Débora Marx

Estudante de jornalismo. Espera um dia achar-se na vida e perder-se nas palavras...

A generosidade em "Como Eu Era Antes de Você"

Chorei pela forma como a vida nos mostra que não controlamos nada. Chorei porque muitas vezes não podemos fazer o outro pensar da nossa forma. Chorei porque às vezes o que oferecemos não é o suficiente. Chorei pelas inúmeras vezes que o que planejamos não se realiza. Chorei porque a literatura cumpriu seu papel de transcender páginas e tocar o leitor.


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“Como Eu Era Antes de Você” conta a história de Louise uma jovem com poucas ambições e acomodada a uma vida sem muitas perspectivas profissionais e amorosas. Seu destino muda completamente quando é contratada para cuidar de Will Traynor, jovem bem sucedido que tem sua vida virada ao avesso após um atropelamento que o deixa tetraplégico. Passado algum tempo de convívio entre eles, Lou descobre que Will pretende realizar uma espécie de suicídio assistido na Suíça, onde o ato é legal, e a partir dai inicia uma tentativa incansável de mostrar para Will que ele ainda tem motivos para viver.

------Desde pequena quando pediam para eu resumir uma história contava sempre o final, era basicamente intuitivo, depois de horas me detendo aos detalhes de cada cena ou capítulo entregava o desfecho de bandeja. O tempo passou e eu continuo com o mesmo problema! No inicio dos anos 2000 me chamavam de “estraga prazer”. Hoje, deram um nome pra isso: spoiler. Por isso o resumo acima é tão sintético e por isso também já peço desculpas se soltar alguma coisa durante o texto.------

Resolvi ler esse sucesso da Jojo Moyes devido ao trailer divulgado da adaptação homônima para o cinema que tem estreia em junho deste ano. Mesmo sendo um livro de quase 4 anos nunca tinha me interessado em ler antes por achar que era um desses romances à Nicholas Sparks que não faz muito meu gênero. Contudo, que grata surpresa me esperava nas 318 páginas dessa história envolvente.

A escrita de Moyes é fluida, os diálogos surgem naturalmente e em alguns capítulos o narrador muda lhe dando uma perspectiva diferente da situação. Cada cena é minimamente descrita sem se tornar cansativa, me imaginei naquele cenário úmido, senti a atmosfera interiorana, pude imaginar as reações, trejeitos e entonação de cada pessoa do roteiro.

Falando neles, os personagens são extremamente cativantes e verossímeis. As personalidades são retratadas tão bem que me apeguei inclusive aos secundários. Sentia a angústia e entendia o jeito meio de megera de Camilla Traynor, mãe de Will, podia facilmente imaginar a irmã de Lou e seu filho enchendo a casa e deixando um vazio estranho ao saírem, simpatizei com Nathan, enfermeiro de Will, e o pai de Louisa como se fossem alguém que facilmente poderia conhecer no meu dia-dia.

Com os protagonistas não foi muito diferente e rapidamente desenvolvi empatia por ambos. Lou é aquela típica pessoa colorida que irradia alegria e energia por onde passa, o que é bastante dissonante com a personalidade de Will, que parece, num primeiro momento, ser um sujeito orgulhoso, sarcástico e que se alegra em afastar as pessoas de perto dele.

Porém, com pouco tempo percebemos que o livro todo trata de generosidade. Achamos que Lou tenta salvar Will, mas na verdade há uma troca mútua. Will quer que Louisa viva plenamente, imaginando possibilidades, descobrindo coisas... Lou quer que Will, literalmente, viva, e nessa busca os dois se tornam pessoas melhores, diferentes, mais felizes e plenas. A personalidade carrancuda de Will dá lugar para alguém que se sente impotente, condenado a depender de alguém para tudo, mas que ainda assim deseja profundamente que Lou seja feliz mesmo que ele não venha a fazer parte disso e se empenha de tal modo que chega a ser comovente. Generosidade.

Além do drama e da história proposta, a autora levanta um debate muito importante: Eutanásia. O tema é bastante polêmico por envolver questões religiosas e éticas e no livro conseguimos enxergar os dois lados da situação. Por uma parte temos Will inconformado, infeliz com a vida que leva e se sentindo preso em uma cadeira. Do outro lado temos a família Traynor e Louisa que não conseguem acreditar na sua decisão. “Como ser capaz de dar um fim na própria vida sabendo que causará tanto sofrimento para as pessoas que o cercam?”.

Tal conflito me fez pensar muito sobre o assunto e me ficou o questionamento: Egoísmo da família que não percebe a dor e infelicidade dele ou egoísmo dele que só pensa em seu próprio bem-estar? Acho que a sociedade ainda precisa avançar muito em quesitos científicos e éticos para refletir melhor sobre isso, não cabe também a alguém de fora julgar uma realidade tão particular.

Deixando a polêmica um pouco de lado e mergulhando novamente no universo ficcional construído, não vou revelar o final, apesar de achar que todos já sabem ou intuem, mas queria dizer que chorei. Chorei pela forma como a vida nos mostra que não controlamos nada. Chorei porque muitas vezes não podemos fazer o outro pensar da nossa forma. Chorei porque às vezes o que oferecemos não é o suficiente. Chorei pelas inúmeras vezes que o que planejamos não se realiza. Chorei porque a literatura cumpriu seu papel de transcender páginas e tocar o leitor.

Mudando um pouco o assunto, mas não tanto assim, gostaria de externar uma experiência que tive. Antes de chegar a ler “Como Eu Era Antes de Você” pesquisei muitas resenhas e críticas e percebi muitas pessoas, que talvez entendam mais do que eu –uma simples estudante de jornalismo- falando um pouco mal da obra por uma série de motivos não tão convincentes para mim, mas o que me parece é que rola um grande preconceito em aceitar a cultura POP. Crescemos escutando que para ser “cult” tem que gostar de cinema francês, não pode ler best-seller , não pode ouvir música do momento. Tem que ser alternativo. Se a “massa” começa a curtir o que você curte de repente aquilo não é mais tão interessante quanto antes. Para resumir, tenho sono desse assunto. A cultura é democrática e o ser-humano é plural, cheio de fases, momentos e gostos. Consigo ver cultura no funk que surge nos guetos e traz a cara do povo, como também posso muito bem entender e conversar sobre New Orleans e seu jazz clássico. Afinal, uma coisa não exclui a outra, posso SIM tirar grandes lições de filmes comerciais e ao mesmo tempo amar Hitchcock, posso adicionar Jorge&Mateus e Chico Buarque na mesma playlist, posso adorar clássicos da literatura universal e me sentir intimamente tocada por aquele best-seller que todo mundo leu. Qual o mal disso?

Se você, assim como eu, não se importa nem um pouco em se permitir certos clichês, leu esse best-seller e não vê a hora de preparar os lencinhos para a versão cinematográfica confere o trailer liberado que falei no começo.

A música que provavelmente embalará o casal tema é photograph de Ed Sheeran e tem tudo a ver com o enredo.


Débora Marx

Estudante de jornalismo. Espera um dia achar-se na vida e perder-se nas palavras....
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