prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

É melhor pensar duas vezes

A chegada da Forever 21 ao Brasil vem acompanhada de grandes expectativas por parte de seus entusiastas e de um debate perene acerca das relações entre produtores e consumidores na sociedade contemporânea.


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Do mais breve e rasteiro tweet ao mais profundo e analítico portal de notícias, não houve quem não se ocupasse de anunciar a chegada da Forever 21 no Brasil nas últimas semanas.

Ao leitor mais desatento, a Forever 21 é uma rede de lojas do ramo de vestuário, fundada em Los Angeles no ano de 1984 por Do Won Chang. Após furiosa expansão - o que também se traduz numa exponencial ascensão de notoriedade no mundo da moda, cabe ressaltar - a empresa coordena negócios em diversas partes do globo: Estados Unidos, Canadá, Europa e Japão testemunharam o crescimento da companhia que abriu sua primeira loja em São Paulo no último dia 15 e no Rio de Janeiro no último sábado (22).

O burburinho, é claro, chamou a atenção de entusiastas da marca e outros tantos interessados no mundo da moda - muito provavelmente atraídos pela política de preços baixos estabelecida pela companhia, que promete criar pesadelos aos concorrentes no setor do varejo.

Mas isso pouco importa. O que saltou aos olhos em meio ao agito que marcou a inauguração das lojas da Forever 21 no Brasil foram as despretensiosas fotos tiradas por visitantes que captaram sutilezas do espaço físico de suas instalações e excertos do discurso que norteia a estratégia de marketing da companhia. "Artefatos têm política", diria Langdon Winner em uma de suas obras mais conhecidas. E nesse caso ela não poderia estar mais explícita.

Não foi preciso mais do que um lance de escadas para perceber o que transparecia sob a aura cool de uma das maiores companhias privadas da América segundo a Forbes. "Stop thinking, start shopping", dizia a inscrição em um dos degraus na unidade paulista situada no Morumbi. Sequer é necessário ir ao local para conferir: a imagem viralizou nas redes sociais e se tornou alvo das (merecidas) críticas de Lorena Barreto em sua última coluna no Brasil Post. A economista é enfática: "que o consumo desenfreado está criando uma geração de fashionistas desmioladas a gente já desconfiava. O que me assusta é uma empresa se posicionar escancaradamente com a mesma opinião diante do seu consumidor".

Difícil, arriscado ou insensato levantar disposições em contrário. Para muito além dos modismos, supor a naturalidade das relações de produção e consumo operadas de maneira irrefletida abre espaço para uma miríade de conflitos éticos, problemas ambientais e sociais. Em outras palavras, ensejar que as relações de consumo não estejam sujeitas ao juízo da razão ou à mais simples reflexão no ato da compra pode suscitar dilemas ao consumidor que se expressam no plano individual (eventual ruína financeira ou prejuízo futuro advindo de uma aquisição mal sucedida), coletivo (possível impacto social decorrente dos processos de produção ou do consumo do produto) e ambiental (custos à natureza ocasionados na produção, utilização ou descarte do produto).

Na contramão da compra irrefletida, iniciativas de consumo consciente têm se multiplicado e se popularizado ao redor do globo na busca por um sistema econômico mais sustentável ou ao menos pouco prejudicial ao mundo que o cerca. Estas iniciativas partem da premissa de que o consumo possui diversas etapas compreendidas da produção de bens ao descarte, passando pela aquisição e utilização do artefato propriamente dito. O reconhecimento das diferentes etapas suscita a reflexão de produtores e consumidores acerca dos custos implícitos às relações que estabelecem antes, durante e após o ato da compra, considerando-os antes de consolidar a aquisição de determinado produto.

Consumir conscientemente pode ser uma alternativa dentre tantas outras para humanizar as relações de produção e consumo – ou, ao menos, torná-las pouco agressivas ante o panorama atual. Esta, contudo, só ocorre de fato quando a razão é elemento presente no momento da compra. Pensar, em suma, é parte integrante do processo. Com a vantagem, é claro, de que está sempre na moda.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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