prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Existe amor no ciberespaço?

Tecnologias digitais encurtaram distâncias, aproximaram casais e promoveram o amor. Agora aplicativos dão conta de resolver suas crises.


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Notável intelectual polonês e grande expoente da antropologia social, Bronislaw Malinowski deixou como legado para a ciência o desenvolvimento de um método de investigação de campo a partir de seus estudos com o povo Mailu, e, posteriormente, suas pesquisas realizadas nas Ilhas Trobriand no início do século passado.

Contribuições significativas para a ciência de seu tempo, estes estudos não deixam de fazer algumas considerações sobre os relacionamentos de natureza romântica. Sob a ótica do antropólogo, "o amor é uma paixão tanto para o melanésio quanto para o europeu, e atormenta a mente e o corpo em maior ou menor extensão; conduz muitos a um impasse, um escândalo ou uma tragédia; mais raramente ilumina a vida e faz com que o coração se expanda e transborde de alegria."

Seja como tormento ou como fonte de alegria, parece razoável afirmar que o amor é afeto suficientemente importante para subverter a ordem de nossos dias, sobrepondo-se a velhos hábitos e rotinas nem sempre de maneira muito conforme.

A contribuição do sociólogo britânico Anthony Giddens acerca do tema aponta para o fato de que "o amor apaixonado é especificamente perturbador das relações pessoais, em um sentido semelhante ao do carisma; arranca o indivíduo das atividades mundanas e gera uma propensão às opções radicais e aos sacrifícios. Por esta razão, encarado sob o ponto de vista da ordem e do dever sociais, ele é perigoso."

Separadas por cerca de sete décadas e meia, as considerações de Malinowski e Giddens possuem valor na medida em que se apresentam como atemporais: resistem ao tempo e se provam válidas desde que registradas da pena para o papel, verdadeiras radiografias da alma humana.

Sob a sombra desse rico arcabouço teórico e viabilizados pelos esforços de uma miríade de técnicos, engenheiros e cientistas da computação ao redor do mundo, aplicativos de celulares e smartphones se apresentam como a solução contemporânea dos problemas amorosos de uma geração que nasceu on-line ou que ao menos aprendeu a conviver muito bem com a ideia da conexão perene.

O tema ganhou notoriedade após o instituto de pesquisas americano Pew Research divulgar que 41% dos adultos de 18 a 29 anos que namoram se sentem mais próximos ao parceiro graças a mensagens de texto e conversas on-line. Ainda, 23% deles já tentaram resolver virtualmente algum imbróglio o qual não conseguiam solucionar de forma presencial.

Não são poucas as ferramentas que prometem a solução para os problemas do coração. De terapias de casal à distância a rastreadores de namorados, são diversos os serviços oferecidos em diferentes preços, plataformas e idiomas. Fix a Fight, por exemplo, aparece na rede com promessas de resolver problemas conjugais após uma briga ou uma crise. Tudo isso pela irrisória bagatela de U$ 4,99. Love Maps, por sua vez, dedica-se a fazer com que o usuário reflita acerca do que sabe sobre o parceiro – solução que custa U$ 1,99. Aos que desejam soluções menos pacíficas, restam os gratuitos Rastreador de Namorado e Ex Lover Blocker, que permite bloquear o contato do antigo parceiro.

Ainda que a maioria dos aplicativos seja assinada por experts da área (Love Maps foi desenvolvido pelo casal de psicólogos John e Julie Gottman enquanto Fix a Fight é concebido pelo terapeuta americano Mark McGonigle), tais ferramentas não são unanimidade entre especialistas. Em entrevista à Folha, o psiquiatra e psicanalista do Hospital das Clínicas Luiz Cuschnir aponta para o fato de que “se por um lado a tecnologia ajuda com a comunicação imediata, por outro pode gerar mal-entendidos”. Nas palavras do profissional, “as carinhas e interjeições usadas on-line podem ser mal-interpretadas ou insuficientes.”

Em meio ao fogo cruzado entre céticos e entusiastas da técnica, os aplicativos seguem como uma ferramenta para solucionar crises conjugais, tormentos da mente, escândalos e tragédias. Apenas uma moda passageira? Talvez. Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que o amor seja infinito enquanto dure.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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