psicologia na contemporaneidade

Escrevendo e semeando através da psicologia, sobre a sociedade, formas culturais, e as relações.

Natali Maia Marques

Livre: a transformação de Cheryl Strayed na Rainha da PCT

Leia "Livre: A jornada de uma mulher em busca do recomeço", e transforme-se também, na Rainha da trilha, na escritora. No que for. Cheryl Strayed demonstra o processo da noção de ressignificação da própria história.


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No ano de 1991, Cheryl Strayed, aos 22 anos, após a morte da mãe, vítima de um câncer fulminante, adentrou numa vida intensamente destrutiva, passou a trair o marido repetidamente, afastou-se dos irmãos, viciou-se em heroína. Por isso 26 anos decidiu atravessar a Pacific Crest Trail (PCT), trilha que se estende da fronteira dos Estados Unidos com o México até à sua fronteira com o Canadá, e que Crheryl percorreu quase 1800 Km, não só pela possibilidade de um recomeço (subtítulo do livro), mas em busca de uma real transformação. Mas foi no ano de 2012 que ela escreveu sobre sua própria história, em "Livre: A jornada de uma mulher em busca do recomeço".

Três meses depois, ela ressurgiu da trilha como uma mulher capaz de decidir seu destino. Assim, a caminhada é o ponto essencial da história. Algumas pessoas disseram: “é só uma versão feminina de Christopher McCandless”, pra mim isso é reduzir a uma simples comparação. Afinal, Cheryl teve uma história de vida diferente de Christopher, por isso sua jornada de transformação e de construção junto a Natureza, também só poderia ser diferente.

E como também é apontado por ela mesma, aparentemente, poucas mulheres faziam a PCT, ou até mesmo poucas mulheres se permitiam pensar em aventurar-se. Sempre assinava seu nome nos cadernos deixados em pontos de chegada da PCT. Alguns que encontravam na trilha diziam a ela: Como uma mulher sozinha fazendo uma trilha dessas? E mais. Você é bonita demais para estar sozinha aqui. Mas Cheryl também recebeu muita ajuda e muitos foram gentis com ela, tanto que um grupo de trilheiros a apelidou de Rainha da PCT. "A cultura da trilha é muito amistosa, todas as diferenças de classes, religiões ou visões políticas são diminuídas porque ali o que interessa é carregar aquela mochila, encontrar água, se alimentar. Há um sentimento de fraternidade" (Cheryl Strayed).

No livro narra com muitos detalhes o pai abusivo que teve, das constantes agressões contra a mãe, ela e os irmãos, da dificuldade da mãe de conseguir a separação, que foi quando ela tinha seis anos de idade. O que ela fez a partir da morte de sua mãe não eram somente as atitudes de alguém que tinha algo faltando em sua vida. Eram as atitudes de uma pessoa que tinha a percepção de que em seu caminho poderia encontrar escolhas para que ela mudasse de rumo. E o mesmo acontece na longa caminhada. No entanto, com a decisão de fazer a trilha, Cheryl tinha um objetivo e aceitou que ela mesma podia se colocar no caminho corajosamente. Na trilha, lidou com os perigos, medos, desde o início quando sua mochila , que apelida de Monstra (de tão pesada), teve que carregar e ao longo do caminho foi "deixando" muitas coisas. Sozinha ela se encontrou. Ela se questiona: eu era inteligente, poderia ter entrado em Yale, Harvard. Mas nunca havia pensando que teria chances disso. E pouco tempo após a trilha escreveu o romance, percebendo que poderia e gostaria de ser uma escritora, criando seu primeiro romance "Torch". E hoje escreve para a coluna "Dear Sugar".

A leitura de Livre possibilita ver os processos de transformação e amadurecimento. O amor e a superação pela perda da mãe é onde sua história consegue nos tocar. Foi em sua trilha de 1770 Km que Cheryl pode estabelecer os reais sentimentos não somente com outras pessoas de sua vida, mas principalmente com aquela que tinha a maior e mais difícil ligação, sua mãe, em um de seus vários insights e elaborações: “Era tão implacavelmente terrível que minha mãe tenha sido tirada de mim. Não consegui crescer e me afastar dela e confrontá-la sobre as coisas que eu gostaria que ela tivesse feito diferente e depois envelhecer e entender que ela tinha feito o melhor que podia e perceber que o que ela fez era bom demais e acolhê-la em meus braços novamente...”. Depois da trilha ela deixou pra trás toda uma vida autodestruição, e se afastando, sozinha, pode se construir.

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