prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Perfil fake: máscara digital

Das máscaras aos fakes, a profusão de perfis falsos na internet faz surgir um novo personagem: o doador de fotos para redes sociais.


cliqueimg1.png

As máscaras são artefatos há muito tempo presentes na história da humanidade. Frequentemente associadas à encenação de peças teatrais, sua utilização remonta à modificação da identidade. Inicialmente, provavelmente foram empregadas em representações animalescas em rituais primitivos, ou mesmo conferindo ao seu portador características de entidades divinas que pouco ou nada se assemelhavam à imagem humana.

Obra de um passado distante, o adereço resistiu ao tempo, consagrando-se como um dos elementos mais simbólicos da linguagem cênica através de toda a história do teatro. Suas funções são múltiplas: diferenciação de características marcantes entre os personagens e viabilização para que um ator exerça mais do que um papel ao longo de determinada peça são apenas duas das possibilidades abertas pela transfiguração da identidade proporcionada pelo artefato.

Com o advento do ciberespaço, todavia, a transfiguração da identidade não necessariamente demanda uma máscara que se interponha ante a face do indivíduo, conferindo-lhe novos atributos. Uma foto convincente e um enredo bem construído bastam para o nascimento de personagens que só existem no mundo virtual.

Esta, de fato, é a essência dos chamados “fake-profiles” ou simplesmente fakes. Alçados ao sucesso ainda na época do Orkut, perfis falsos ganharam notoriedade na rede entre aqueles que não se animavam com a possibilidade de exposição demasiada de sua vida pessoal, bem como entre os que apenas se sentiam agradados com a possibilidade de interação com outros usuários sob a pele de outrem – uma identidade construída ao bel prazer de seu portador.

A onda dos perfis falsos é tamanha que motivou a criação de grandes repositórios na web dedicados à doação de fotos para aqueles que desejam construir sua persona virtual. Segundo constatou o Catracalivre, são cerca de duas dezenas de páginas destinadas à prática no Facebook, sendo que a mais famosa delas, Doação de Fotos Fakes, conta com mais de 2600 seguidores. Tendo seu conteúdo organizado de acordo com as características mais proeminentes de seus usuários – gênero ou cor de cabelo, por exemplo – estas páginas são a fonte aos que desejam fazer parte do burburinho anônimo virtual.

Na ética dos doadores, que oferecem a própria imagem para ilustrar perfis anônimos controlados por ilustres desconhecidos, a popularidade é o termômetro que define sucesso ou fracasso: quanto mais visto e compartilhado melhor. Este comportamento se expressa nas regras bem definidas estabelecidas pelas páginas de doação de fotos: “Usou [a imagem]? Curta e comente!”.

cliqueimg2.jpg

Segundo apurou Lígia Aguilhar em matéria para o Link no último domingo, não é qualquer um que pode ceder suas fotos a esses sites. Os que sonham com os quinze minutos de fama na web – ainda que a ilustrar o perfil de outra pessoa, vale a ressalva – são submetidos a uma cuidadosa triagem antes de serem promovidos (ou condenados) à exposição no mundo virtual. Aos que desejam ingressar nesse mundo, não faltam dicas, sugestões e tutoriais daqueles que já obtiveram algum sucesso na web.

Em alguns países, cabe lembrar, utilizar-se de um perfil falso é crime, sob pena de reclusão. Utilizar perfil “fake” baseado em pessoa real, viva ou morta, caracteriza ato criminoso, na medida em que o autor do perfil se faça passar por ela sem a devida autorização. Ainda, aqueles que utilizam tais perfis para caluniar, além da falsa identidade incorrem em crime contra a honra.

Muito além daquilo expresso sob a forma da lei, todavia, o cenário suscita questionamentos para além de dispositivos legais e códigos penais: é ético tomar posse da imagem de uma pessoa – elemento indissociável da sua identidade – para ilustrar as ações de outra em perfis falsos nas redes sociais? O debate é potencialmente controverso e inspira posicionamentos acirrados.

Nota do autor: as imagens que ilustram este artigo foram extraídas da página Doação de Fotos Fakes, após doação voluntária das pessoas fotografadas.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Gabriel Silva Farias