isabela fuchs

Isabela é uma curitibana que estuda (e adora) Design e que é apaixonada por artes visuais, fotografia, história da arte, música, literatura, cinema, ilustração e tudo mais que lhe der na cabeça.

O sutil erro do "Até eu faço!"

A frase "até eu faço" perdura no vocabulário dos conservadores artísticos desde o começo do século XX. Um argumento fraquíssimo e preconceituoso que, apesar de diversas manifestações artísticas do século passado, continua na ponta da língua de diversas pessoas que ainda não entenderam que toda arte tem um propósito por trás das telas, esculturas e instalações.


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- Mas isso não é arte. Isso até eu faço! - Isso é música? Isso até eu faço! - Pegar um mictório e expor em museu? Isso até eu faço!

Aposto que todo mundo ouviu isso alguma vez na vida, ou se não, algo como: "Hoje em dia não se produz mais arte. Um quadro com um risco na tela não é arte". É mesmo?!

O primeiro argumento a relutar essa ideia intolerante e conservadora do "até eu faço" é simples: então faça. Já que você é um artista nato, vamos ver se você expõe seu quadro no MoMA. O segundo argumento é o de que a cada novo movimento artístico, seja literário, nas artes visuais e outros tantos, há uma enorme relutância partindo das pessoas intolerantes a mudanças em toda a esfera da humanidade, e a arte vai se configurando conforme a época em que se vive, a realidade da atualidade. O terceiro argumento é que, tudo bem, você pode não gostar de certo artista, mas jamais poderá desconsiderar que Rothko, Pollock, Mondrian e Klein não foram incríveis e que sim, produziram obras de arte: Rothko se desenvolveu em meados do século passado e mesmo assim tem gente que não o aceita como artista. Se isso não é conservadorismo artístico, eu não sei o que é.

O que às vezes é difícil de se entender é que toda arte tem um propósito. Mesmo se houver um quadro com uma mancha de tinta azul na tela, não é porque o artista tinha um resto de tinta acrílica azul cerúleo e não queria jogar fora. E também não é uma mancha de tinta azul na tela. Arte não é superficial e, portanto, não se deve fazer uma análise fútil das obras também.

A Fonte, de Marcel Duchamp, de 1917 é um simples mictório (que vale 3 milhões de euros, para constar). "Que ridículo. Um urinol não é arte". Duchamp sacou essa ideia em 1917, há quase 100 anos, e levantou o questionamento do que pode ser arte. Por que um urinol não pode ser uma obra de arte? Esse é o movimento dadaísta, um movimento de questionamento artístico. O incrível é que esse questionamento foi levantado há quase um século atrás, e mesmo assim a ideia do que é arte não foi captada. Cem anos para captar uma ideia. É muito tempo.

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Jackson Pollock não era nenhum perturbado que queria gastar mil reais em tinta e desperdiçá-la jogando em uma tela em branco. O nome do movimento artístico dos respingos de tinta que ele inventou (sim, Pollock foi o pai do dripping, técnica a qual há o respingo de tinta em telas enormes) é expressionismo abstrato, movimento artístico americano em período de guerra e pós-guerra, algo como se realmente quisessem fazer algo non-sense alertando que a guerra era tão sem sentido quanto seus quadros. Porém, sem deixar de se importar com a cor e a intensidade - os quadros de Pollock tem cores incríveis e quem já visualizou seus quadros ao vivo fala que são dramáticos. Ou seja, não são apenas respingos de tinta que qualquer um faz.

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Simplesmente não faz o menor sentido a retomada dos valores renascentistas, por exemplo. A arte urbana, Alfredo Volpi, Lygia Clarck, hiper-realismo, Ron Mueck, fluxus, pop art, op art, arte povera, isso sim faz sentido atualmente. Lamentamos o ocorrido aos conservadores. Sentimos muito. Arte não é apenas tinta, tela e pinceis. É algo muito, mas muito mais profundo mesmo e que não permite análises ultra superficiais. Sim, qualquer um pode fazer isso - mas nem todo mundo tem um propósito. O propósito antecede a arte. Sempre. aef-ronmueck.JPG


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Isabela é uma curitibana que estuda (e adora) Design e que é apaixonada por artes visuais, fotografia, história da arte, música, literatura, cinema, ilustração e tudo mais que lhe der na cabeça..
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