prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Muito além do camarote

A indústria do entretenimento escancara as mazelas da desigualdade racial no Brasil. Mas não é só lá que ela se faz presente.


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Muito embora as luzes estroboscópicas e a iluminação baseada em tubos selados de neón sejam largamente utilizadas pelo homem há cerca de um século, parte considerável da vida noturna das grandes cidades ainda ocorre às escuras. O nem sempre visível reduto da juventude vivente nas grandes aglomerações urbanas por vezes é palco de excessos e permeado por uma forma de consumo feita sob medida para as elites.

A isto os economistas chamam de bem posicional: o valor do serviço ou produto em questão guarda relações profundas com sua exclusividade, ou seja, com o fato de que outras pessoas não tenham acesso a ele. Preços mais altos são garantia da exclusividade. Esta, por sua vez, assegura o prestígio daquele que o consome. Desnecessário dizer que esse contexto é um pujante criadouro de reis do camarote, frequentadores de casas noturnas caríssimas que seguem à risca uma cartilha na qual impera a cultura do gasto imoderado. Mas isso não é tudo.

Os preços altos da noite também produzem e reproduzem exclusão. Sua controversa prerrogativa é a de permitir o acesso das elites aos bares e clubs enquanto nega a diversão a outros. Por este motivo é ilustrativo o caso da festa Meu Black é Assim, ocorrida no Rio de Janeiro no último mês de dezembro. O evento, cujo nome fazia alusão à black music, chamou a atenção justamente por não ser frequentado por negros, o que não passou incólume aos internautas, que não pouparam impropérios à festa.

A crítica, apesar de pertinente, não enxerga as raízes mais profundas desse fenômeno. Muito embora o episódio já mencionado evidencie um eloquente contraste entre expectativas e realidade (é de se supor que uma festa destinada a celebrar elementos da cultura negra seja frequentada também por negros, afinal), não se trata do único em que a composição étnico-racial apresenta disparidades contundentes entre brancos e negros, trazendo à tona importantes (e perniciosas) características da sociedade brasileira.

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Muito além da indústria do entretenimento

Segundo a pesquisa de opinião pública Violência Contra a Juventude Negra no Brasil, realizada em 2012, mais da metade da população brasileira concorda com a ideia de que ser negro ou branco afeta a vida de uma pessoa. Se não se presta a dar um veredicto acerca do impacto que o racismo produz na vida das pessoas, é um ótimo ponto de partida para que se reflita sobre os motivos que fazem com que esta crença se difunda pela sociedade brasileira.

Uma pista para entender esta afirmação reside no fato de que ser negro no Brasil está a cada dia mais perigoso. Se na última década a taxa de homicídios entre jovens brancos no país caiu de 40,6 para 28,3 (a cada 100 mil habitantes) entre 2002 e 2010, entre os jovens negros a tendência se inverte: no mesmo período, o número de ocorrências salta de 69,6 para 72,0.

A publicação Situação Social da População Negra por Estado, publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em conjunto com a SEPPIR/PR, mostra também que há uma disparidade evidente entre negros e brancos no que diz respeito à escolarização. O documento mostra que as taxas de escolarização entre negros são menores em todas as faixas etárias e que as disparidades se aprofundam à medida em que aumentam os anos de estudo.

Embora não exista consenso entre os especialistas a respeito das variáveis que influenciam ou fomentam a igualdade social, há algum nível de concordância ao apontar que a escolarização opera um importante papel nesse sentido, aponta o documento.

Para melhor compreender como se estruturam tais disparidades, também se faz necessário entender como estas se fazem presentes na dimensão do trabalho, haja vista que o labor define, em larga medida, a inserção do indivíduo na sociedade, e da renda, uma vez que esta esteja fortemente atrelada aos hábitos de consumo adotados ao longo da vida. Em ambos os quesitos, os dados não mentem: negros estão sujeitos a maiores taxas de desocupação e auferem menores rendimentos em relação aos brancos.

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E quem vai pra pista de dança?

Em suma, os dados mostram que negros estão mais propensos a ser vítimas de homicídio, têm maiores dificuldades para acessar a educação formal em todos os níveis e, por consequência disso, encontram mais obstáculos para chegar ao mercado de trabalho. Quando, de fato, se tornam parte da população ocupada, ainda ganham menos em comparação aos brancos. Ante a esse contexto, é plenamente factível afirmar que seu consumo em indústrias como entretenimento e lazer é proporcionalmente menor.

Em outras palavras, o problema é muito maior do que parece: marginalizada em diversos aspectos no contexto da sociedade brasileira, a população negra não só abdicou de participar de um evento que celebra elementos de sua cultura. Mais do que isso: ela sequer dispõe de recursos para sustentar um padrão de vida através do qual possa se dar ao luxo de visitar casas noturnas frequentadas pelas elites. A exclusividade e o prestígio dos nightclubs mais badalados é obtido a custa de sua privação.

Longe de se caracterizar como uma verdade apenas restrita as boîtes cariocas, esta triste constatação é válida de forma geral para a sociedade brasileira, seja na boemia do Rio, no agitado circuito soteropolitano, ou na vida noturna paulistana, eleita pela CNN uma das 10 melhores do mundo.

Ainda há muito a ser feito para combater as desigualdades raciais no Brasil. Ela se faz presente nos mais variados espaços da vida cotidiana, do público ao privado. Camarotes e casas noturnas são apenas mais duas de suas facetas – tristes que são, apenas se somam ao compêndio das nossas mazelas, reproduzidas também em estabelecimentos comerciais e estádios de futebol.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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