Débora Marx

Estudante de jornalismo. Espera um dia achar-se na vida e perder-se nas palavras...

Sobre Travessias e Coragem

Me diga o tamanho dos seus sonhos e eu lhe digo o tamanho da sua vida.


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Costumo usar este espaço para escrever sobre filmes, músicas, livros... Nunca compartilhei com vocês um relato pessoal, mas agora senti uma necessidade latente de fazer isso. Isto, porque há pessoas que poderiam tão somente passar por nossas vidas e irem embora, mas por alguma razão, que não consigo acreditar ser mero acaso,algumas nos tocam, nos despertam, nos devolvem...

Era tarde, dia 6 de setembro. Estava na minha aula preferida quando minha amiga disse que ele chegaria. Não sabia nada sobre ele, apenas que era um "gringo gente boa". Ele chegou. Entre francês, inglês e português, finalmente conseguimos nos comunicar brevemente. Não sabia da sua vida.

E ai, em alguns dias descobri seu nome e sua história. A partir disso a mágica do compartilhamento aconteceu. Vocês não acham linda a delicadeza do surgimento de uma relação? As primeiras perguntas, as explicações, a formalidade excessiva dando espaço para pequenos sorrisos e brincadeiras.

Observar laços sendo formados é uma das coisas que mais aprecio na vida. E assim se deu, semana passada, comigo. Em meio as aulas, com um tanto de timidez e com um inglês esquisito de ambos os lados, me deixei conhecer a vida de Julian.

Julian tem 34 anos e viveu a vida toda na frança, apesar de ter nascido na Suíça ou Suécia (não sei ao certo). Pelo que pude entender ele tinha uma vida confortável lá, era dono de uma franquia de café, talvez da Starbucks ( Sim, eu não me apeguei aos detalhes. Pelo menos não a esses). O fato é que ele tinha 20 funcionários trabalhando para ele, tinha família, amigos, namorada, mas, mesmo assim, todos os dias de manhã, acordava e sentia uma total incompletude no que vivia.

Não, não achem Julian um ingrato. Ele, absolutamente, não é. Ele, simplesmente, sentiu o que a maioria de nós sente em um determinado ponto da vida (às vezes ou o tempo todo).Sentia a vontade de viver mais, de se conectar e conhecer de verdade as pessoas. Julian não precisou me dizer isso. Eu entendi. Julian tinha sede de novas experiências e em seu peito havia tanta vontade de sorrir pra vida e senti-la sorrir de volta que seu destino desaguou no mar.

Sim, sem metáforas. Julian vendeu tudo o que tinha, comprou um barco e viaja pelo mundo cruzando os mares. Sem planos traçados,às vezes sem amigos nos países que visita, sem ter inglês fluente... Sua bússola é seu coração, em cada ancorada de seu barco vai levando um pouquinho de quem conhece e deixando muito de si.

Mas se você acha que esse texto vai falar sobre as aventuras e histórias dele, você se enganou. Esse texto não é sobre Julian. Esse texto é sobre mim. Esse texto é sobre como conhecer Julian mudou minha forma de enxergar a vida.

Convivi uma semana com ele, pois, Julian não procura em suas viagens apenas pontos turísticos ou passeios inusitados. Ele gosta de conhecer a "vida real" das pessoas e a rotina daquele lugar. Por essa razão, frequentou as aulas da universidade conosco, deu banho em cachorros no centro de zoonoses, participou de reuniões, viveu, de fato, um pouco da vida de Thaísa, minha colega de classe e nossa amiga em comum, cuja casa ele estava hospedado.

Mesmo com os problemas da língua, como já disse, tentei me comunicar, pois queria saber mais sobre quem era aquela pessoa que teve a coragem que eu não tenho. Eu senti uma conexão de anseios imediata com ele. Eu também tenho vontade de realizar feitos ousados, de ir mais longe do que a maioria, de viver uma vida que não se resuma a trabalhar 5 dias por semana e viver 2, tenho medo de encher meu Lattes e ter um velhice vazia. Eu te falei sobre isso, Julian. É que, às vezes, dá medo sonhar alto demais.

Julian, falou coisas bonitas sobrem mim, me deu flores, e disse que não tinha dúvidas que um futuro bom me esperava. As palavras dele são gentis e genuinamente sinceras, mas meu maior agradecimento vem pela forma que Julian, por meio de sua atitude parecida com o do cara de "Into the Wild", me mostrou que a nossa vida é do tamanho da nossa coragem. Me mostrou que sonhar alto não deve amedrontar quem tem asas. As de Ícaro queimaram, mas quanta poesia não há em uma vida vivida, inteiramente, pelo que se acredita? Julian me mostrou que a morte não está em deixar a vida, mas em perder a vida ainda nela.

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Converso com Julian pelo facebook, desde que o conheci há poucos dias. Usamos o Google Translate e nosso inglês meio esquisito. Falamos sobre cinema francês, eu lhe apresentei Caetano Veloso, ele me mostrou Sébastien Tellier, conversamos como tapioca e cuscuz são maravilhosos, mas como ele também sente saudade da requintada gastronomia francesa. Conversamos sobre como ele ama essa nossa forma de expressar o que sentimos e de como desde que saiu dos frios moldes europeus ele vem se transformando em alguém com até uma certa fé.(Ele não sabe bem em quê ainda. Não usou a palavra Deus).

Eu falo muito, Julian diz que às vezes sou irritante, mas sei que é brincadeira. Julian vai embora, já ficou tempo demais no Brasil. Sua vida é feita de chegadas e partidas. Não sei seu próximo destino, talvez Argentina ou Nova Zelândia. A vida em travessia não para, mas ele disse que sua casa é aqui. Eu falei pra ele que nossa casa é onde nosso coração está.

Por algum motivo, em poucos dias já somos amigos. Por algum motivo cruzei meu destino com o dele num momento em que precisava de inspiração para continuar a minha travessia, que não acontece pelos mares, mas diariamente quando luto por coisas que ninguém parece acreditar, quando insisto em apostar que a arte pode sim me levar longe. Julian veio me encantar com sua bravura no momento oportuno ( Como tudo que nos acontece). Ora, se ele abriu mão de uma vida cômoda e encontrou coragem em si para passar dias sozinho no meio do oceano, eu também posso encontrar coragem para continuar colorindo meus sonhos mesmo quando a vida insiste em desbotá-los.

Julian me fez prometer que mandaria notícias, mesmo sabendo que passa muito tempo no mar sem internet. Eu o fiz prometer que ele voltaria em junho para conhecer o Maior São João do Mundo aqui na cidade. Ele disse que vem. Disse que quer dançar forró. E que um dia vem morar aqui.

Na verdade, Julian já está bem brasileiro, já fala "Fora Temer", "Mulherengo", "Môfis". Julian diz "Obrigado". Eu também.

Se você quer conhecer um pouco de Julian, ele tem um site onde fala sobre sua vida: www.bleudeperse.com

Sua fanpage atende por Bleu de Perse. Procura lá! Ele ama ler comentários brasileiros ;)


Débora Marx

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