quando meus botões respondem

Diálogos sobre tudo um pouco e quase nada

Isabela Lima

Televonela: a realidade de quem?

O discurso construído pelas telenovelas é partidário e arbitrário. As novelas trazem à tona temas altamente relevantes para a sociedade em geral, como homofobia, violência doméstica, luta de classes, disparidade social, entre outros. Mas todo esse discurso é abordado de forma unilateral, ou seja, é feito para que classes dominantes consigam enxergar “outras” realidades, mas, acima de tudo, que isso seja aprazível a essas pessoas.


O cotidiano do indivíduo brasileiro é composto por uma rotina que chega a ser comum a praticamente todas as classes sociais: o costume de assistir televisão, principalmente aberta, está presente no dia a dia de pessoas de todas as classes sociais. O que se vê, há alguns anos, desde que o esquema de grade de programação foi instituído no país, são pessoas que constroem o seu dia pensando no jornal e na novela que irão assistir ao chegar em casa depois de um dia de trabalho. Essa relação direta e fiel do publico para com o conteúdo disponibilizado pelas emissoras (principalmente a Rede Globo de Televisão) foi, com o passar do tempo, estabelecendo uma via de mão dupla, natural dos meios de comunicação e com o advento da globalização, onde o publico, além de receber a informação conhecida como “mídia empurrada”, passou a ser também um ponto decisivo na construção e direcionamento destes conteúdos. E as novelas são o maior exemplo sintomático desta relação.

Neste momento, pensamos em Avenida Brasil, novela escrita por João Emanoel Carneiro, dirigida por Amora Mautner e que foi ao ar em 2012. O motivo desta novela emblemática ser tratada neste documento é o tema principal da trama, a ascensão da classe C e os considerados “novos ricos”, que, interpretados por Murilo Benício e Adriana Esteves (entre outros), deram um tom diferenciado ao “núcleo rico” da história.

No início de tudo, quando as primeiras produções televisivas eram feitas no Brasil, não se imaginava o alcance que elas teriam. Mas, em contrapartida, muitas delas já viriam com a intuição de quebrar tabus sociais, mesmo que imperceptíveis para a maioria da população. As primeiras inspirações e influências viriam das novelas latino-americanas, carregadas de melodrama. Depois disso, após os anos 60, o Brasil passa a estabelecer uma linha de roteirização, direção e produção das telenovelas nacionais, com caracteristicas que condiziam com a realidade local.

“Seguindo o caminho aberto por Beto Rockefeller, a dupla [Janete Clair e Daniel Filho] consolidou um novo estilo, a novela-crônica do cotidiano, inspirada no cinema, fiel à tradição melodramática do gênero, mas com ênfase no contemporâneo, o que acentuava sua vertente folhetinesca. As novelas passaram a utilizar diálogos coloquiais e a se referir a eventos e questões capazes de provocar debate e conversação. O foco das novelas da Globo na expressão da ‘vida como ela é’ é coerente com o mote do Jornal Nacional, lançado pela emissora em 1969, ano da primeira novela contemporânea.” (HAMBURGER, Esther. O Brasil Antenado A sociedade da novela. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2005, pág. 85)

Diante desta perspectiva onde a novela é mais um instrumento formador de opinião pública e principal produto comunicacional exportado pelo Brasil, feito pela maior rede televisiva nacional, foi inevitável a apropriação de temas cotidianos, políticos e sociais na construção dos roteiros das tramas. Os anos 70, marcados pela brutalidade do poder da ditadura militar que governava o pais, foram também o marco para a discussão destes tipos de temas na tela dos brasileiros. Passa-se. então, a perceber e questionar o papel das telenovelas como reprodutoras de ideologias e na disseminação e incitação ao consumo. Alguns autores chegaram, inclusive, a afirmar que as telenovelas tiveram papel crucial no resultado das primeiras eleições pós-ditadura, onde concorriam ao cargo de presidente da República Lula e Collor. Este é apenas um recorte das novelas como reflexo ou uma espécie de caricatura da realidade.

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O fato é que as novelas foram se transformando com o passar do tempo e com o empoderamento deste discurso de “espelho” do real. Como cita Esther Hamburger (2005), o critério da verossimilhança do universo ficcional das novelas é construído através da apropriação recorrente de elementos da linguagem jornalística e documental para aludir a eventos da conjuntura, elementos da cultura e da história do Brasil.”

O que a autora quer dizer é que a construção destas narrativas, passa, então a ser a mistura de convenções ficcionais já estabelecidas com convenções reais, absorvidas de noticiários, o que resulta na apropriação de fatos e fenômenos do cotidiano. Entretanto, é válido questionar que fenômenos são esses e sobretudo, que cotidiano é esse que é retratado de forma caricata para a sociedade.

