prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Do mundo fechado ao universo do conteúdo aberto

Refrigerantes de cola, sistemas interativos e impressoras 3D podem possuir muito em comum. Mais do que isso: podem ser pequenas expressões de um universo do conteúdo aberto.


Superando qualquer pecha de modismo passageiro ou doutrina hipster restrita a um punhado de jovens munidos de uma conexão à internet, a expressão open source completa uma década de meia no ano de 2013.

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Popularizado após o anúncio de que a Netscape disponibilizaria gratuitamente o código de seu Netscape Navigator na internet, inicialmente o termo passou a fazer referência aos softwares que possuem código-fonte publicado sob licença que garante alguns direitos relacionados à sua autoria, possibilita a utilização do mesmo para trabalhos derivativos e proíbe qualquer restrição sobre quem ou para quais fins deve ser utilizado. Transcendeu, contudo, o universo dos sistemas digitais.

Atualmente são várias as definições possíveis. Segundo a Wikipédia, no campo da produção e do desenvolvimento “open source é uma filosofia que promove a livre distribuição e o acesso a determinado produto final ou projeto”, enquanto de acordo com o opensource.com o termo descreve “um modo de fazer, uma perspectiva e uma cultura – na vida, nos negócios, no direito, na política, educação e saúde”. Para qualquer uma das acepções possíveis, a essência do sucesso do modelo consiste em uma possibilidade de ágil criação de conteúdo a partir de soluções colaborativas.

O primeiro quinquênio do século XXI foi fundamental para a ampliação do conceito de open source. Iniciativas de conteúdo aberto como a Wikimedia Foundation e o Project Gutenberg, cujos esforços estão direcionados ao arquivamento e distribuição de obras intelectuais através da digitalização de livros (em sua maior parte textos completos em domínio público) de fato colaboraram para evidenciar que a definição não se limitava ao modo como eram escritos os programas de computador. Mas foram iniciativas como o Arduino e a OpenCola – um refrigerante de cola cuja fórmula é disponível para uso e modificação de forma livre e gratuita que obscureceram as fronteiras entre artigos virtuais e materiais de código aberto.

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O Arduino, por sua vez, é tão representativo na superação dos limites do virtual que merece um capítulo à parte na história dos open source. Desenvolvido originalmente pela italiana Smart Projects e registrado sob Creative Commons de forma a flexibilizar seu uso, o componente é tido como uma iniciativa bem sucedida de conteúdo aberto, para muito além dos códigos de programação. Constitui-se por uma placa eletrônica cuja finalidade é auxiliar no controle de sistemas interativos, com aplicações nas áreas da robótica, engenharia de transportes e engenharia agrícola, por exemplo. Ainda que não abra mão da sua condição de hardware-livre – o Arduino permite derivativos e proíbe qualquer restrição sobre usuários ou formas de uso – o componente possui versões disponíveis para venda e passa longe de se tornar uma utopia comercial ao gerar lucro aos seus fabricantes baseado na entrega do equipamento e consultoria aos interessados em utilizá-lo. Em outras palavras, o objeto representa um modelo viável de empreendimento no universo do conteúdo aberto.

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A impressora 3D, finalmente, é uma alternativa para solapar a última barricada existente entre o mundo virtual e o material, reduzindo de maneira abrupta o problema do acesso às estruturas e à ferramenta necessária para produzir conteúdo. A modelagem digital reduz etapas na produção – antes era preciso projetar manualmente a peça para depois construir o molde do objeto a ser trabalhado – e diminui os custos do produto final. Outras vantagens são a versatilidade do equipamento bem como a rapidez da impressão. Mais do que um simples artigo de prototipagem rápida: aliada à profusão da cultura do open source e dos desenhos técnicos disponibilizados livremente na internet, num futuro não tão distante a impressora 3D pode contribuir para a construção de um mundo material construído à base de conteúdo aberto: de pequenas obras de arte de mesa a requintados objetos de mobília. Vale lembrar que do ponto de vista técnico isso é perfeitamente possível - até mesmo um carro já foi concebido pelas técnicas de impressão tridimensional para disputar uma competição entre estudantes de engenharia do mundo todo.

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Em suma, dadas as possibilidades técnicas e a viabilidade desses empreendimentos sob uma ótica comercial, a profusão de idéias open source para além do mundo virtual é perfeitamente facítvel. Mais do que isso, é uma perspectiva extremamente desejável: segundo reportagem da Fortune, “idéias open source possuem um enorme potencial para além dos códigos de software”. A única necessidade para a difusão desse modelo de desenvolvimento, aponta, “são participantes que contribuam e se beneficiem do conteúdo compartilhado”. A transição de um mundo fechado para um universo do conteúdo aberto nunca esteve tão distante da ficção científica e tão perto do mundo real. Sorte nossa.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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