Débora Marx

Estudante de jornalismo. Espera um dia achar-se na vida e perder-se nas palavras...

Transição capilar e ser mulher

Havia decidido. Eu não ia mais fugir da chuva, não ia mais me privar de um banho de mar ou de rio. Eu não ia ser mais quem me disseram para ser. Eu ia ser o meu próprio padrão.


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Ser mulher não é uma tarefa, nem de longe, fácil. Além de tudo que sofremos de podas durante a vida, de misoginia, de sentir medo nos ambientes onde deveríamos nos sentir seguras, ainda existe uma força tão pesada quanto essas vinda de um lugar silencioso, por vezes esquecido, mas que nos fere e reduz de maneira igualmente cruel: os padrões de beleza.

Dito isso, vou começar essa história com uma viagem maravilhosa para o Rio São Francisco. Era primavera, todos se divertiam e se renovavam naquelas águas de energia incomparável e mística. Menos eu. Eu não podia. Eu não me permitia participar daquela alegria toda. E o porquê? Bom, hoje eu me envergonho de admitir, mas eu não podia MOLHAR O MEU CABELO.

Isso pode parecer bobagem pra você, futilidade, mas graças a esse comportamento meus olhos abriram para uma realidade que eu, que me considerava tão feminista, ainda não tinha me dado conta. Nada era sobre cabelo. Tudo era sobre escravização enquanto mulher aos padrões impostos, sobre insegurança, aceitação, racismo velado e padrões estreitos e cruéis. Tá meio perdido? Calma que vou explicar tudinho, senta ai, colega, que esses parágrafos foram apenas a ponta do iceberg.

Bem, o fato todo é que sou uma mulher de pele branca, exceto pelo cabelo, herança da nossa miscigenação e, genuinamente, um traço negro. Desde os 10 anos, antes mesmo de aprender a calcular frações já tinha aprendido a ODIAR o meu cabelo, a escutar piadinhas de parentes e a nunca achar que estava tão arrumada ou bonita quanto as minhas amiguinhas de cabelo liso.

Aos 12 anos minha mãe permitiu o meu primeiro alisamento e desde então não parei. Lembro disso como um marco entre a menininha cabisbaixa que se sentia feia, para uma menina que, como um passe de mágica (e algumas horas no salão), estava linda, se sentia identificada nas bonecas, nos desenhos, nas princesas... Sendo assim, minha auto-estima sempre era ótima com os meus cabelos esvoaçantes e lisos, a não ser quando minha raiz começava a crescer. Que dias difíceis! Ela não podia aparecer!!! Meu humor ficava do cão e era comum deixar de sair de casa por isso ou perder horas do dia para fazer chapinha e deixar tudo em ordem.

Cheguei aos 21 anos levando a vida assim e me sentindo feliz, até chegarmos aonde? Sim, lá na viagem do início do texto, lembra? Lá no Velho Chico, uma cortina que velava a minha real condição foi rasgada, não só porque vi todo mundo mergulhando e permaneci em terra para manter a chapinha, mas porque percebi o quanto essa percepção do que era bonito não era minha, do quanto essa posição me tornava refém da mídia, dos homens, do racismo. Eu percebi em 5 dias que o simples e fútil fato de manter o meu cabelo da maneira que ele não era me tornava, muitas vezes, telespectadora dos momentos e não participante.

IMG_0808.JPG Eu nessa tal viagem

Depois desse primeiro baque, eu não conseguia mais parar de refletir sobre tudo que esses 09 anos de alisamento tinham significado. Eu que defendia tanto igualdade salarial entre gênero, que ocupava lugares de fala enquanto mulher, que defendia nossa liberdade de ser quem quisermos ser, que achava um absurdo a barbie ser sempre branca e loira, que carregava no peito a bandeira de que quem deve estar feliz com o próprio corpo somos nós e não eles, me perguntei: Pra quem eu estou fazendo isso? Quem foi a maldita pessoa que me ensinou que eu preciso ser diferente do que realmente sou para ser bonita? E me dei conta que o machismo me ensinou. Seu capricho exalta as brancas, magras e LISAS e eu, por muito tempo, me sentia bem em atendê-lo, mas não mais.

A partir daí, eu decidi me libertar, decidi ser quem eu sou. Apesar da maioria das atrizes, cantoras e princesas continuarem lisas e lindas eu seria cacheada e seria igualmente bonita. Havia decidido. Eu não ia mais fugir da chuva, não ia mais me privar de um banho de mar ou de rio. Eu não ia ser mais quem me disseram para ser. Eu ia ser o meu próprio padrão.

Hoje, tenho 1 ano e 3 meses deixando os meus cabelos florescerem livres. Tem dias ruins em que não me reconheço no espelho, os fios que chegavam quase na cintura, agora, estão no queixo. Olho para as fotos antigas e não consigo mais me identificar ali, e me empatizo ainda mais com as mulheres negras, gordas, albinas, trans... que fazem do seus corpos templos de resistência e passam por preconceitos e angústias tão maiores. A elas toda a minha admiração.

Sem Título-1.jpg Meu Antes x Depois

“Para de mimimi, é só cabelo”. Alguns podem dizer isso, mas pra mim são quase 10 anos negando a única referência negra em mim, porque vivemos numa sociedade em que ser preto é feio. São quase 10 anos deixando uma cultura eurocêntrica se apropriar do meu corpo. São quase 10 anos sendo o que eles esperavam que eu fosse. São quase 10 anos apoiando a ditadura do liso sem entender o porquê.

Se você é mulher, alisa seus cabelos e se sente bem com isso, tudo bem! Nós temos esse poder de decisão. Contudo, se você faz isso porque se sente mais aceita pelos OUTROS, mais atraente PARA OS OUTROS, mais dentro do padrões DOS OUTROS, eu te digo uma coisa: Nunca eu fui tão minha, quanto eu sou hoje e nunca me senti tão eu, tão livre e -por que não dizer?-, tão bonita.

Recentemente, fiz um vídeo com a minha irmã mais nova para empoderar meninas cacheadas. Confira:


Débora Marx

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