prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Escola pra quê?

Ferramentas digitais criam novas experiências educacionais e alteram profundamente a relação entre o homem e o saber. Seja por meio de vídeos, textos ou sofisticados softwares, o computador virou um grande laboratório e uma sala de aula por excelência. Qual o papel da escola diante dessas transformações?


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Foi sem tapete vermelho ou qualquer tipo de alarde que a Google fez o lançamento de sua plataforma educacional no último mês de novembro. Apenas o anúncio estava lá no dia 21: sob um slogan oportuno que ressaltava a pluralidade no conteúdo ("Todas as formas de ensinar. Seu jeito de aprender", dizia) e em parceria com a Fundação Lemann, o YouTube/EDU foi lançado com o rótulo de plataforma de excelência, dedicado a estudantes e professores de todo o Brasil.

O lançamento do YouTube/EDU, por si mesmo, não justificaria nenhum tipo de alarde circunstancial e tampouco uma simples nota de rodapé decorridos três meses de suas atividades. A ideia nem é tão nova assim: o e-learning já tem seus expoentes populares na internet, como o Code Academy, que ensina programação de forma totalmente gratuita pela web. Dentre os que se destacaram pelo conteúdo didático audiovisual, os louros do pioneirismo devem ser concedidos ao Veduca e ao Coursera, que reúnem videoaulas de diversas universidades ao redor do mundo e realizam até mesmo emissão de certificados no momento da conclusão do curso.

Nem mesmo os vídeos do YouTube/EDU são grande novidade: as 8 mil aulas disponibilizadas aos estudantes após o lançamento da plataforma não eram inéditas, mas sim uma hábil compilação de peças educacionais realizadas pela curadoria da Fundação Lemann. "A ideia principal era aproveitar essa característica única da internet, que é a diversidade de informações", atesta Marcelo Knobel, coordenador da curadoria, em um dos vídeos institucionais do projeto.

Ainda assim, é preciso compreender a relevância do YouTube/EDU e do contexto que o cerca, permeado por uma enxurrada de informações e uma série de mudanças que marcam a relação de ensino e aprendizagem dentro e fora de instituições educacionais.

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É fundamental entender que uma das principais transformações decorrentes da popularização da internet diz respeito à quebra do monopólio sobre a difusão do conhecimento em larga escala, exercido pela escola ao longo de toda a história. A existência de um ambiente virtual que possibilita a interação entre indivíduos, arquivamento e acesso a recursos multimídia criou condições para que atividades didáticas pudessem ser pensadas a sério no ciberespaço.

E, diferentemente da experiência passiva dos antigos cursos por correspondência, o ensino a distância mediado por computadores possibilita a consolidação de comunidades de troca de informações entre estudantes de uma mesma turma ou em torno de um tema comum, de modo a dinamizar as práticas educacionais que nelas se constroem.

É de fundamental importância reconhecer o impacto do uso do computador em benefício das práticas educacionais. Uma vez que Marshall McLuhan (1911 - 1980) proponha interpretar artefatos tecnológicos como extensões do homem, torna-se tentador relacionar as possibilidades abertas pelo mundo digital às próprias funções cognitivas do ser humano.

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Segundo essa analogia bancos de dados podem se aproximar à função da memória, enquanto sistemas de inteligência artificial se assemelham ao raciocínio. Somados à oportunidade realizar simulações através de meios digitais e à realidade virtual, parece lógico supor que por trás da aparente frieza das telas de PCs, notebooks e tablets existe a perspectiva de intensas experiências educacionais mediadas por computadores.

Uma vez que essa arena permeada pela interconexão entre dispositivos digitais possibilite a existência de sofisticadas ferramentas de ensino e viabilize a interação entre indivíduos interessados em temas específicos, é natural que se questione o papel da escola na sociedade contemporânea. Pra dizer o mínimo: é até recorrente que, em tempos de dinâmicas e volumosas enciclopédias virtuais, análises mais apressadas (e claramente seduzidas pelo poder da tecnologia) apontem para uma suposta perda de relevância das instituições educacionais tradicionais no mundo moderno.

Talvez não seja bem por aí. Erro tão grave quanto a completa negação da tecnologia é a sedução instantânea irrefletida que atende pelo nome de tecnofilia – ou simplesmente a adesão desenfreada e acrítica aos dispositivos tecnológicos. Estes, sim, apresentam lá suas vantagens e talvez tenhamos muito a aprender através deles, seja na preparação para um vestibular, na conclusão do ensino superior ou ainda em pequenos cursos livres de fotografia, culinária e idiomas. Mas de maneira alguma se apresentam como substitutos imediatos da figura do professor.

Ante a esse cenário, todavia, uma grande transformação cabe às instituições educacionais. Tal como o docente enciclopédico, aulas carregadas como um solene desfile de nomes e datas tendem ao ocaso. Pierre Lévy, filósofo contemporâneo, aponta para seus substitutos: professores como animadores da inteligência coletiva e curadores culturais em meio à imensidão de conteúdo da web, além de uma postura adequada a um mundo no qual práticas de ensino a distância sejam comuns. E, mais importante: coexistam com a educação presencial.

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Nesse contexto, fica fácil reconhecer a relevância do YouTube/EDU e seu potencial impacto para a formação de milhares de estudantes que poderão fazer uso da ferramenta. Por um lado, a importância simbólica decorrente do lançamento de uma plataforma educacional na terceira página mais acessada da internet (perdendo somente para Google e Facebook, segundo o Alexa). Por outro, um variado cardápio pedagógico, dando liberdade ao estudante para que escolha a aula que lhe pareça mais conveniente e adequada entre os quase dez mil vídeos disponíveis para acesso.

O projeto tende a crescer, cabe a ressalva. Mas somente uma andorinha não fará verão: junto a plataformas como NovoED, Canvas e os já mencionados Coursera e Veduca alterarão profundamente o panorama educacional nos próximos anos. E que todos tenhamos uma boa aula!


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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