quando meus botões respondem

Diálogos sobre tudo um pouco e quase nada

Isabela Lima

A delicadeza visceral de "Boi Neon"

Personagens construídos para quebrar paradigmas e chocar o mundo e a nova safra de filmes que vem sendo feitos no Brasil


Existe uma nova safra de filmes brasileiros saindo há algum tempo, e isso é inegável. Muitos são considerados “médios” por alguns críticos e parte da imprensa especializada. No geral, obras que não tem o objetivo de serem socialmente ativas como foi Glauber Rocha e seu cinema novo, por exemplo; ou pretensões de estouro de bilheteria. Mas, sem dúvida, ficções que representam nova linguagem cinematográfica que vem florescendo no nosso país. O filme do qual quero falar é “Boi Neon”, que conta com roteiro e direção Gabriel Mascaro, que já traz na bagagem "Doméstica" (2001)" e "Ventos de Agosto" (2014), no qual assina a fotografia e também atua.

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De cara, somos ambientados ao tempo-espaço da história: a aridez do nordeste brasileiro. O cenário é o interior de Recife, onde acontecem as tradicionais vaquejadas. Iremar é responsável pelos bastidores do evento, preparando os bois para a arena. Ao seu lado, um grupo de amigos e parceiros de trabalho que levam uma vida seca e ao mesmo tempo rica. Aqui vale ressaltar não só protagonização de Cazarré, mas também a da paraense Maeve Jinkings e a revelação da pequena Alyne Santana. O filme nos leva então, para o que tem um cotididano peculiar dessas pessoas, construído no filme de forma visceral.

O mais intrigante no longa é observar a construção dos personagens e o posicionamento dos gêneros: Iremar prepara os animais, mas seu grande sonho mesmo é trabalhar na fabricação de roupas. O curioso é que ele sonha em trabalhar num Polo de roupas de praia, o que contrasta claramente com a região árida em que ele vive. O tempo inteiro lidamos com o personagem desenhando ou costurando. E ai de quem tiver a cabeça pequena em achar que o personagem é gay. Inclusive, entre as cenas que se destacam vale citar o momento em que ele transa com a vendedora de perfumes importados que durante a noite trabalha como segurança coincidentemente da fábrica de roupas que está nos sonhos de Iremar. E é numa mesa de corte de tecidos que acontece uma cena maravilhosa -e sem corte- entre o casal.

Além disso, o vaqueiro não é o único personagem bem construído no filme. Galega é a motorista do caminhão que transporta os bois e dá abrigo ao grupo. Enquanto Iremar costura roupas sensuais, ela se encarrega de consertar os pepinos entranhados na lataria de um automóvel. Ela consegue ser firme, forte e sem deixar de ser uma mulher sensual e feminina. Galega tem uma filha, a autêntica Cacá, que deve ter lá seus dez anos. A menina, sempre com a língua afiada e uma pitada de humor em suas falas- prefere acompanhar o vaqueiro em suas funções e gosta cuidar de cavalos.

Por falar em cavalos, é da majestade deste animal que o diretor tira a sexualidade inserida delicadamente no seu universo fílmico. É impossível não citar a performance de Galega vestida com a roupa feita por Iremar faz num contra-luz delicioso e que nos aparece como inserts excitantes durante o filme. Uma outra cena que me chamou atenção foi a que o personagem principal é o próprio cavalo sob uma luz única. Lindo, elegante e..sensual.

O que talvez incomode seja a duração de algumas cenas, referência do filmes “de arte”. Em geral, aparecem longas demais, sem muitos conflitos ou reviravoltas como estamos acostumados, com o esquema de início, meio e fim. Mas isso também faz parte da estética dessa nova safra de filmes que o Brasil vem semeando. No geral, a obra conta com a fotografia lindíssima de Diego Garcia, que, além de captar com tanta delicadeza o dia a dia daquele pequeno grupo que, mesmo vivendo num lugar tão inóspito, quebra vários paradigmas, foi capaz de sensualizar até um cavalo. "Boi Neon" é um filme para se observar e sentir.


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