isabela fuchs

Isabela é uma curitibana que estuda (e adora) Design e que é apaixonada por artes visuais, fotografia, história da arte, música, literatura, cinema, ilustração e tudo mais que lhe der na cabeça.

Casal Arnolfini: mistério, perfeccionismo e talento

O aperfeiçoador da tinta a óleo fez um dos quadros mais misteriosos e interessantes da História da Arte. Jan Van Eyck, pintor e Duque da Bélgica, em 1434 terminou sua obra-prima "O Casal Arnolfini", com uma técnica impecável, cores intensas e que não tem nada de superficial.


ve-casalarnolfini.jpg

Século XV, mais precisamente 1434. Nessa época, na atual Bélgica e Luxemburgo, eram produzidas obras descritas como o "gótico flamengo": intenso naturalismo e contraste; em praticamente todos os quadros encontra-se contraste entre fortes tons de vermelho, azul e verde. Dentre tantos nomes como Rogier van der Weyden, Hugo van der Goes e tantos outros, um pode ser descrito não como o melhor ou o mais talentoso, mas o mais interessante: Jan Van Eyck. Pintor natural da Bélgica e Duque de Borgonha, este pintor tem como uma suposta criação a tinta a óleo, porém a mesma já era usada anteriormente na mesma região, mas a tinta a óleo que o artista criou tem uma durabilidade superior. Grande parte dos seus trabalhos, obviamente, tem o tema religioso por consequência da época de seu trabalho.

Sua pintura mais reconhecida é a "O casal Arnolfini", de 1434 e exposta na National Gallery, em Londres. É um trabalho cuja técnica é incrível, mas não é só isso que é interessante em sua obra: são todos seus mistérios e histórias escondidas por trás desse quadro relativamente pequeno para a quantidade de detalhes minuciosos (o quadro tem 82cm x 60cm).

Em uma análise histórica superficial, o quadro apensas simboliza a união de Giovanni di Nicolao Arnolfini e Giovanna Cenami, ambos italianos ricos (perceptível pelas suas vestes em tecido nobre, embora eles realmente tenham existido). Há deduções de que o quadro havia sido encomendado pelo casal Arnolfini para representar o seu casamento, algo bastante comum na época. Como o casal tinha muito dinheiro, puderam pagar um pintor nesse nível e uma obra extremamente detalhada. Porém, está muito longe de ser apenas isso, este é um quadro imensamente simbolista.

ve-laranjas.jpg

As laranjas ao canto esquerdo na tela próximo a janela, além de ser item de luxo na época, também eram conhecidas como "maçãs do Éden", podendo simbolizar então os instintos pecaminosos sendo santificados perante ao matrimônio (!)

ve-cama.jpg

A cama, bem ao centro do quadro e entre o casal, pode significar que ambos estavam em um salão de visitas, visto que na época nas casas chiques na região de Flandres, a cama era colocada nessa parte do lar. Porém, nessa mesma cama, era o lugar onde as mães ficavam com seus bebês recém nascidos para receber as congratulações, o que levanta um questionamento a aparente gravidez de Giovanna. Além disso, o fato de ambos estarem em um quarto ou em uma sala pode dizer que este era um casamento secreto.

ve-tamancos.jpg

Os tamancos ao chão, além de obviamente comunicar que o casal está descalço, simboliza a crença na época de que pisar ao chão descalço assegurava a fertilidade, talvez outro indício de que Giovanna estava a espera de um filho. Além disso, também representa uma referência a um trecho biblico: "Tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa", dando ênfase a natureza sagrada do matrimônio.

ve-espelho.jpg

O espelho é o item mais misterioso e cheio de histórias do quadro, além de mostrar o óbvio talento de Van Eyck. Ele mede apenas 5,5 centímetros, e ao redor dele há todas as estações da Via Sacra, estas medindo apenas 1,5 centímetros de diâmetro. Um olhar atento ao reflexo do espelho percebe que não é só o casal Arnolfini que está lá: há o reflexo de três outras pessoas, provavelmente o clérigo e o próprio pintor! Acima do espelho convexo está escrito em latim e em letra trabalhada: Jan Van Eyck esteve aqui 1434". Explicado. Pela primeira vez na História da Arte um pintor se retrata como testemunha de um fato, algo que com o decorrer dos tempos virou recorrente, vide Velazquez que gostava de dar seu ar de graça em suas obras.

Essa obra é muito discutida e famosa pelos seus segredos. É um quadro que poderia ser simples, somente o retrato de um casal se casando, assim como nas fotos dos casamentos atuais, mas por que não deixar melhor? Van Eyck era um perfeccionista em potencial, jamais faria algo simples ou mal feito. Estudos em infra-vermelho mostram a quantidade de retoques que Van Eyck fez no decorrer da obra para deixar a mão de Gioavanni perfeita. É um quadro reflexo dessa época, ícone da História da Arte ocidental, símbolo-mor do perfeccionismo na pintura e, acima de tudo, único.


isabela fuchs

Isabela é uma curitibana que estuda (e adora) Design e que é apaixonada por artes visuais, fotografia, história da arte, música, literatura, cinema, ilustração e tudo mais que lhe der na cabeça..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/história da arte// //isabela fuchs