prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Carros voadores existirão no futuro?

Asas de cera e carros voadores há muito tempo povoam o imaginário humano, enquanto uma silenciosa revolução ocorre por entre os nossos dedos.


carrovoador.jpg

Desde os tempos mais remotos, voar exerce um profundo fascínio sobre os homens. Se a natureza não nos ofereceu a capacidade natural para que transitássemos pelos ares, ao menos nos deu a criatividade para produzir histórias como a consagrada lenda de Ícaro, um dos mais populares elementos da mitologia grega.

Dédalo, um dos homens mais criativos e habilidosos de Atenas fora condenado junto a seu filho, Ícaro, ao duro exílio no labirinto localizado na ilha de Creta, onde estava confinado o Minotauro. Valendo-se de sua perene engenhosidade, Dédalo construiu dois pares de asas para que escapassem da adversa situação.

Sua orientação fora clara: pediu a Ícaro para que, ao voar, não se aproximasse do sol. Caso contrário, poderia colocar em risco sua própria integridade, uma vez que as plumas que constituíam suas asas eram unidas por cera que derreteria se exposta a altas temperaturas. Ícaro, porém, se negou a seguir o conselho e teve sua viagem interrompida bruscamente, caindo sobre o mar de Creta.

Ainda que a mitologia grega traga à tona uma malfadada experiência do homem ao tentar trafegar pelos ares, voar permaneceu como uma esperança sempre creditada a um futuro distante. Não por acaso, histórias de ficção científica comumente remetem ao advento de carros voadores – a evolução dos automóveis que perderam as rodas, ganharam asas e hélices, solução perfeita ao problema de tráfego das grandes cidades futurísticas, superpopuladas e altamente urbanizadas quando pintadas por aquarelas mais distópicas e menos otimistas quanto aos tempos vindouros.

Ainda que, de fato, a ciência e tecnologia tenham oferecido condições para que o transporte aéreo pudesse ser pensado a sério pelo homem e que muito se especule acerca da produção de veículos voadores para as próximas décadas, é questionável a hipótese de que, com todos os riscos que trazem no bojo, tais inventos sejam soluções adequadas aos problemas de transporte das cidades num futuro próximo. Cada vez mais aparentam ser um delírio restrito às obras ficcionais, elemento pouco verossímil para garagens incapazes de abrigar uma pista de pouso.

Muito mais palpável e próxima à nossa realidade está uma geração de aplicativos que se coloca cada vez mais em rota de colisão com a manutenção do modelo de transporte privado vigente na sociedade contemporânea, sucedâneo da Segunda Revolução Industrial que trouxe como fruto o motor de combustão interna, posteriormente alçado à massificação através da linha de produção de Henry Ford.

Como salientou Susana Blázquez em uma oportuna reflexão nas páginas do El País, “o celular se transformou no comando à distância para novas formas de transporte”. Do aluguel de carros a polêmicas iniciativas de transporte que vão ao limite do previsto pela lei (e por vezes acabam por ultrapassá-lo, ocasionando grandes constrangimentos e graves delitos), maneiras alternativas de transitar pela cidade são sistematicamente exploradas por uma sociedade comprometida a não deixar com que automóveis venham a exaurir suas (já escassas) reservas.

Car2go representa uma dessas inovações. Subsidiário da Daimler AG, uma das mais notáveis empresas do ramo automobilístico do mundo (cabe lembrar que o grupo é dono de uma das mais notáveis marcas do setor, a Mercedes-Benz), o serviço opera a partir do compartilhamento de carros por períodos curtos, para breve trajetos. Atrativo para clientes que fazem uso ocasional de veículos automotores, é acessível através de um aplicativo virtual, através do qual o usuário pode alugar um carro movido a gasolina ou energia elétrica.

Iniciativa parecida foi também empreendida pela Respiro Car Sharing, que disponibiliza aos interessados o aluguel de mais de 200 veículos por 2 euros (pouco mais do que 6 reais) a hora. Segundo disse Agustín de Saralegui, responsável pelo marketing da empresa, em entrevista ao El País no último mês de novembro, “um carro da empresa subsitui entre 15 e 20 carros particulares”. Mas alerta: o serviço – também acessível por qualquer um que esteja habilitado a conduzir carros e seja portador de um smartphone – não tem qualquer intenção de substituir outras formas de transporte como ônibus, metrô e táxis. “Somos complementares”, arremata.

