psicologia na contemporaneidade

Escrevendo e semeando através da psicologia, sobre a sociedade, formas culturais, e as relações.

Natali Maia Marques

Adi Hudea: terrorismo e infância, as reflexões do livro “Violência ou diálogo”?

Adi Hudea, é a menina síria. Na guerra ou no terorrismo há uma ruptura. É a experiência dos traumas de guerra em relação ao sujeito diante da impossibilidade.


menina síria.jpg Adi Hudea ergueu as mãos ao confundir câmera fotográfica com arma. Foto: Osman Sagirli/Reprodução (2014).

A foto da criança Adi Hudea, realizando um gesto de rendição ao confundir uma câmera fotográfica com uma arma foi tirada, no campo de refugiados em Atmeh, na Síria. Mas tornou-se conhecida nesta última semana, ao ser publicada no Twitter da fotojornalista Nadia Abu Shaban, com a conhecidas hashtags, sendo utilizada a #surrender (rendição).

Essa fotografia pertence ao fotojornalista Osman Sağırlı, que a tirou em dezembro de 2014, e a publicou em um jornal impresso da Turquia. Osman disse que tinha a intenção de mostrar a realidade das crianças Sírias diante a guerra que assola o país e foi surpreendido pela atitude de Adi Hudea.

Qual a história de Adi Hudea?

Adi Hudea, nascida na cidade de Hama, 4 anos, ela é órfã pai o perdeu no atentado à bomba em Hama. Ela, a mãe, e os irmãos estão no campos de refugiados de Atmeh na fronteira com da Síria com a Turquia". Adi viajou ao campo, cerca de 10 km da fronteira turca, com a mãe e os irmãos, a 150 km da cidade deles. Sobre o momento da foto, disse sua cara entristeceu-se e subitamente, espremeu os lábios e levantou suavemente as mãos no ar. Osmar disse: “Não é fácil confortar uma criança que pensa que a câmera é uma arma. “Normalmente, crianças correm, escondem os rostos ou sorriem quando vêem uma câmera.” Não encontrei nada mais sobre Adi, ou sua família.

Em 2003, foi lançado o livro “Violência ou Diálogo?”, Sverre Varvin e Vamik D. Volkan, onde os autores apresentam contribuições da psicanálise em relação a questões de gênero e violência, religião e defasagem econômica, comparando os diversos contextos em que o terrorismo tem sido praticado, incluindo os conflitos entre as nações.

Ao final do livro os autores dedicam um capítulo para falar sobre o terrorismo e suas conseqüência na infância. Abordam os seguintes pontos: individualização, segurança, efeitos transgeracionais e vivendo com o terror e a violência.

Individualização

Tornar-se indivíduo com plenos direitos é uma tarefa primária da individualidade. Mas o terror, por sua própria natureza, ataca a individualização, ele desumaniza. Há uma perda da identidade individual. Por isso, procurei começar o texto falando da “pouca história” e possibilidade de conhecer e identificar quem é a menina síria da foto. Se pararmos pra pensar no caso da criança Adi Hudea, onde muitas pessoas disseram que a foto era “fake” (falsa), o primeiro ponto a ser ressaltado é a dúvida quanto a identidade de gênero: será um menino ou uma menina síria? Depois, a cada instante saíram mais e mais notícias com o mesmo título: “o mistério da menina síria da foto que se tornou um viral foi desvendado”. Acharam que a foto foi tirada em 2012, depois descobriram que em 2014, mas e só agora que “se tornou um viral". O terror como os autores referem, é impessoal, como também é a reação da multidão – não é “a” criança síria, mas apenas uma criança síria vítima da guerra, um viral, um mistério a ser desvendado. Qualquer coisa que domine o indivíduo, faça dele uma cifra, uma estatística ou, simplesmente, estou vendo a foto, o gesto de rendição de uma criança de 4 anos, mas ele não existe, é falso? Desumano, impessoal, ou seja, a guerra é o primeiro aspecto que o terrorismo destrói: a identidade.

Não, a foto, não é falsa, ou melhor, a criança existe, tem um nome, se chama Adi. Não é a criança que se tornou um viral. É Adi Hudea. Mesmo assim, sua identidade ainda nos é desconhecida. Em segundo, muito se discutiu a autoria da foto, até mesmo se seria uma montagem. Mas e buscar quem é ela? Qual seu nome? Qual sua história? Qual é a sua identidade? Ainda não temos essas respostas. Como os autores colocam, o terrorismo destrói o que é inicial: a identidade.

