prótese técnica

Sobre extensões do homem e outras histórias

Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade.

Sozinhos na multidão

Relacionada a problemas de saúde, a solidão pode ser a epidemia do século XXI.


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2016. A população mundial rompera a barreira dos sete bilhões há meia década - o mundo jamais fora tão populoso como nos dias de hoje. Predominantemente urbano desde o início dos anos 2010, o planeta também viu eclodir em seu passado recente a evolução vertiginosa das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs).

Impulsionadas pela terceira revolução industrial, consistem em ferramentas que maximizam o fluxo de bens, recursos e informações ao redor do globo, a medida em que encurtam distâncias e permitem que pontos afastados se tornem cada vez mais próximos. Populoso e hiperconectado, todavia, o mundo contemporâneo é arrebatado por uma epidemia insuspeita: padecemos cada vez mais de solidão.

De acordo com o dicionário Houaiss da língua portuguesa, solidão define-se como o “estado de quem se acha ou se sente desacompanhado ou só”. Se é breve e de fácil compreensão, a acepção ao termo revela duas dimensões importantes de uma epidemia a se ter em conta ao longo do século XXI.

A primeira delas diz respeito ao simples caráter mais objetivo da solidão, ao trazer à tona a constatação óbvia, mas nem por isso irrelevante, de que está só aquele que não possui outrem em seu entorno social.

Muito mais subjetiva, porém, é a dimensão da solidão que cuida para delinear o estado daquele que se sente desacompanhado ou só, isto é, daquele que se percebe isolado em meio a um grupo social. Entender a relevância desta, porém, é fundamental: nociva em si mesma, a sensação de solidão pode produzir impactos ainda mais contundentes àqueles que não se reconhecem em determinada comunidade, incapazes de estabelecerem conexões saudáveis com os demais indivíduos.

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Minimizar o problema da solução na sociedade contemporânea é ignorar solenemente um problema de saúde pública. Segundo estudo da Brigham Young University, dos Estados Unidos, a solidão pode afetar a expectativa de vida de forma tão acentuada quanto outros maus hábitos da vida moderna. A biologia explica: genes de pessoas solitárias podem ter seu ritmo de funcionamento alterado justamente pela falta de companhia, provocando disfunções relacionadas à produção de anticorpos e respostas antivirais. Fenômenos como este acometem as defesas naturais do organismo, podendo até mesmo abreviar a existência de indivíduos isolados.

Para além da baixa imunidade, pessoas solitárias dormem mal e estão mais propensas a adquirir vícios como tabagismo e alcoolismo, além de assumirem uma postura sedentária que também é, em larga medida, prejudicial à saúde.

É preocupante que em algumas regiões do globo a solidão seja um fenômeno paulatinamente crescente. Segundo pesquisa realizada pela BBC, cerca de metade dos adultos ingleses experimentou na vida algum grau de solidão. Um em cada dez, todavia, sentia-se mais sozinho do que fora na década anterior.

Outra evidência importante da pesquisa realizada pela BBC é o fato de que Londres é a cidade mais solitária da Inglaterra, onde 52% dos indivíduos adultos se sentem, em alguma medida, sozinhos. O dado coloca em xeque a capacidade das grandes cidades em criar espaços de convivência e lazer adequados para viabilizar uma vida social ativa para seus cidadãos. Seriam os paulistanos e cariocas menos sozinhos que os londrinos?

Mesmo as redes sociais nem sempre contribuem para aplacar os efeitos da solidão. Se bem utilizadas, de fato, são uma ferramenta capaz de enriquecer relações pessoais e melhorar a qualidade dos laços estabelecidos com pessoas pelas quais se tem grande estima. Afinal, quem nunca se alegrou ao reencontrar um amigo de longa data acidentalmente pelas páginas do Facebook?

O perigo acontece quando as redes sociais são utilizadas como pretensos substitutos de relações humanas. Neste caso, apenas produzem ansiedade e reforçam a sensação de solidão, enquanto lá fora todos têm uma vida perfeita, entre fotos registradas no Instagram de momentos que não se circunscrevem aos 140 caracteres do Twitter.

Combater a epidemia de solidão vai ser um dos grandes desafios globais ao longo do século XXI. Vencemos no século passado, é verdade: a ciência aprimorou o tratamento de doenças que impunham sérias restrições a humanidade, alongando consideravelmente nosso tempo de vida. Cabe a nós conferirmos sentido à nossa existência, preferencialmente através de uma vida social saudável e ativa.

Afinal, já dizia o poeta, é impossível ser feliz sozinho.


Gabriel Silva Farias

Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..
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