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O pensador impõe, o sonhador obedece.

Haylane Rodrigues

Eu sou filha da lua, da tribo de Ártemis

Mas não se matam cavalos?

A humanidade é uma grande esperança perdida.



O cenário era a grande depressão econômica que assolava os Estados Unidos da América em 1930. Para sobreviver, pessoas comuns se sujeitavam a absolutamente qualquer oportunidade por uns trocados, entre elas, uma verdadeira maratona pela vida através de um tremendo concurso de dança com prêmio em dinheiro.

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O escritor americano Horace McCoy (1897-1955) publicou em 1935, em pleno auge da depressão, o seu livro Mas não se matam cavalos? (no original They shoot horses, don't they?). O livro trata dessas absurdas e famosas maratonas de salão que duravam dias, onde seus competidores se expunham publicamente não só dançando, mas exteriorizando o desespero econômico e social do país. A regra do concurso era simples: dançar, mas dançar sem parar. Dançar até a exaustão, até não poder mais. Os mais sortudos embolsavam um pouco mais com propagandas de patrocinadores. Todavia, as refeições gratuitas e o teto onde dormir já seduziam muitos dos que necessitavam demasiado em meio aquela crise abissal que assolava a América. Em dado momento o organizador do evento promovia corridas extras na arena onde os casais deviam completar o circuito para não serem eliminados. Não a toa essas corridas eram chamadas de "derbies", fazendo analogia direta as corridas de animais e a forma como os competidores aqui eram tratados. No fim da competição, os últimos a caírem eram contemplados com uma quantia mais ou menos equivalente a cinco salários mínimos da época. E por apenas alguns centavos, qualquer um podia ir a arquibancada assistir a esse espetáculo que, por vezes, terminava em surtos, desmaios e até mesmo morte.

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No livro de McCoy acompanhamos o caso fictício de Robert Syverten e Gloria Beatty, um rapaz do Arkansas e uma garota do Texas, duas pessoas que sonhavam com o estrelato em Hollywood, mas que por acaso do destino se encontraram participando de uma maratona de dança.

A princípio os jovens sorridentes esboçavam ousadia e determinação, afinal, tratava-se de um espetáculo de dança. Porém, logo a tortura psicológica pesava-lhes nos ombros: 879 horas de dança, com breves intervalos de 11 minutos para ir ao banheiro ou cochilar nas escadarias. People are the ultimate spectacle (as pessoas são o espetáculo definitivo), é o que diz o slogan do filme de 1969, onde Sydney Pollack levou ao cinema essa adaptação do livro conformemente intitulada Noite dos Desesperados, com Jane Fonda no papel de Glória e Michael Sarrazin interpretando Robert (uma produção que, inclusive, se tornou record de indicações ao Oscar no ano seguinte).

"A humanidade é uma grande esperança perdida. Cada homem está trancado dentro de si mesmo e sua alma é semelhante a um poço onde só o sofrimento vive e se agita". (Tennessee Williams).

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A história do livro é narrada em forma de retrospectiva, já começando com o julgamento de Robert pelo assassinato de Gloria. [Alerta: possibilidade de spoiler.] Por mais que o cenário pareça pitoresco, sem perspetiva, é justamente com isso que o autor consegue nos causar uma sensação tão angustiante como se estivéssemos, nós mesmos, enfrentando toda a crise junto com os personagens. O arrastar da história inicialmente frívolo se torna sombrio e acaba por nos deixar num desfecho que, para além de tudo, é um verdadeiro soco no estômago. Pois é exatamente na última linha que McCoy nos reporta ao título do livro, e a pergunta que antes não fazia sentido algum, ao final se torna uma indagação legítima.

A maratona de dança pode ser vista como uma metáfora da vida onde as pessoas necessitam seguir em frente vencendo o cansaço, o medo, superando os próprios limites, até mesmo sendo reerguido e posto no salão novamente, ainda que com vontade de desistir. Preponderamos sobre a insensatez cotidiana, o construto social, o vazio existencial, e no desfecho do livro temos a grande questão: para que tudo isso? Para que tanto esforço inútil por uma vida que sequer queremos realmente? E o mais importante de tudo: como chegamos a isso?

Através de uma narrativa repleta de amargura, McCoy nos mostra um espelho.

Por fim, chegamos a uma compreensão cruel da vida. É moralmente aceitável e piedosamente louvável que sacrifiquemos cavalos quando estão agonizando feridos, então o que podemos fazer com um indivíduo que agoniza ferido psicologicamente e emocionalmente?

Pois eles matam cavalos, não matam?


Haylane Rodrigues

Eu sou filha da lua, da tribo de Ártemis.
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