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Isabela é uma curitibana que estuda (e adora) Design e que é apaixonada por artes visuais, fotografia, história da arte, música, literatura, cinema, ilustração e tudo mais que lhe der na cabeça.

Aniversário de um cantor simplório e expressionista: Elliott Smith

No dia 6 de Agosto, Elliott Smith faz aniversário. Morto há aproximadamente nove anos, esse cantor simplório não mudou a música e nem teve essa ambição, mas fez muito: música boa de verdade e muito sensível.


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No dia 6 de Agosto, Elliott Smith faz aniversário. Morreu novo, suicidou-se. Suas músicas eram simplesmente a antecipação desse fato um tanto quanto óbvio. Tão evidente que Wes Anderson, em seu ótimo filme Os Excêntricos Tenenbaums utilizou Neddle in the Hay, uma das melhores músicas de Elliott, como trilha sonora da tentativa de suicídio de Richie. O link dessa cena está aqui.

O texto que vocês irão ler não é um texto técnico como costumo escrever; é um texto de uma fã que não tem Elliott Smith como um ídolo, mas como um companheiro de infinitos momentos na vida, seja os marcantes ou dos dias banais e bucólicos. E como fã, também sei que Elliott Smith não é um ícone de maestria musical, nem revolucionou nada, mas fez o papel dele: pegou seu violão, em outros momentos a sua guitarra, e compôs e cantou músicas que provavelmente não só a mim emocionou. A música dele está muito distante do complexo&rebuscado, ainda bem. Arranjos simples, mas sonoramente agradáveis, melancólicos e letras sensíveis. São somente esses os ingredientes para sua obra.

Antes dele virar de fato o Elliott Smith, teve uma banda em Portland no ano de 91, Heatmiser, em que ele era o cantor e guitarrista. Conseguiu levar a banda até 95, depois saiu. Foi uma banda de grunge bem boa, por sinal, apesar de diferente da obra solo de Elliott.

Toda a sua história começa com Roman Candle, um álbum furioso, obscuro e angustiante. Novamente como fã, posso dizer que é um álbum que diz muito, não só do Elliott, mas dizem muito por si mesmas, não são nem um pouco vazias. Engraçado que a ideia que Elliott passa é de um expressionismo musical; há de fato uma técnica, mesmo que não ortodoxa, que apenas mostra um sentimento. E se Roman Candle fosse uma obra de arte, sem sombra de dúvida seria "O Grito", de Munch.

Duas músicas de Roman Candle que vale ouvir: Roman Candle e Last Call.

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Um ano depois, 1995, Elliott lança Elliott Smith. O fato do álbum ter o nome do cantor talvez dê, em consequência, um álbum que é simplesmente a cara do cantor, sua identidade estampada, nu e cru. Muito mais calmo e melancólico que seu álbum anterior. Considero Elliott Smith e Either/Or, seu álbum sucessor, farinhas do mesmo saco. Either/Or é um álbum extremamente semelhante ao seu antecessor; calmo e depressivo. Não os considero, sinceramente, os melhores álbuns. Na realidade tenho a opinião de que todos são bons, só depende do momento, mas de qualquer forma, acredito individualmente que mesmo apesar de serem álbuns bem sinceros e um tanto quanto complexos visto sua dramaticidade e melancolia. Porém, foram os primeiros que ouvi e devo sim reconhecer que são os mais importantes e imponentes de sua carreira. Talvez eu tenha mau gosto. Mesmo com toda essa aura melodiosa e suave dos dois álbuns irmãos (eles não foram produzidos com esse propósito, mas um complementa o outro), há sim um tom de som e fúria no meio, como se a agressividade de Roman Candle ainda circulasse pelas veias dessa fase tão low-fidelity .

No Oscar de 1997, Elliott Smith estava lá. Realmente incrível que um cantor que gravava suas músicas na sala competia com Celine Dion o Oscar. Gus Van Sant pediu uma composição para Gênio Indomável, e saiu daí Miss Misery. Elliott não ganhou, mas de qualquer forma esse é um feito e tanto: o sujeito com seu terno branco encardido, banco e um violão competindo com a Celine Dion, My Heart Will Go On e infinitos efeitos especiais.

Duas músicas de Elliott Smith que vale a pena ouvir (a estrela desse álbum é Needle in the Hay, mas como ele já foi linkado anteriormente, colocarei outras músicas): Alphabet Town e Single File.

Duas músicas de Either/Or que vale a pena ouvir: Between the Bars, uma de suas músicas mais famosas, e Rose Parade.

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Em 98, XO é lançado pela gravadora Dreamworks, esta que percebeu o potencial de Elliott depois de sua composição para Gênio Indomável. Apesar do típico clichê anti-mainstream em que fãs puristas de Elliott de que esse álbum é muito comercial, ele se vendeu etc, é inegável o fato de que é um álbum incrível e Elliott Smith não perdeu a sua essência, apenas a aprimorou. Não é porque o álbum é mais rebuscado que ele não haveria de ser bom. Realmente Elliott estranhou o seu sucesso, viajando pelos Estados Unidos e vendendo cds como água. Mesmo assim continuou sendo ele mesmo.

Duas músicas de XO que vale a pena ouvir: Sweet Adeline e Pitseleh.

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Dois anos depois, Figure 8 é lançado. O álbum se abre com a maravilhosa Son of Sam, uma música bastante diferente das suas usuais composições e bastante intensa. Aliás, intensidade é o que marca esse álbum: as músicas são extremistas em potencial, a foto tirada para ser a capa do cd virou um memorial de Elliott Smith, e foi seu último projeto musical. Definitivamente há diferenças realmente muito marcantes entre o músico de Figure 8 e de Either/Or, se algum fã com opinião divergente quiser discutir isso. Mas é um álbum maduro e primoroso. Aqui, Elliott Smith não é mais low-fidelity e isso não é bom e nem ruim, apenas diferente.

Engraçada a estranha coincidência de que a última música do álbum se chama Bye. Vai entender.

Duas músicas de Figure 8 que vale a pena ouvir: Son of Sam e Junk Bond Trader.

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A 1:36 da manhã, Elliott Smith é declarado morto em Los Angeles por suicídio. Inevitável a causa mortis: Elliott passou os 34 anos da sua vida em sofrimento e depressão, apesar de seu inegável bom humor. Porém, há diversos e incríveis álbuns póstumos: New Moon, From a Basement on the Hill e os três Lone Ones.

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A década de 90 não teve exatamente só uma identidade musical, como os anos 80 em que você identifica facilmente a década a qual a música pertence, mas teve muita coisa nova, boa e que tá aí até hoje. E Elliott, apesar de não ter o mesmo significado histórico que bandas como Nirvana e Pearl Jam tiveram na época, se diferenciou, fez bonito e marcou. Seja pela sua voz, pelo seu lirismo ou, talvez, pelo seu expressionismo musical que realmente emociona.

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Isabela é uma curitibana que estuda (e adora) Design e que é apaixonada por artes visuais, fotografia, história da arte, música, literatura, cinema, ilustração e tudo mais que lhe der na cabeça..
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