prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Você não vai querer comprar o carro do futuro

O carro do futuro lhe possibilitará viajar com conforto e segurança. E você não vai querer comprá-lo.


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2015. Os veículos voadores que outrora seduziram corações e mentes jamais chegaram. O que sobrou foi só a morosidade entediante do tráfego por terra: abarrotadas por congestionamentos monumentais, foram raras as vezes que as grandes cidades lograram escapar de uma sina que se desenrola em marcha lenta nos horários de pico.

Inúmeras foram as tentativas, quase todas por água abaixo: o alargamento de rodovias e a construção de estradas jamais conseguiu acompanhar o ritmo alucinante de novos emplacamentos que a indústria automobilística imprimiu no último século. O resultado óbvio foi a transformação das vias públicas em um ambiente hostil onde a disputa por espaço é regra e os quilométricos engarrafamentos meros fenômenos cotidianos, aprisionando motoristas por horas a fio, dia após dia.

Em oposição ao curso dos fatos, a publicidade sempre fez questão de associar os automóveis à ideia de liberdade. Rito de passagem da infância à fase adulta, a permissão para dirigir e a compra do primeiro veículo ocuparam espaço de honra no imaginário ocidental ao longo do século XX. Conseguirá a indústria automobilística amealhar algum protagonismo no longo prazo enquanto vê seu principal produto como peça central de uma grande contradição do presente?

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A indiferença dos jovens com relação aos automóveis pode ser um poderoso indicador a respeito de um futuro pouco próspero no caminho da indústria automobilística. Menos consumistas que seus pais, os Millenials – geração composta pelos nascidos entre 1980 até meados da década de 90 – certamente são mais seduzidos pelos gigabytes de memória de seus computadores do que pelos cavalos de potência de seus automóveis.

Alguns dados são capazes de ilustrar o declínio da indústria automobilística entre os jovens. Nos Estados Unidos, a quem um dia pertencera a “capital mundial do carro” – hoje apenas Detroit – apenas 27% dos carros pertencem a adultos na faixa etária compreendida entre 21 e 34 anos. Em 1985 o mesmo grupo detinha 38% da frota automobilística do país.

Ainda, os EUA observa a queda paulatina de jovens aptos a conduzir veículos legalmente nos limites do país. Enquanto que em 1994 87% dos jovens entre 20 e 24 anos possuíam habilitação, em 2008 o índice decaiu cinco pontos percentuais. Variáveis econômicas, como a taxa de desemprego – esta aumentou significativamente na primeira metade da última década – contribuem para explicar o fenômeno, mas não são o bastante para compreendê-lo totalmente.

Segundo Karl Brauer, editor da página de conteúdo automotivo Kelley Blue Book, a possibilidade de conectar-se com amigos via redes sociais em lugar de realizar longas viagens para encontra-los e uma maior consciência acerca de questões ligadas ao desenvolvimento sustentável faz com que o jovem perca o interesse pelo carro.

Mas isso é só o começo. Se o desinteresse da juventude é o prenúncio de um declínio no presente, inovações tecnológicas e novos modelos de negócio preparam o calvário futuro da indústria automobilística tal como conhecemos. Como já publicado neste blog, serviços de compartilhamento de carros por períodos curtos como o Car2go e o Respiro Car Sharing, além de novas iniciativas no setor de transportes como o Über têm o potencial de promover radicais mudanças na maneira como nos movimentamos pela cidade num futuro não tão distante.

Modelo de negócios que tem se disseminado por algumas cidades do mundo, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, o compartilhamento de veículos tem sido um adversário duro à indústria automobilística – cabe lembrar a declaração de Agustín de Salergui, responsável pelo Marketing da Respiro Car Sharing, alertando para o fato de que os carros de sua companhia substituíam de 15 a 20 veículos particulares. O sucesso de seus serviços é oriundo da comodidade que oferecem: o aluguel de carros proporciona ao consumidor todos os benefícios de possuir um veículo sem os custos necessários para mantê-lo, como o pagamento de impostos e despesas de manutenção. A esse respeito, cabe resgatar a valiosíssima publicação do Quartz, de setembro de 2014, que aponta para o fato de que veículos automotores privados são usados por seus motoristas em apenas 4% do tempo. Isso significa dizer que veículos privados são caros e subutilizados – e que à menor janela de oportunidade, podem ser substituídos, desde que seja barato e eficaz fazê-lo.

Há quem diga, ainda, que a popularização de veículos autônomos – que não necessitam de motoristas – combinada a este modelo de negócios representarão o definitivo descenso da indústria automobilística.

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Aos que pensam que a tecnologia está restrita às obras de ficção científica, é válido o adendo de que a Google tem trabalhado com bastante afinco no desenvolvimento de carros que se dirigem sozinho, como retrata este vídeo publicado há cerca de um ano. E que tem obtido relativo sucesso: para além dos ambientes controlados, tais automóveis já estão autorizados pelo governo americano ao tráfego pelas ruas e estradas da Califórnia. Ainda em fase de testes, a tecnologia pode render frutos num futuro não tão distante.

E o que esperar de um mundo onde é possível a associação entre a tecnologia de veículos autônomos e o modelo de negócios que permite o compartilhamento de veículos em curtas distâncias? Uma consequência óbvia é a redução sensível de custos no mercado, haja vista que, se os carros são capazes de levar passageiros com segurança aos seus respectivos destinos, um motorista torna-se tão somente desnecessário – e a sua remuneração inexiste.

A preços mais baixos, também é razoável pensar que o serviço possa se disseminar pela sociedade, de modo que possuir um veículo e arcar com todos os seus custos de manutenção, combustível e impostos torne-se apenas um luxo autorizado aos mais ricos e um hobby destinados aos românticos entusiastas do automobilismo. Ou uma prerrogativa de prestadoras de serviços de transportes – mas, reiterando, cada veículo destas pode substituir de 15 a 20 carros particulares, podendo diminuir de maneira significativa as vendas no setor automobilístico.

Ainda que seja difícil prever com exatidão quando tais eventos se tornarão realidade, é certo que o futuro chegará. Elon Musk, da Tesla Motors, aposta que todas essas benesses – com os prejuízos que vêm no bojo, é bom que se diga – estarão disponíveis em menos que uma década. Futurologistas mais conservadores crêem que em 20 anos a maneira como nos transportamos pela cidade será completamente diferente. Em uma coisa concordam: você não vai querer comprar o carro do futuro. Como motivo de consolo, ele também não precisará de você.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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