prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Vaquinha 2.0

Expressões como "crowdfunding" não são novidades da última hora, mas ainda estão distantes do grande público. De todo modo, plataformas de financiamento coletivo abrigam novas e ousadas ideias que podem fazer a diferença no mundo contemporâneo.


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Foi arrebatado por um misto de surpresa e empolgação que me vi diante da oportunidade de reler uma edição digital de Design/Web/Design:2, de Luli Radfahrer.

Adepto inveterado de uma postura crítica ante o conhecimento, para quem os livros devem promover "dentro das cabeças das pessoas verdadeiras revoluções na forma de se pensar e encarar o mundo", Luli (que é professor-doutor de Comunicação Digital da Escola de Comunicação e Artes da USP, cabe ressaltar) introduz sua obra ao leitor ao discorrer sobre seu desejo infantil de que uma caneta o permitisse desenhar no ar objetos tridmensionais. Decorridos catorze anos de sua publicação, o sonho se tornou realidade.

Não é por acaso que ideias ousadas como a LIX, uma caneta capaz de desenhar em três dimensões, ou o Angel, uma pulseira através da qual é possível monitorar os sinais vitais de seu usuário, encontram viabilidade comercial, fazendo com que sua produção possa ser extremamente factível. Comum a ambos os projetos é o fato de que não foram financiados por um grande mecenas ou uma gigantesca empresa do ramo da tecnologia, mas sim por pessoas interessadas, por meio de plataformas de crowdfunding como o Kickstarter, Indiegogo e Catarse.

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Crowdfunding – ou financiamento coletivo – indubitavelmente não é uma novidade da última hora no mundo da internet. Sequer trata-se de um conceito recente. Iniciativas similares foram empreendidas e consagraram-se no imaginário pop ao longo do século XX. Entre seus precedentes há de se destacar eventos como o Live Aid, festival de rock realizado em 13 de julho de 1985 destinado à arrecadação de fundos através de doações, posteriormente revertidas em favor de indivíduos que viviam em situação de subnutrição no continente africano. O termo inglês que define essa prática, todavia, viria a ser cunhado pela primeira vez 21 anos depois.

A internet, por sua vez, deu grande impulso a iniciativas dessa natureza. A obtenção de capital para projetos de interesse público e a agregação de múltiplas fontes de financiamento foi facilitada, em grande medida, pelo ciberespaço, onde a informação se dissemina com grande rapidez e flui entre potenciais interessados em contribuir com uma grande novidade. Plataformas virtuais como as já citadas Indiegogo, Catarse e Kickstarter funcionam como grandes agregadores, vitrines de projetos para novas vaquinhas virtuais.

Ainda que pouco conhecidas entre o grande público – certamente menos populares que o Facebook, seguramente menos acessadas que o Youtube – tais plataformas ganham notoriedade dia após dia, na medida em que demonstram sua capacidade para financiar projetos cada vez mais relevantes em seus respectivos nichos de mercado e ideias cada vez mais notáveis entre seus círculos de interesse. Maior prova disso é Inocente, curta-metragem documental que entrou pra história ao se tornar o primeiro filme financiado pelo Kickstarter a vencer um Oscar, no ano de 2013.

Entre radicais processos de inovação e projetos artísticos, plataformas de financiamento coletivo também abrem espaço para pequenos empreendedores e mudanças incrementais, pequenas melhorias em produtos já existentes no mercado de modo a agregar valor a necessidades imediatas dos consumidores.

Lily Born que o diga. Aos 11 anos de idade e em colaboração com seu pai, Joe Born, desenvolveu canecas especiais para pessoas com dificuldades motoras. O feito ocorreu após a garota sensibilizar-se ante à dificuldade do avô, portador da doença de Parkinson, em realizar simples tarefas, como degustar uma bebida. O projeto encontrou adeptos que rapidamente aderiram à proposta e financiaram a produção das chamadas Kangaroo Cups.

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Com a mesma velocidade que os novos insights aparecerão, virá o reconhecimento pelas grandes ideias que só puderam se tornar realidade a partir de iniciativas de financiamento coletivo. A presença do Kickstarter no último Webby Awards – premiado por mudar “para sempre a maneira de como investimos e pelos novos e inovadores projetos” (para mais detalhes, clique aqui) – apenas reforça uma o alvorecer de uma tendência que pode se intensificar nos próximos anos. Seja sob papel e pena ou através modernas canetas 3D, o futuro se desenhará diante de nossos olhos.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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