
- Mas isso não é arte. Isso até eu faço!
- Isso é música? Isso até eu faço!
- Pegar um mictório e expor em museu? Isso até eu faço!
Aposto que todo mundo ouviu isso alguma vez na vida, ou se não, algo como: "Hoje em dia não se produz mais arte. Um quadro com um risco na tela não é arte". É mesmo?!
O primeiro argumento a relutar essa ideia intolerante e conservadora do "até eu faço" é simples: então faça. Já que você é um artista nato, vamos ver se você expõe seu quadro no MoMA. O segundo argumento é o de que a cada novo movimento artístico, seja literário, nas artes visuais e outros tantos, há uma enorme relutância partindo das pessoas intolerantes a mudanças em toda a esfera da humanidade, e a arte vai se configurando conforme a época em que se vive, a realidade da atualidade. O terceiro argumento é que, tudo bem, você pode não gostar de certo artista, mas jamais poderá desconsiderar que Rothko, Pollock, Mondrian e Klein não foram incríveis e que sim, produziram obras de arte: Rothko se desenvolveu em meados do século passado e mesmo assim tem gente que não o aceita como artista. Se isso não é conservadorismo artístico, eu não sei o que é.
O que às vezes é difícil de se entender é que toda arte tem um propósito. Mesmo se houver um quadro com uma mancha de tinta azul na tela, não é porque o artista tinha um resto de tinta acrílica azul cerúleo e não queria jogar fora. E também não é só uma mancha de tinta azul na tela. Arte não é superficial e, portanto, não se deve fazer uma análise fútil das obras também.
A Fonte, de Marcel Duchamp, de 1917 é um simples mictório (que vale 3 milhões de euros, para constar). "Que ridículo. Um urinol não é arte". Duchamp sacou essa ideia em 1917, há quase 100 anos, e levantou o questionamento do que pode ser arte. Por que um urinol não pode ser uma obra de arte? Esse é o movimento dadaísta, um movimento de questionamento artístico. O incrível é que esse questionamento foi levantado há quase um século atrás, e mesmo assim a ideia do que é arte não foi captada. Cem anos para captar uma ideia. É muito tempo.

Jackson Pollock não era nenhum perturbado que queria gastar mil reais em tinta e desperdiçá-la jogando em uma tela em branco. O nome do movimento artístico dos respingos de tinta que ele inventou (sim, Pollock foi o pai do dripping, técnica a qual há o respingo de tinta em telas enormes) é expressionismo abstrato, movimento artístico americano em período de guerra e pós-guerra, algo como se realmente quisessem fazer algo non-sense alertando que a guerra era tão sem sentido quanto seus quadros. Porém, sem deixar de se importar com a cor e a intensidade - os quadros de Pollock tem cores incríveis e quem já visualizou seus quadros ao vivo fala que são dramáticos. Ou seja, não são apenas respingos de tinta que qualquer um faz.

Simplesmente não faz o menor sentido a retomada dos valores renascentistas, por exemplo. A arte urbana, Alfredo Volpi, Lygia Clarck, hiper-realismo, Ron Mueck, fluxus, pop art, op art, arte povera, isso sim faz sentido atualmente. Lamentamos o ocorrido aos conservadores. Sentimos muito. Arte não é apenas tinta, tela e pinceis. É algo muito, mas muito mais profundo mesmo e que não permite análises ultra superficiais. Sim, qualquer um pode fazer isso - mas nem todo mundo tem um propósito. O propósito antecede a arte. Sempre.
Comentários
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Alex Boto
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alexboto.blogspot.com
Arte com técnica, proposito, mensagem e que remete o observador a questionar-se do que está a ver.
PS: muito bom texto, todos nos artistas ja ouvimos em algum momento de nossas vidas essa frase e sem duvida que "entao faça voce" é a melhor resposta ou entao o silencio.
Marcio Sarge
Parabéns pela explanação.
De certa forma é dificil explicar que a arte não serve só para embelezar as paredes da sala, mas que seu intento vai muito além, esconde filosofias, ideologias, debates, ou seja, é de uma profundidade que vai muito além das camadas de tinta.
Podemos não gostar da estética de uma obra mas podemos discutir a ideia por traz dela.
Muito obrigado por dividir isso com nosco e peço permissão para expor esse texto no meu site.
Até!
pode colocar no seu site com certeza! até mais e obrigada!
cris fernandes
Maravilhoso artigo. Isabela Fuchs escreve em grande parte no texto sentimentos em que eu compartilho.
Neste século com a introdução da arte digital ainda é pior o olhar dos 'críticos de arte' em relação a alguns trabalhos. Alguns não reconhecem nem a chegada do pixel e a expressão cibercultura.
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