Mas por outro lado, podemos pensar, na imagem de Adi como uma “recuperação de identidade”, a foto, como meio de expressão artístico captou e individualizou o universo desta criança, por um momento, mesmo que instantânea ou não, o mundo voltou o olha a ela. A fotografia teve esse importante papel de resgate cultural e identitário, as pessoas procuraram saber quem era a criança da foto.

No livro também é abordado sobre como é esse existir, falando sobre as que as expressões faciais das pessoas aterrorizadas são sempre as mesmas. Para qualquer um isso já seria amedontrador, mas para as crianças, é ainda mais, porque elas perdem sua identidade, antes mesmo desta estar totalmente fundada, e encontram a si mesmas espelhando o terror dos adultos. São crianças perdidas, que não tem a possibilidade de se desenvolverem, de virem a ser.

Segurança

Aqui eles abordam que o que é esperado para o desenvolvimento das crianças , é que brinquem com seus brinquedos, com câmeras fotográficas, que os quebrem, mesmo que sem querer, ou até mesmo de propósito. Mas precisam lidar com essa perda e outras. E elas esperam que tudo fique em ordem de novo e para isso, a presença das figuras parentais funcionem como um meio de garantia, um sentido de segurança e confiança, que permitam a experimentação. Mesmo que não consigo ajudar a criança a lidar com a perda. Eles ajudam, dão suporte e ensinam a lidar com as conseqüências. Esse é o ideal. A criança necessita desse ambiente de segurança, nos pais, e em si mesma.

Mas no terror é diferente, porque o terror floresce na insegurança, ele destrói qualquer possibilidade de segurança, destrói qualquer possibilidade de inocência, de brincar com uma câmera. Ele está sempre a espreita e não há ritual na infância que possa mantê-lo a distância. E os adultos que vivem nessa situação aterrorizante aprenderam algum ritual, crença, para enfrentar a situação, e geralmente transmitem isso à criança, pais que não permitem que os filhos andem de ônibus, ou que vão ao correio, ou passear com a escola, as crianças vão sendo privadas e vivendo com a sensação do bombardeamento a qualquer momento, e os pais tentam aplacar a ansiedade infantil construindo mecanismos de proteção possíveis diante dessa realidade desumana. Por isso, uma câmera pode ser confundida com uma arma, e logo Adi precisou se proteger.

Efeitos transgeracionais e vivendo com terror, vivendo com violência

Estamos lidando com crianças em que os pais não podem, porque eles também estão ameaçados, então se começa um ciclo de uso da violência não como solução dos problemas, mas também como uma parte inerente da personalidade das crianças. Não há qualquer fé que os adultos possam resolver esses problemas, permanece uma espécie de impotência e fatalismo.

“Se a criança for repetidamente exposta à violência, os efeitos provavelmente serão mais significativos ou graves conforme ela vá ficando mais velha. A criança virá a esperar a violência no seu dia-a-dia, com o passar do tempo poderá ficar imune e sem sentimento diante dessa exposição.”

Assim, os escudos protetores das crianças estão rompidos, e por isso a criança tem que se desenvolver em condições adversas sem a plena sustentação da família e da comunidade, já que estas estão ameaçadas; e elas adquirem defesas adultas para enfrentarem a violência de seu dia-a-dia, novamente como no gesto de Adi Hudea, tão precocemente aprendido e adquirido.

Nesse sentido o terror atinge seu alvo e, pelo bem das crianças de todo o mundo, deve ser combatido.

Mas, infelizmente, o terrorismo mobiliza uma questão: Por que quebrar a cabeça tentando responder a pergunta “O que fazer” se não há a resposta para a questão “Quem o fará”? Sándor Ferenczi (psicanalista contemporâneo de Sigmund Freud), fala sobre os traumas de guerra, e a impossibilidade do sujeito de ressignificar. O uso excessivo de câmeras, agora não é mais utilizado como um objeto a serviço do lúdico - tirar uma foto para se ter na memória, mas no uso como instrumento de vigília e que coíbe o sujeito. O efeito do traumático constituiria, portanto, não somente a impossibilidade de registro, há uma destruição. Há uma ruptura. É a experiência dos traumas de guerra em relação ao ser humano diante da impossibilidade.

Bibliografia: Varvin S., Volkan D.V. (2003). Violência ou Diálogo? - Reflexões Psicanalíticas sobre Terror e Terrorismo. Editora Perspectiva, São Paulo/SP. Maldonado G., Cardoso R.M.(2009). O trauma psíquico e o paradoxo das narrativas impossíveis, mas necessárias. Psicologia Clínica


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