prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Púlpito eletrônico

Na internet todos falam, mas nem tudo deve ser levado ao pé da letra. Se democratizou o acesso à informação e tornou-se incubadora de boas ideias, também abrigou e serviu como câmara de eco para discursos de ódio e intolerância. Entre memes e tweets também é preciso refletir.


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A palavra púlpito encontra suas raízes etimológicas no latim pulpitum e é utilizada, em geral, para designar plataforma elevada ou tribuna apropriada para a prática da oratória. Esta, por sua vez, alude à arte de falar em público: estruturação de um discurso que permita informar, influenciar ou entreter os ouvintes.

Expressões de um passado no qual os debates ocorriam em praça pública, ambos os vocábulos soam irretocavelmente modernos no contexto da sociedade contemporânea, no qual indivíduos permanentemente conectados através de dispositivos tecnológicos se encontram nas redes sociais – ágoras de um mundo virtual que discursa por detrás de avatares. Suas elocuções, contudo, nem sempre são de sabedoria.

Acompanhei atônito ao burburinho que se deu na internet após a lesão de Neymar no último jogo da seleção brasileira de futebol ante à Colômbia, válido pelas quartas-de-final da Copa do Mundo 2014. A simples busca pelo nome do brasileiro fazia aparecer, de imediato, uma miríade de referências a Camilo Zúñiga, versátil lateral colombiano que entrou para a lista de Trending Topics no mundo todo depois de, com o joelho, dilacerar o Brasil pelas costas.

E se o árbitro sequer advertiu o colombiano, Zúñiga não passou impune no ciberespaço: quase sempre era alvo de chacotas e provocações, tendo seu nome apresentado ao lado de ofensas e impropérios que atingiam até mesmo sua família – ausente no campo de jogo no momento do incidente, cumpre ressaltar.

A quem possa imaginar que os gritos de intolerância sejam provenientes apenas das arquibancadas, desfaça-se o engano: se a rede é incubadora de boas ideias, por vezes também se apresenta como câmara de eco para discursos de ódio e para a proliferação da intolerância. A aparente aura de terra de ninguém acaba por evidenciar manifestações que vão além das teclas, embora estejam muito aquém da ética.

Tais manifestações ocorrem com freqüência suficiente para que possuam uma página virtual dedicada inteiramente a elas: com o papel de denúncia e um tom irônico na sua apresentação, A Minha Empregada – a chibatada é serventia da casa – traz à tona o debate da relação patrão-doméstica na sociedade brasileira ao explicitar os preconceitos que perpassam esse vínculo destilados na forma de tweets – os 140 caracteres são suficientes para abrigar doses cavalares de hostilidade.

Dois breves exemplos em meio a um universo de radicalismos pouco aprazíveis e nada convidativos levam à inevitável reflexão sobre a natureza do conhecimento que consumimos cotidianamente na internet – da intolerância revestida por uma aura cool nas páginas de humor “politicamente incorreto” aos memes de poucas palavras e algumas entrelinhas compartilhados a rodo nas redes sociais. Quais deles refletem valores para que se possa construir um mundo melhor?

É inegável que a internet tenha popularizado o acesso ao conhecimento. Nunca foi tão fácil falar e ser ouvido por uma platéia interessada. Nada garante, contudo, que o discurso esteja alinhado a uma ética condizente ao mundo que se almeja construir. É preciso atenção ao que diz o orador – e eventualmente até mesmo refutá-lo.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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