Débora Marx

Estudante de jornalismo. Espera um dia achar-se na vida e perder-se nas palavras...

AS DAMAS DE BUARQUE

Somos todas damas de Chico. Todas damas, criadas na métrica e observadas na rima dos seus olhos. Às vezes penso que pela fresta de uma porta mal encostada, ele observa os dramas e as alegrias da nossa encenação diária, e vai milimetricamente compondo seus versos.


obviou chico.jpeg

Tão loucas, tão santas, tão instáveis, tão carentes, tão cheias de si, tão bonitas, tão tristes, tão alegres. São tantas que acabam sendo eu, acabam sendo você e, no fim acabam sendo todas nós, até as que negam! Que dizem que não se enquadram... tudo balela! No fim, somos todas dele. Somos todas damas de Chico.

De Geni à Mulher de Atenas não há como negar, você já agiu, pensou e sentiu como pelo menos uma delas. É inevitável, em cada canção ele pari uma mulher, cuidadosamente pensada em suas nuances e facetas, representadas em cada verso, rima, e acorde melodioso. Às vezes me parece que, ele, acompanhando as curvas de cada silhueta feminina, vai fazendo nascer as músicas, seus tons e compassos.

Ora , por favor! Quem deixou esse homem olhar pelo buraco da fechadura do íntimo feminino, ou – me permitam o trocadilho- o deixaram escondido “Atrás da Porta” observando calado o que nós pensamos e sentimos, mas não dizemos?

Muitas vezes não compreendemos o que buscamos, o que sentimos, a inconstância pertence à natureza feminina. Queremos tudo e não queremos nada, traçamos estereótipos do homem ideal e nos apaixonamos por aquele que não se encaixa em nada do que queríamos, odiamos ou amamos, às vezes odiamos amando, às vezes não.

No fim, tudo é complicado, difícil de traduzir, de pôr em palavras e, o que não é expresso sufoca. Daí você me pergunta:"Onde queres chegar?", e o que de fato estou tentando dizer é que é preciso ter muito lirismo na “ponta da pena” para entender o íntimo feminino, escrever não sobre casos ,mas sobre gente, sobre mulheres, sobre sentimentos não ditos e verdades não reveladas. Para fazer o que Chico Buarque faz há mais de 50 anos é necessário muito mais do que técnica, é preciso alma.

Por isso, e por muito mais, sei que existem espalhadas por ai, muitas Anas, Bárbaras, Carolinas, Renatas...Todas cifradas e versadas por Buarque, e que no fundo todas elas já sofreram ao ouvir:

“Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço. Te adorando pelo avesso, pra mostrar que ainda sou tua”

Ou massagearam o ego lembrando os casos onde Folhetim foi a trilha sonora ideal. Algumas, as mais invejadas certamente, se veem em Beatriz. Outras, mais amarguradas, trocaram o brilho do palco e de uma carreira pela ilusão do amor romântico, essas acham evasão em Lily Braun.

Por fim, é até possível achar alguém que diga “Os arranjos de Jobim são melhores”, ou “A afinação de Caetano é mais sublime e refinada”, até “ Vinícius é mais letrista”... Ora, mas o que é isso? Sabemos que nenhum deles possuem os olhos de Buarque, e não me refiro a cor e a intensidade de um olhar que 7 décadas não apagaram, mas ao olhar que há anos nos lê, nos enxerga e nos revela em arte, poesia, métrica e rima. Somos todas tuas Chico.

olhos obvious.jpg


Débora Marx

Estudante de jornalismo. Espera um dia achar-se na vida e perder-se nas palavras....
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Débora Marx