prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

O amor verdadeiro não tem vista para o mar

Entre encontros e desencontros, São Paulo completa 461 anos neste domingo (25).


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1.

Ele era uma contradição em pessoa. Vivia apressado, mas enclausurava-se todo santo dia útil (e que dia não era útil naquela cidade?) no congestionamento que atravancava o tráfego na Bandeirantes. Achava normal. Achava graça até. Fazia o mesmo caminho sempre e justificava-se dizendo que no outro havia mais radares e faróis. Semáforo não. Jamais conhecera coisa tão estranha quanto um semáforo. Paulistano que era, não dava o braço a torcer.

Dizia também que não tinha sotaque. Sotaque era coisa de gaúcho, que falava cantando. Quiçá de carioca, que puxava o “r”. O pessoal do litoral forçava o “tu”, cometendo um pequeno delito gramatical. Mas na sua cidade não. Na sua cidade todo mundo falava direitinho, meu.

São Paulo, achava, tinha lá seus problemas. Virava bicho quando falava das faixas pra ônibus, mas logo admitia que há dezoito anos não subia em um. Ciclofaixa também não era do seu feitio: 5 anos atrás trocara a bike pela esteira da academia. Apesar disso, amava aquele lugar. Quando reclamavam que a selva de pedra era cinza demais, recomendava logo uma visitinha ao Ibirapuera. De que mais precisaria pra viver? Praia?

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2.

Ela era diferente. Trezentas-e-não-sei-mais-quantas dietas da lua – pra quê tantas, meu deus? Só havia uma do outro lado da janela! -, feng shui, yoga e pilates. Tudo isso pra ser ou parecer zen em meio àquela bagunça. Magra? Era pouco. Magérrima – o que lhe soava como um elogio dos mais apetecíveis.

Não era isso que dizia o Pereira, porteiro do edifício em que morava na Vila Clementina. "Gostosa", cochichava entre amigos. Repudiava, mas deixava quieto – de que adianta, se esses caras estão todos no cio?

Lia Freud e achava que toda aquela civilização justificava o seu mal-estar. Frequentava o burburinho cult do Reserva, fã de carteirinha da Cultura e marcava presença nas salas do Itaú e do CineSesc. Na Augusta sentia-se em casa, tendo a Avenida Paulista como seu belo quintal para as manhãs de domingo que emendavam com as noites de sábado.

3.

Se cruzaram várias vezes na última semana, mas nunca se viram. Era a maior poesia da cidade: o encontro de faces familiares, embora completamente desconhecidas. Há 461 anos era assim.

Nota do autor: O título é inspirado em uma belíssima canção do Pullovers.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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