prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

“Que maçada!”: a arte e os problemas da cidade

Por vezes a literatura se constitui como um ponto de intersecção entre o projeto artístico e o científico – enquanto um contribui para a compreensão da condição humana, o outro empreende esforços para enriquecê-la. A Cidade e as Serras cumpre seu papel para retratar a vida nas grandes cidades, que também é objeto de estudo de cientistas no mundo todo.


Dados do Relatório do desenvolvimento humano de 2003, publicados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) apontam para um significativo processo de urbanização em curso no mundo todo. Em 1975, 38% da população mundial era urbana. Em 2001, o contingente já subira para 48%, com previsão de ascensão franca até o ano de 2015. No início da Primeira Revolução Industrial, essa taxa sequer ultrapassava 3%, o que evidencia íntimas relações estabelecidas entre urbanização e atividade fabril.

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Na antiguidade, cidades eram nada mais do que entrepostos comerciais. Centos de poder e negócios, abrigavam uma minoria ínfima da população mundial, enquanto que a maior parte da vida humana se desenvolvia no campo. O capitalismo industrial, por sua vez, expandiu os limites das cidades e deu início a um processo de urbanização sem precedentes. A partir de então áreas urbanas se tornaram o locus da vida cotidiana de um grande número de pessoas. Para o bem e para o mal.

Inegável que o crescimento de grandes cidades tenha possibilitado uma miríade de facilidades aos seus habitantes. Com a expansão periférica da malha urbana, redes foram estabelecidas, possibilitando o fluxo de pessoas, bens materiais e imateriais entre localidades cada vez mais distantes. Surgiam a metrópole e a megalópole: grandes centralidades, concentravam funções político-administrativas, turísticas, portuárias, industriais ou culturais. O bônus, todavia, traz consigo o ônus: problemas como segregação espacial, subemprego, más condições de moradia, desigualdades socioeconômicas e violência tornam o meio urbano um ambiente extremamente agressivo e por vezes acabam por erodir a qualidade de vida nas grandes cidades.

É justamente o impacto negativo dos problemas urbanos à saúde mental dos moradores de grandes cidades o tema abordado no São Paulo Megacity Mental Health Survey, publicado em fevereiro de 2012 e trazido à tona no último dia 10 pelo SpressoSP. De acordo com o trabalho conduzido por um grupo de pesquisadores brasileiros (que é parte de uma pesquisa mundial sobre saúde mental realizada junto à OMS, cabe ressaltar) quase um terço dos indivíduos entrevistados havia sido acometido por alguma forma de transtorno mental nos 12 meses anteriores à entrevista – ansiedade é a evidência mais comum, se apresentando em 19,9% dos casos estudados. Homens migrantes e mulheres que habitavam regiões com altos índices de privação social estavam entre os perfis mais vulneráveis aos transtornos na região metropolitana de São Paulo segundo a pesquisa.

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O estudo é de grande importância para levantar informações acerca dos efeitos da urbanicidade e dos problemas decorrentes dessa condição na vida das pessoas, bem como apontar soluções de forma a aumentar a qualidade de vida de uma parcela significativa da população mundial que tende a se tornar a maioria dentro de poucos anos.

A vida imita a arte

Muitas vezes a literatura se apresenta como o ponto exato da intersecção entre projeto artístico e estudo científico. Um empreende esforços para compreender a condição humana, enquanto o outro se mobiliza na tentativa de criar meios para enriquecê-la. A Cidade e as Serras pode ser facilmente considerado um expoente dessa relação complementar entre arte e ciência.

Escrito no crepúsculo do século XIX por Eça de Queiroz, a obra foi publicada em 1901, após a morte do escritor. Produzida a partir do desenvolvimento da idéia central do conto Civilização, a narrativa é quase completamente dedicada a abordar a urbanidade parisiense e, sobretudo, à maneira que a mesma afetava o protagonista Jacinto de Tormes sob a ótica de Zé Fernandes, personagem que testemunha toda a trama e a transmite ao leitor com elegante linguajar, além de um grande nível de detalhamento.

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De saída, Eça apresenta um Jacinto a tecer loas à modernidade e à civilização. Segundo a ideia concebida pelo protagonista, o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado. Tal ideia era professada como forma de culto à técnica e ao saber científico – “o robustecimento da força pensante com todas as noções adquiridas desde Aristóteles e a multiplicação da potência corporal dos seus órgãos com todos os mecanismos inventados desde Teramenes” – e tinha como altar, como atesta o narrador, “uma enorme cidade”.

Em contrapartida, o olhar crítico de Zé Fernandes observa um Jacinto perdido em meio à pressa e ao tumulto de sua supercivilização, refém de seus “instrumentozinhos para a simplificação do trabalho”. Compartilhando sua atenção entre diversos dispositivos e atividades e incapaz de completar tarefas aparentemente simples como a escrita de uma carta, o protagonista possui traços marcantes da sociedade urbana de sua época e personifica uma crítica que permanece atualíssima, num mundo caracterizado pela atenção fragmentada entre múltiplos afazeres e comunicação escrita limitada a 140 caracteres.

A qualidade das relações sociais na metrópole também é posta em xeque na obra. Jacinto era descrito como alguém dotado de uma civilização muito complexa, cuja rotina era repleta de atividades que se prendiam a uma pobre sociabilidade e interesses criados para uma vida em consciente comunhão com todas as funções da cidade. Suas obrigações, contudo, frequentemente o desagradavam, o fazendo entoar o seu bordão “que maçada!”. Apontavam para uma importante conclusão: nem sempre o grande número de conexões com diferentes pessoas proporcionadas pela cidade se traduziria em uma maior qualidade e enriquecimento à sua vida social. Em suma, a pena de Eça de Queiroz traça uma análise profunda da relação entre o indivíduo urbano supercivilizado e o meio que o cerca a partir de seu protagonista e da Paris do final do século XIX.

Nem mesmo a cidade-luz escapa à escrita ferina de Eça. Por meio do narrador-personagem, Zé Fernandes, descreve de forma crítica os espaços públicos parisienses.

“Longas ruas, milhas de casario, todo de caliça parda, eriçado nas chaminés de lata negra, com as janelas sempre fechadas, as cortinas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, ângulos ásperos: tudo seco, tudo rígido.”

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Ainda que nada disso fosse capaz de contrariar o fato de que a cidade era uma referência cultural e econômica no período que compreende a virada do século XIX para o século XX, é evidente a crítica feita aos espaços urbanos parisienses, caracterizados pela hegemonia de tijolos e concreto que lhes conferiam certa frieza e rigidez. Suas janelas fechadas e cortinas abafando pouco favoreciam a sociabilidade.

A obra de Eça traz à tona uma série de reflexões sobre a condição urbana da sociedade contemporânea. Mais de cem anos após a publicação da obra, o processo de urbanização em curso no mundo após a Revolução industrial não se reverteu – muito pelo contrário: acelerou seu ritmo. Projeções esperam cada vez mais pessoas vivendo em áreas urbanas nos próximos anos.

Ainda que zonas urbanas proporcionem inúmeras facilidades aos seus habitantes, há de se questionar se a qualidade de vida nas grandes cidades corresponde a um padrão desejável. Caso contrário, viraremos presa fácil de transtornos mentais, reféns de calmantes e ansiolíticos. Ou nossa existência será uma grande maçada.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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