prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Como cutucar alguém no mundo real

Tecnologias móveis se tornam parte integrante do conteúdo de diversas pessoas no mundo todo dia após dia. É importante, contudo, atentar para a forma de utilização dessa infinidade de dispositivos, que moldam praticamente à sua imagem e semelhança a era da informação.


2,7 bilhões de pessoas estarão em contato com a internet até o fim do ano de 2013. Isso corresponde à fatia significativa de 38% da população mundial, hoje à volta de 7,2 bilhões de pessoas. Expressivos o bastante para denunciar o alvorecer de uma sociedade em rede, os dados são evidência incontestável de um mundo hiperconectado. Quando a pauta é telefonia móvel, projeções da União Internacional de Telecomunicações (UIT) apontam para o crescimento do número de celulares no mundo, de modo que, ao final do ano, haverá em média uma linha ativa para cada habitante do planeta.

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Na esteira do crescimento do número de celulares, a assinatura de serviços de banda larga móvel apresenta furiosa ascensão: de 268 milhões de usuários em 2007 para 2,1 bilhões de usuários em 2013. A conclusão não poderia ser mais simples: a tecnologia não só conferiu mobilidade ao invento de Graham Bell, mas também o transformou em pequenas obras de arte de bolso e canivetes suíços digitais, definitivamente conectados e integrados à web.

A ideia de conexão perene aliada à mobilidade é sedutora. A posse de uma tecnologia informacional portátil e multimídia em tempo integral abre possibilidades para opções culturais ou sociais que seriam impensáveis sem a sua presença. Nesse contexto a comunicação à distância é extremamente beneficiada, permitindo que sejam estabelecidas relações entre pessoas geograficamente distantes através de redes sociais e serviços de mensagens instantâneas. Além disso, também se torna possível a navegação pelas páginas da web ao menor toque sobre a interface principal do aparelho.

Por mais agradável que pareça este cenário, há de se ressaltar que a tecnologia não é uma forma autônoma de cultura e se relaciona de forma muito íntima com a sociedade, seus valores e o contexto histórico no qual se insere. Desse modo, benefícios e prejuízos decorrentes da utilização de artefatos tecnológicos estarão associados às relações estabelecidas entre eles e os valores culturais, sociais e éticos – elementos ora convergentes, ora conflitantes - presentes no meio social.

Não são poucos os impactos indesejáveis em decorrência do descompasso entre esses elementos. Ansiedade, isolamento, dependência e sobrecarga cognitiva são algumas das possíveis conseqüências de uma má utilização da técnica, que pode resultar em sérios prejuízos na realização de atividades cotidianas. A psicologia já se ocupou de estudá-los: o FOMO (acrônimo de Fear Of Missing Out, que se define como a ansiedade subseqüente à percepção de que se está perdendo algum evento importante) já é assunto em voga entre especialistas, frequentemente descrita como uma obsessão típica da era da informação. O cinema também não tardou em retratar essa situação no brilhante curta I Forgot My Phone, escrito por Charlene deGuzman e dirigido por Miles Crowford.

Versados e fluentes do manuseio de dispositivos eletrônicos, talvez seja a hora de analisarmos os efeitos produzidos pela tecnologia na nossa vida cotidiana. Distante dos exageros da tecnofobia – a completa e irrestrita rejeição aos artefatos tecnológicos -, também há de se cuidar para evitar o extremo oposto, a tecnofilia – ou simplesmente a aceitação irrefletida de tudo o que parece hi-tech. Quem sabe encontrar um equilíbrio ideal entre lotadas salas de chat e intensas rodas de conversa ou quiçá reaprender a curtir ou cutucar alguém no mundo real. E, para evitar os abusos, vale a máxima memetizada e propagada à exaustão no meio digital: keep calm and disconnect.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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