recompensador. Quando você conseguia gravar todas as músicas que queria e ouvia pela primeira vez sua fita, lado A e lado B, sem chiados, sem músicas pela metade, sem propagandas do mercadinho da esquina, era a glória, o êxtase, era enjoativo, já que você se sentia no direito de repeti-la quantas vezes quisesse.

Uma curiosidade que guardo até hoje é a de saber quais são as músicas mais gravadas em mixtapes. Mas, isso é conversa para um próximo post...


Jéssica Parizotto

jéssica parizotto é uma proparoxítona, interessa-se por haicais, músicas pouco conhecidas e jogo de palavras. Queria voar de balão, mas tem medo de altura..
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