E aí? Classe C para Classe C ou Classe C para Classe A e B?

A novela Avenida Brasil foi um marco importante para a história televisiva brasileira por vários aspectos que envolvem roteiro, fotografia e direção. Desta vez, os realizadores decidiram abrir mão do que já se estava acostumado a ver: famílias tradicionais com grandes impérios e grandes dramas, cercados por núcleos secundários, geralmente compostos por classes sociais inferiores, com histórias desimportantes que acabam servindo de esteio para a trama principal ou até mesmo assumem o papel cômico da história principal. Vale lembrar aqui também, que dentro dessas mesmas tramas divididas por classes sociais, é sempre no núcleo dos ricos onde acontecem os grandes crimes. Deve-se levar em consideração que, para a identificação e aceitação de um publico díspar, que vive em um país de extensões continentais e com tantas diferenças culturais, é preciso que sejam feitas caricaturas personificadas, visto que a mesma novela é assistida por grandes empresários de grandes metrópoles e por comunidades ribeirinhas do norte do país, que vivem à margem da civilização e de qualquer acesso à educação ou tecnologia (e que, contraditoriamente, são a maioria no que diz respeito ao consumo de telenovelas). Portanto, é imprescindível que sejam criados personagens reconhecíveis por todos.

No caso de Avenida Brasil, a classe c é representada por um jogador de futebol que naturalmente teve uma infância pobre uma história regada de dificuldades, que se casa com uma ex-catadora de lixo. Os dois, sob as custas do futebol (outra realidade alimentada pela mídia massificada), sobem na vida e deixam suas vidas simples para morar em um casarão e ter um padrão de vida melhor do que tinham. Bom, diante desta narrativa, a questão feita neste artigo é: de que ponto de partida essa história surgiu? Obviamente, como toda narrativa ficcional ou não, nasce a partir do ponto de vista de alguém. Mas de quem? Mais uma vez, volta-se para o maniqueísmo já discutido por Esther Hamburguer, onde a autora divide esse tipo de acontecimento em duas vertentes: em uma delas, artistas engajados que utilizam a plataforma televisiva para usufruir e disseminar a liberdade de expressão e a dura realidade brasileira dividida em classes sociais. De outro lado, a pesquisadora aponta que esses produtos servem para reiterar o pensamento e ideologia de classes dominantes.

Os autores de Avenida Brasil defendem a trama como um espaço para a representação e identificação da classe c. De fato, este é um reconhecimento que parte da própria emissora, de quem é realmente seu público-alvo e quem alimenta e sustenta todas as produções. Mas, será que esta representação da tal classe c foi feita para que eles se vissem na tv ou para que a classe dominante enxergasse algo além de seu próprio umbigo?

O discurso construído pelas telenovelas é partidário e arbitrário. As novelas trazem à tona temas altamente relevantes para a sociedade em geral, como homofobia, violência doméstica, luta de classes, disparidade social, entre outros. Mas todo esse discurso é abordado de forma unilateral, ou seja, é feito para que classes dominantes consigam enxergar “outras” realidades, mas, acima de tudo, que isso seja aprazível a essas pessoas. Caso contrário, há uma espécie te retaliação instantânea e totalmente influente, que aparece ora via redes sociais, ora via boca a boca, ora via audiência.

Muito embora não seja menos importante que temas como estes sejam abordados, ainda que superficialmente, é impossível não assimilar a posição assumida pela emissora responsável à classe social a qual pertence e por quem é gerida. Dentro dessa perspectiva, é possível questionar que tipo de realidade esses realizadores querem refletir, que realidade aparece no espelho. Será que a tal classe c se identificou com o que foi mostrado? Ou será que esta mesma classe c que serve de esteio para teledramaturgias também só serve de esteio para entreter a classe dominante, cansada de assistir os mesmos enredos?

Nada mais impressiona. Em pleno século XXI, com o bombardeio de informações absurdas que transbordam no dia a dia, é preciso fazer o impossível para impressionar o publico. Mas, o que é feito dentro das telenovelas, se resume a tão somente a apropriação de assuntos extremamente importantes para toda a sociedade e a transformação destes em discursos vendáveis. A falsa sensação de solidariedade para com as minorias é rentável, portanto, viram produto para impressionar a quem aparentemente não lida com esses problemas ou não aceita lidar, simplesmente por ideologia ou conservadorismo.

O mesmo acontece com a tal classe c (D e E também se encaixam aqui), dita público-alvo das telenovelas e composta, em sua grande parte, por pessoas menos instruídas e muitas vezes menos escoladas, que acabam servindo de matéria-prima para essas construções narrativas. Dessa forma, cria-se uma falsa sensação de identificação, quando, na verdade, assumem um papel caricato para as classes dominantes.


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