Na mesma direção e com uma rapidez vertiginosa segue o Über, muito embora este seja constantemente alvo de polêmicas com governos locais. Considerada uma das startups mais valiosas do mundo, a empresa oferece uma alternativa aos serviços de táxi tradicionais. Já nos seus fundamentos, surge a primeira controvérsia: o provisionamento dos serviços é feito por motoristas que se cadastram independentemente em um banco de dados, estabelecendo um vínculo demasiado distante entre a direção do grupo e os membros que efetivamente executam sua principal atividade – o transporte de passageiros dispostos a pagar pela viagem.

Esse distanciamento é potencial causador de uma série de problemas, como narrou o português Público no último dia 16:

“Esta segunda-feira, a Uber voltou a ser notícia mas não pelos resultados empresariais. Em Sydney, enquanto surgiam as primeiras informações de que um homem armado fazia reféns num café situado no centro administrativo da cidade australiana, viaturas ao serviço da Uber chamadas à zona cobravam tarifas acima do habitual. A empresa justificou a inflação dos preços com a necessidade de “encorajar mais motoristas a estarem disponíveis e a irem buscar clientes àquela área”. Após denúncias ao serviço, a Uber voltou atrás e anunciou que as viagens a partir do centro administrativo seriam gratuitas e que os utilizadores que já tinham pago iriam ser ressarcidos.”

Para muito além do imbróglio subsequente à cobrança de tarifas acima dos preços de mercado, a polêmica foi ainda mais longe no continente asiático: autoridades indianas proibiram o uso do aplicativo no país após uma jovem, cuja identidade não foi revelada, ter sido estuprada por um dos membros que compunham a rede de motoristas da empresa. Alega-se que Shiv Kumar Yadav, detido dias após o ocorrido, se utilizou de documentação falsa para registrar-se no Über e que era reincidente no crime de violação. A empresa, é claro, estipula alguns requisitos para motoristas interessados em participar de seus quadros, mas sua capacidade de observância à conduta destes ainda é questionável.

Polêmicas como essas somadas às disposições em contrário oferecidas por taxistas ao redor do mundo tornam o projeto vulnerável e criam obstáculos ao seu desenvolvimento. O valor da sua iniciativa, contudo, deve ser reconhecido: repensar os meios de locomoção e a maneira como interagem entre si é premente, especialmente em tempos nos quais o transporte privado sub-utilizado representa uma ameaça ao meio ambiente e um entrave à mobilidade urbana nas grandes cidades.

O Brasil possui iniciativas esparsas nesse sentido, mas são claros os sinais de que as tendências mundiais serão seguidas pelo país. Uma delas é a Citta Mobi que, através de painéis de mensagem variável e aplicativos mobile, oferece ao usuário de transporte público o tempo aproximado para que ônibus cheguem ao ponto de sua preferência, reduzindo assim o tempo de espera do cidadão.

Iniciativas como esta podem alterar a percepção do usuário do transporte público acerca dos serviços prestados na medida em que reduzam o desconforto decorrente de longos períodos de espera para a condução? Se a qualidade dos serviços prestados contribuir, é possível. Enquanto a resposta segue em aberto, é válida apenas a ressalva de que o projeto fornece incentivos para que o cidadão abdique de viagens valendo-se de veículos privados para utilizar o sistema público. É um avanço.

Ainda que a ausência de carros voadores cruzando os céus da metrópole nas próximas décadas possa frustrar as expectativas de alguns, é certo que para a parcela mais significativa da população sua ausência sequer será sentida. Facilitando a utilização de modalidades de transporte já estabelecidas ou trazendo à tona ideias novas e revolucionárias, projetos que aliam o frescor e o pioneirismo de novas tecnologias a alguma dose de criatividade e disposição para resolver problemas relevantes do mundo contemporâneo certamente obterão sucesso, respaldado por uma população sedenta por alternativas para se locomover com comodidade. Vale a pena tentar.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Gabriel Silva Farias