prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

A grande falácia do "ativismo de sofá"

Diferentemente da transmissão televisiva e das mídias tradicionais onde um emissor transmite a mesma informação em larga escala, a internet possui uma outra forma de difusão do conhecimento. Dentre as diversas implicações disso, é notável que a web se torna terreno fértil para o debate político.


Por um conjunto de razões pessoais, me vi privado de leituras mais densas durante a última semana. Restrito a alguns raros momentos de conexão e algumas poucas visitas às redes sociais, o Facebook acabou sendo o meio pelo qual entrei em contato com as notícias mais relevantes naquele período. Através dos links que gradualmente apareciam na timeline, fui informado sobre a possível indicação de José Pepe Mujica ao Prêmio Nobel da Paz e a recente hospitalização do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, além de me atualizar acerca do debate de temas correntes como o Estatuto do Nascituro. O que mais chama a atenção, contudo, é a mobilização digital a respeito do aumento das passagens de ônibus na cidade de São Paulo.

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Diferentemente da transmissão televisiva e do seu sistema de difusão no qual um único emissor transmite informação em larga escala, na web todos podem ser produtores e receptores de conteúdo. Quanto mais ampla a interconexão e quanto maior a quantidade de pontos de acesso à rede, mais rica e plural é a experiência daquele que se dispõe a um passeio por uma rede social ou por uma comunidade virtual. O resultado final é uma enorme multiplicidade de pontos de vista, percepções e perspectivas – exatamente como visto na última quinta-feira quando se iniciaram as reivindicações contra o aumento da passagem do transporte público na cidade de São Paulo. De transeuntes interessados em reportar uma visão particular do ocorrido a opiniões em favor ou contrárias às manifestações, o debate virtual mostra uma importante faceta política da internet, afastando a pecha do “ativismo de sofá” ou qualquer conotação pejorativa que a discussão de assuntos políticos na internet venha a receber.

Embora o advento do ativismo digital não seja novidade da última hora, este ainda é visto com grandes ressalvas por uma parcela significativa da população – na qual se incluem muitos dos próprios usuários da internet. Isso se explica pela falsa concepção de que o mundo virtual e o real são mutuamente excludentes. Tal premissa não passa de uma grande falácia: além de não se excluírem, virtualidade e realidade são elementos complementares, tornando qualquer disposição em contrário tão somente um oximoro. Sem amarras a qualquer tempo ou espaço, entidades virtuais são desterritorializadas e capazes de gerar manifestações em diferentes momentos e lugares.

Isso explica a enorme profusão dos movimentos sociais na internet. Não faltam exemplos de mobilizações que souberam tirar grande proveito da utilização das mídias sociais em prol de uma causa: a oposição ao reajuste das tarifas do transporte público em Teresina e a contestação pública ao resultado das eleições iranianas em 2009 (naquele ano as eleições presidenciais do Irã foram o assunto mais comentado do Twitter, superando até mesmo a morte de Michael Jackson) são experiências que confirmam a crescente importância da temática política na internet na construção de uma sociedade aberta ao debate.

Se a formulação e a expressão de preferências são condições fundamentais para a existência de uma democracia, a internet tem muito a acrescentar. A intensidade das manifestações virtuais não deixa mentir: provenientes de diferentes interlocutores, diferentes perspectivas, pontos de vista ou ângulos discursivos, tornavam a web semelhante a uma obra cubista. A mobilização, contudo, extrapola os limites de uma moldura.

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Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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