prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Tudo junto, ao mesmo tempo

Entre brindes e sorrisos de uma rede social, você provavelmente já se sentiu deslocado e sozinho. E você não é o único.


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A seção “eventos” do Facebook indica que ainda restam nove compromissos a serem cumpridos na próxima semana – três deles no mesmo dia. Enquanto isso, a cada atualização da linha do tempo, surgem fotos recém-tiradas de amigos em festas, notificações sobre a abertura de duas novas danceterias na Rua Augusta e outras tantas publicações celebrando a noite de sábado, entre garrafas de vinho, abraços calorosos e pistas de dança. Diante do silêncio e da solitude (ou solidão) assistida pela tela do computador, enfim, você se manifesta: “está tudo bem”, confuso e procurando se encontrar em meio à enxurrada de estímulos, convites e solicitações recebidas em tão pouco tempo. Não, não está nada bem.

A situação hipotética não é tão difícil de ser imaginada. Arrisco dizer, comum nos dias recentes. Desde o boom das redes sociais, iniciado em pequenas comunidades no Orkut, passando pelo streaming de muitos fatos e poucas palavras do Twitter e pelo microblogging geossocial de contornos psicopatológicos do Foursquareonde estamos? Para onde vamos? Lá tem wi-fi? -, abriu-se espaço para diversas formas de compartilhamento na internet. Do caderno de economia de uma publicação europeia às imagens de si mesmo num bar na Vila Madalena, nada é tão pessoal que não possa ser público. O fluxo intenso de informações, contudo, foi o que bastou para alimentar aquilo que tende a ser um dos males do século XXI: o F.O.M.O.

O Fear Of Missing Out, embora não seja uma sensação desconhecida ao ser humano, é um problema emblemático da era digital. Consiste, literalmente, no “medo de estar por fora” ou no receio de perder a última novidade, aquilo que há de melhor e que frequentemente está acontecendo noutro lugar, intensificado pela percepção de que você não vai dar conta de atender todos aqueles convites que te fizeram desde o começo da semana – a reunião com os amigos dos tempos de colégio, o happy-hour com os colegas de trabalho e a balada com o pessoal da faculdade ficarão para depois, enquanto você procura algum tempo para si mesmo. Segundo o médico Ricardo de Oliveira, coordenador de neurociências do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (em entrevista à Você s/a que você pode ler aqui), a denominação recente só remonta um antigo problema. “Quem nunca lamentou não fazer parte de determinado grupo?”, perguntou o neurologista e neuropsiquiatra.

Ainda que "medo" seja a sensação que batiza a síndrome, largamente difundida e pouco reconhecida por uma sociedade constantemente atarefada, nem só através dos temores se manifesta o F.O.M.O. Irritabilidade, ansiedade e sensação de deslocamento são características praticamente indissociáveis desta condição, que aplaca a todos que, receosos da possibilidade da privação daquilo que há de melhor, prefeririam, de fato, experimentar tudo junto e ao mesmo tempo. Sua ascensão na era digital está diretamente relacionada com a falta de maturidade na relação que se estabelece entre usuário e redes sociais, elementos consideravelmente recentes no contexto das relações humanas.

Instigados pelas próprias páginas a dividir parcela considerável do que se realiza em fóruns digitais e linhas do tempo – o Google + sugere compartilhar novidades, enquanto o Facebook pergunta o que se está pensando, por exemplo – usuários deleitam-se ao curtir e compartilhar novos brindes, sorrisos e convites web adentro. A vida de alôs e beijos, todavia, nem sempre corresponde à realidade, como que numa versão revisitada da alegoria da caverna de Platão que se apresenta a um leitor inerte e violentamente enganado por um mundo de aparências.

O efeito das mídias sociais no agravamento do F.O.M.O é tão grande que, segundo o agradável e didático vídeo produzido pela JWTIntelligence, o fenômeno faz com que 8 em cada 10 pessoas utilizem tais páginas sociais para gabar-se a respeito de suas vidas. 43% desse universo assumem que as redes sociais amplificaram tal ansiedade dentro de si.

Imersos em um mundo onde a superexposição é reinante e as vaidades sobressalentes, o Fear Of Missing Out é armadilha fácil, sem fazer lá muitas cerimônias e distinções: todos estão sujeitos a lidar com a sensação de que algo está fora do lugar - não raro, nós mesmos não encontramos nosso lugar no mundo. Tão certeiro quanto a síndrome que se prolifera exponencialmente com a multiplicação de pontos de acesso ao ciberespaço é o conselho propagado pelos memes virtuais ante o colapso: keep calm...


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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