prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Precisa ser cor-de-rosa?

A GoldieBlox reacende o debate: existe brinquedo para meninos e para meninas?


A propaganda é sedutora e convincente, implacavelmente eficaz na tentativa de atrair atenção para o mais novo destaque nas prateleiras de brinquedos infantis. A causa também é nobre: mostrar desde cedo às meninas que existe algo além das Barbies e Susies. O ínterim entre a intenção dos idealizadores e o produto final, contudo, é permeado por um grande debate que abarca questões de identidade de gênero e a existência de brinquedos para meninos e para meninas.

goldieblox_1.jpg

Se você não acompanhou nada disso, é melhor assistir primeiramente à fantástica peça publicitária da GoldieBlox, empresa norte-americana do ramo de brinquedos infantis que há pouco lançou seu principal produto às lojas do segmento. Homônimo, o brinquedo tem a intenção de mostrar às meninas que a engenharia também pode ser uma opção – especialmente em uma fase na qual apenas são apresentadas bonecas, casinhas e tudo aquilo que remete à tediosa experiência da dinâmica do lar. Os anseios dos idealizadores possuem respaldo estatístico: no mundo todo existem apenas 11% de mulheres atuando no ramo da engenharia, enquanto 89% do mercado é composto por homens.

O discurso é claro e define bem seu público-alvo. O site oficial da empresa estampa: “Nossa meta é estimular as garotas a construírem [e] estamos aqui para que elas o façam no sentido mais amplo da palavra”. Tal clareza, contudo, é motivadora de controvérsias: é ético ou ao menos desejável que empresas do ramo vinculem explicitamente em suas campanhas publicitárias o brinquedo o qual se espera divulgar ao gênero que seus idealizadores definem como potencial consumidor?

Não tardou para que os críticos se fizessem ouvir. A argumentação dos que se opõem ao produto tem como mote o fato de que já existem produtos infantis no segmento que são suficientemente capazes de estimular as competências lógico-matemáticas e a inteligência espacial dos pequenos, tornando a GoldieBlox tão somente uma ideia já executada, revestida por uma roupagem cor-de-rosa e um discurso sedutor. E mais importante: diferentemente da Goldie, os primeiros sequer fazem questão do rótulo de “brinquedo para meninos” ou “para meninas” – em outras palavras, suas campanhas publicitárias não se vinculam ao gênero de seus potenciais consumidores. Ante ao debate, a ferina crítica da britânica New Statesman no poderoso artigo The sly sexism of Goldie Blox's "confidence-boosting" toys for girls ("O astuto sexismo de GoldieBlox" em tradução livre - para ler na íntegra clique aqui) indica que “precisamos deixar que as crianças encontrem seus próprios caminhos”. E arremata: a empresa “sequer tentou esconder o fato de que seus brinquedos são estritamente direcionados a meninas”.

GoldieBlox-image.png

Não é o primeiro caso em que a indústria de brinquedos infantis se envolve de forma controversa em questões relacionadas à publicidade ancorada ao gênero. No início do ano passado, o lançamento da linha LEGO Friends causou grande dissonância em decorrência da publicidade estritamente direcionada a garotas existente em torno do produto. O imbróglio motivou uma petição em oposição à campanha da empresa.

“Estereótipos limitados associados a [brinquedos de cor] rosa ou azul simplesmente cerceiam as liberdades de crianças desde muito cedo. Um crescimento saudável está relacionado à criação de uma vasta gama de possibilidades e opções às nossas crianças. É por isso que a campanha da LEGO desapontou tanto aos pais e responsáveis. Uma maior variedade de cores e possibilidades para que crianças possam criar imagens as quais realmente desejam se torna muito mais interessante em face de oferecê-las um punhado de estereótipos”, disse à época a pesquisadora do desenvolvimento social e psicológico de garotas Dra. Lyn Mikel Brown.

As críticas se tornavam ainda mais ferrenhas quando a evolução das campanhas publicitárias ao longo do tempo era observada. Em 1981, a LEGO apresentava sua publicidade: uma menina segurava uma construção feita com as peças do kit de brinquedos. Logo abaixo era possível a leitura: "você já viu algo parecido com isso? Não apenas com o que ela fez, mas com o orgulho que ela demonstra por tê-lo feito. É o olhar das crianças após construírem algo sozinhas, independentemente do que tenham criado. [...] [O brinquedo] irá ajudar as crianças a encontrarem algo realmente especial: elas mesmas."

lego_ad_1981.jpg

Já na campanha de 2013 a empresa publica: "é um jardim, um navio pirata, um castelo, uma ilha, uma floresta encantada e uma aventura épica. É exatamente o que ela quer que seja. Ela é uma desbravadora, construtra, designer, criadora e inventora. Ela apenas espalhou suas peças de lego pelo chão e as moldou como bem entendeu. Ela não apenas está mostrando o que ela fez, mas também mostra do que ela é feita."

Lego-friends.jpg

A principal diferença entre as campanhas de 1981 e de 2013 (além da evidente mudança de cor das peças do colorido para um misto de tons róseos e amenos) é o fato de a primeira se dirigir a crianças, enquanto a mais recente é focada no público feminino, o que é evidenciado pela recorrente utilização do pronome “ela” ao longo do texto.

É notório que tanto a GoldieBlox quanto o LEGO Friends tenham o inquestionável potencial de estimular que garotas transcendam os contos de fadas, princesas, bonecas e casinhas. Quiçá sua disseminação até seja de fundamental importância para estimular que meninas desenvolvam capacidades lógico-matemáticas e espaciais desde cedo, o que pode ter substancial impacto futuro no número de mulheres que optam por carreiras relacionadas à engenharia, às ciências e à tecnologia.

A questão, contudo, envolve outras variáveis: além de produtos assumidamente direcionados ao público feminino, existem outros tantos que cumprem muito bem esse papel. Não se autoproclamam como produtos para garotos ou sequer proíbem expressamente o manuseio de garotas às peças. Não levantam qualquer bandeira e dão liberdade às crianças para que construam sua própria identidade – numa fase em que o processo é de fundamental importância, cabe ressaltar.

Acima de tudo, LEGO e GoldieBlox cumprem um importante papel: o de estimular o debate. É desejável que campanhas de empresas do ramo vinculem seus produtos a gêneros e seus estereótipos pré-estabelecidos como ferramenta de divulgação? Brinquedos e peças publicitárias destinadas às meninas precisam mesmo ser cor-de-rosa?

O debate é longo e pode render bons frutos.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/recortes// @destaque, @obvious //Gabriel Silva Farias