prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

O Facebook será orkutizado?

Depois de surfar em seus dias de glória, o Facebook enxerga tempos incertos em um futuro próximo. Conseguirá a rede social sobreviver à concorrência sem cair na mesmice?


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Não levou mais do que cinco anos para que o Orkut abandonasse seus dias de glória rumo a uma debâcle agonizante que só se encerrou com o anúncio de que a rede social seria extinta pela Google em setembro de 2014. Dos seus dez anos de vida - a página fora criada pelo engenheiro turco Orkut Büyükkökten em 24 de janeiro de 2004 - muitos foram de apenas sobrevida: uma existência mórbida e decadente recheada de perfis desativados, pequeníssimas comunidades e códigos virtuais que replicavam spams e malwares rede social adentro.

Concomitantemente ao seu ocaso, surgia o Facebook: com uma roupagem moderna e uma narrativa de contornos cinematográficos - o sucesso estrondoso de A Rede Social definitivamente não foi obra do acaso - o site elaborado por um engenhoso e introvertido Mark Zuckerberg conquistava mentes e corações em um ritmo vertiginoso, tornando-se o ponto de encontro de uma massa ensimesmada em seus smartphones e conectada por todo o tempo. Sucesso instantâneo, o Facebook logo se tornou a maior rede social virtual do mundo. Mas não para todo o sempre.

Ainda que tenha um número considerável de usuários - se fosse um país, seu expressivo 1,35 bilhão de utilizadores formariam a segunda maior população do mundo, à frente da Índia, onde vivem 1,2 bilhão de pessoas – o Facebook tem falhado na tarefa de atrair novos internautas para sua comunidade virtual. Uma pesquisa realizada pelo Global Web Index no fim do ano passado mostra que, enquanto o Tumblr – a rede social em maior ascensão, segundo os pesquisadores - apresentou um estonteante crescimento de 45%, o Facebook cresceu apenas 2% no último semestre de 2014. A distância é ainda mais expressiva se descontados os perfis inativos: enquanto que o Tumblr foi capaz de aumentar em 120% sua base de usuários ativos, o Facebook cresceu apenas 6% neste quesito.

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Se a deficiência em atrair novos usuários é evidente, o quadro se agrava quando se trata em estabelecer diálogo com as novas gerações – jovens e adolescentes que fariam com que a rede de Mark Zuckerberg se perpetuasse ao longo do tempo. O artigo “I’m 13 and None of My Friends Use Facebook” (“Tenho 13 Anos e Nenhum dos Meus Amigos Usa Facebook”, publicado pelo Mashable, que você pode ler aqui) escrito por Ruby Karp é um pequeno alerta acerca da perda de popularidade da página entre os mais novos. Karp alega que outras redes sociais, como o Twitter – cuja simplicidade facilita a navegação – o Snapchat e o Instagram são mais eficientes em atrair as novas gerações para o mundo virtual. A presença dos pais na rede social também é listada como um dos motivos para que adolescentes acabem por migrar para outros sites de relacionamento.

Mesmo o esforço em remodelar a experiência do usuário nos domínios da rede social pode ser um bom indicador de que o Facebook tem um futuro incerto pela frente. Ao falhar na tentativa de incluir os mais jovens, Mark Zuckerberg faz o possível para fidelizar os seus pais – público mais assíduo da rede social. O anúncio na última semana de que grandes veículos do ramo das comunicações – The New York Times, BBC e Guardian entre eles – passarão a realizar publicações diretamente do Facebook é um sinal claro de que a linha do tempo transcendeu os papos de elevador e os burburinhos da faculdade para ganhar as redações jornalísticas e a informação da última hora. Resta saber se a medida será popular entre os usuários ou apenas mais um tiro n’água.

Confrontado a tempos novos e incertos, o Facebook busca sua sobrevida em um cenário onde seus concorrentes se proliferam exponencialmente. Diante de tantas opções, a rede social não é mais o único ponto de encontro de uma juventude mais preocupada em colecionar múltiplas experiências do que em criar vínculos, como reza a cartilha da boa e fiel clientela. Cabe especular se o Facebook sobreviverá – na melhor das hipóteses, recebendo os likes daqueles já habituados aos seus meandros e interfaces. Caso contrário, lhe restará apenas um bonito mausoléu, como o construído ao seu mais antigo concorrente, o Orkut.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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