psicologia na contemporaneidade

Escrevendo e semeando através da psicologia, sobre a sociedade, formas culturais, e as relações.

Natali Maia Marques

Kafka e a boneca viajante: uma história sobre perda e simbolização

As noções do simbólico e real, são caminhos que percorremos até chegar a aceitação das frustrações ou perdas, ou como disse a boneca Brígida “Você deve saber que viver é seguir sempre em frente, aproveitar cada momento, cada oportunidade e necessidade[...]”, a ideia da importância de não ‘perdermos’ a capacidade de simbolização e imaginação!


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Durante o desenvolvimento psíquico há a capacidade de representação, adquirida com a aquisição da linguagem e do pensamento (a simbolização). A criança aprende a representar o que vê em imagens e o que ouve em palavras.Assim, a simbolização esta relacionada com o processo de representação por símbolos, ou seja utilização de representantes (significantes). O elo entre a representação e seu significado é definido socialmente.

A capacidade de simbolizar estrutura-se a partir de dois movimentos: conhecer o objeto e perder o objeto. Do ganho e da frustração. Assim, a formação do simbolismo na criança é muito importante para o desenvolvimento, fundamental para a inteligência e criatividade. Quanto mais esse processo simbólico é estimulado na criança maior a probabilidade de se tornar um adulto com condições de lidar com as perdas, frustrações, e questões da vida.

A criança aceita a ordem simbólica através da ordem imaginária, isto é, os seus desejos passam primeiro pelo outro, que podem ser aprovados ou reprovados, aceitos ou recusados, por isso a importância social. É através disso que a criança faz a aprendizagem da ordem simbólica, através da imaginação de histórias, desenhos, do brincar, que traduzem os sentimentos da perda.

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Simbolizar é sentir a perda. Daí a importância do estudo da função simbólica na construção da identidade, uma vez que, para que ocorra a aprendizagem é necessário sentir a perda de um objeto para depois ganhar e/ou apropriar-se de outro. A vida é também uma troca. Quando substituímos, simbolizamos e então amadurecemos.

Sabe-se que Franz Kafka, em 1923, encontrou uma menina no parque Steglitz, em Berlim. Ela estava chorando porque tinha perdido sua boneca. Não se saber quem é essa menina, e uma das versões Kafka teria oferecido ajuda para procurar pela boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar. Como não encontrou a boneca, ele inventou que a boneca teria viajado e começou a escrever uma série de cartas e lia para a garota quando se encontravam escreveu uma carta como se a boneca tivesse escrito e leu para a garotinha quando se encontraram, durante três semanas.

Jorri Sierra i Fabra¹, escreveu um simples e belo livro de um pouco mais de 100 páginas - "Kafka e a boneca viajante", que deu vida a esse processo de simbolização através da história que realmente aconteceu, entre, como disse César Aira, “Kafka o maior descobridor de signos na vida moderna” e uma menina que perdeu sua boneca. O livro é dividido em quatro partes: primeira ilusão: a boneca perdida – quando Kafka encontra amenina chorando no parque; segunda fantasia: as cartas de Brígida – quando se torna o carteiro de bonecas, e passa a escrever as cartas da então boneca perdida que se tornou viajante; terceira ilusão: o longo percurso da boneca viajante - quando começam as cartas de despedida da boneca; quarto sorriso: o presente - quando há a aceitação e superação da perda.

Segue um trecho inicial, para verem a rica construção que o autor realiza: “Querida Elsi, antes de mais nada desculpa por ter ido embora tão de repente, sem me despedir. Sinto muito e espero que não esteja zangada. Às vezes fazemos coisas sem perceber, ou reagimos diante do que o nosso instinto no diz, e magoamos quem não queremos. É que as despedidas são tristes, e eu não queria que você chorasse nem tentasse me convencer a ficar mais um pouco. Agora sei que vai ficar mais tranquila sabendo que eu estou bem, vai se alegrar por nós duas. Você deve saber que viver é seguir sempre em frente, aproveitar cada momento, cada oportunidade e necessidade[...]Você me ensinou muitas coisas, me fez ser uma boa boneca. A partida foi triste por deixá-la, mas bonita porque graças a você sou livre para fazer isso...”

Depois seguem muitas “invenções de cartas da Brígida”, que nos ajudam a perceber a importância da simbolização. O que você escreveria para algo ou alguém que perdeu? Ou então, o que imaginaria que algo ou alguém que perdeu te escreveria? Esses são aspectos que o livro vai estimulando no leitor. Essa capacidade de imaginação, que vamos perdendo quando adultos.

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Singela e criativa dedicação de Jordi Sierra (fazendo referência ao livro A Metarmofose) para Franz Kafka, um dos escritores mais influentes do século XX, que um dia disse: “A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”. E, apesar de não sabermos ao certo como a história da menina e a boneca perdida aconteceu, naquele parque foi exatamente esta solidariedade que Kafka teve com uma menina desconhecida e triste, ‘inventando’ a boneca viajante. Que nos ajuda a ver a importância da simbolização e da imaginação para não adoecer, criando uma história que a animasse, que a acalmasse, e principalmente inventando uma história que a preparasse para a separação menos dolorida da boneca que perderá.

¹Jordi Sierra I Fabra é um premiado escritor com mais de 300 obras publicadas. Criou a Fundação Jordi Sierra i Fabra, em Barcelona, e a Fundação Taller de Letras Jordi Sierra i Fabra para a América Latina, na Colômbia, que desenvolvem intenso trabalho com crianças e jovens para estímulo à leitura e à criação literária.O livro Kafka e a boneca viajante, ganhou o "premio nacional de literatura infantil y juvenil" em 2007.


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