Débora Marx

Estudante de jornalismo. Espera um dia achar-se na vida e perder-se nas palavras...

A solidão cantada em Eleanor Rigby

Na busca desenfreada para escapar da solidão acabamos caindo nela. Em um caminho sem volta, maquiamos aquilo que tememos. Paul e Lennon não sabiam, mas cantaram em Eleanor Rigby as angústias de hoje.


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Quando Paul e Lennon compuseram Eleanor Rigby, em meados dos anos 60, não faziam ideia de como, mesmo depois de mais de 40 anos, sua verdade continuaria inabalada. O cenário de hoje é mais desolador do que o de 4 décadas atrás, as pessoas de agora até lutam contra a solidão, mas pela influência de um sistema tão pesado, pela intensificação da vida nervosa e por fortes inversão de valores, se iludem com uma falsa vida compartilhada.

Como exemplo temos as redes sociais, que são verdadeiras catedrais onde o pseudo amor-próprio, a falsa felicidade constante, os duvidosos relacionamentos perfeitos, e as festas animadas reinam absolutos... Na perfeição do universo virtual a solidão não tem espaço.

Nesse novo contexto ninguém que ser "Father McKenzie", escrevendo palavras que nunca serão lidas ou notadas, mesmo que estas sejam sinceras e fecundas de sentimentos. Dar-se mais importância, e parece ser mais válido, viver uma falsa felicidade do que ser honesto consigo mesmo.

Com tantos afazeres e ocupações nos vemos cercados de gente, e parece mais fácil se prender à superfície de 500 pessoas do que apresentar a uma a solidão do nosso quarto. O erro começa aqui, quanto acreditamos que a felicidade é quantitativa, que mais vale o número do que o sentimento.

Quando a farra acaba, quando o expediente termina, quando as aulas se encerram, se não tivermos semeado com sinceridade no outro um pouco do que somos, a resposta será dura: "No one comes near"

"Who is it for?" Talvez essa seja a pergunta principal dos dias de hoje. Pra quem será? Pra quem será que você anda guardando tudo isto que és? Para quem será os teus dias de juventude? E os de velhice? Para quem será?

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"Nobody came." O quão temida é essa frase? Como temos medo de que ninguém venha – Meu Deus, eu não quero ser Eleanor Rigby- eu preciso ser lembrada, eu preciso que alguém se importe, eu preciso que alguém ao ser perguntado "All the lonely people, where do they all belong?" Responda coisas bonitas ao meu respeito.

Nessa tentativa de não ser esquecida, de negar nossa condição existencial primária, é que vamos nos perdendo. Começamos a substituir pessoas por coisas, a dar mais valor ao ter do que ao ser. A fantástica máquina do mercado me diz todo dia que objetos valem mais que pessoas, que interesse emocional se resume a um “match”, que o meu valor está intimamente ligado ao valor do meu salário, que a admiração dos outros por mim é refletida nos “likes” das minhas postagens...

Quanta ilusão... Só desejo que todas essas coisas não nos tirem a alegria do silêncio sincero, do abraço demorado, da companhia gratuita, do arrepio no encontro do olhar, da preocupação demonstrada, do carinho de sempre.

Vai ver que no fim essa é a verdadeira receita para não sermos Eleanor’s Rigby.


Débora Marx

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