questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

Geração Peter Pan (ou Capitão Gancho?)

Adultos que querem parecer mais jovens. Crianças que querem parecer mais velhas. A grama do vizinho é sempre mais verde e o nosso jardim perece cada vez mais pelas próprias raízes. Segurem os ponteiros do relógio que eu quero descer!


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Deparei-me com um dado perturbador para um país ainda em desenvolvimento: em 2014, o Brasil ultrapassou os EUA e se tornou o país que mais faz cirurgias plásticas no mundo. Um número exorbitante de intervenções estéticas ditadas meramente por um modelo midiático de corpo ideal. Ao mesmo tempo, de 1996 a 2012, o índice de mortes por depressão cresceu 705% (isso sem contar todas as outras pessoas que simplesmente tiveram o distúrbio ao longo da vida) e a taxa de suicídios aumentou 53%, equivalendo a um total de 28 suicídios por dia.

É claro que existem muito mais motivações de diferentes aspectos que afetam esses números, mas isso não interfere na forte correlação que esses valores parecem apresentar: nós não nos aceitamos como realmente somos. E uma das principais questões “inaceitáveis” é o envelhecimento, justamente uma das mais naturais e inevitáveis. Não podemos ficar velhos, temos que honrar o lema Forever Young até as últimas instâncias. Não que permanecer com a mente jovem seja ruim: pelo contrário, é essencial mantermos nossa criança interior bem desperta para estendermos nosso campo de visão e ficarmos abertos a novos pontos de vista. O problema é quando esse desejo desenfreado de juventude esconde um temor assustador de crescer e amadurecer para poder manter-se mimado e irresponsável por um período bem maior. É aí que entra a sempre verde geração Peter Pan no caso.

Peter_Pan_1915_cover.jpg Somos os reis somente de nosso mundo de sonhos?

Na história, o menino que não queria crescer tinha como principal rival um pirata que adaptou um gancho em lugar de sua mão devorada por um crocodilo, o qual sempre o persegue para comer todo o resto. Peter Pan simboliza o pueril desejo de juventude eterna para desfrutar de todo o paraíso da Terra do Nunca. Já o Capitão Gancho representa a árdua realidade: crescer exigiria dor e sofrimento que procuram, na figura do crocodilo, arrancar sempre mais algum pedaço como preço de se tornar adulto. Um teme o outro, um é a sombra do outro. Ambos são diametralmente opostos, mas é por isso que se complementam em uma constante luta entre a intuição e a racionalidade, a arte e a ciência, a emoção e a lógica. Tudo em busca do equilíbrio entre os dois extremos. Peter Pan precisa aprender que não há conquistas sem batalhas. E o Capitão Gancho necessita perceber que há muito que se aproveitar da vida além de fugir de um voraz crocodilo. Porém, quando a balança pende para um lado só é apenas questão de tempo até que tudo desabe.

Captain_Hook.png O acirrado conflito que ainda nos mantém balanceados

Ademais, somos paradoxalmente tão estimulados a crescer cada vez mais cedo nesse mundo acelerado que nosso corpo se vê obrigado a compensar esse apressado fardo com uma valorização despropositada da infância. Esse é o momento em que surge a influência do Peter.

Tanto que pesquisadores já identificaram até uma nova ocorrência conhecida como síndrome de Peter Pan: o problema se origina basicamente com a não aceitação de si mesmo com a aparência e idade que tem. Esse desvio emocional gera uma infantilização tal na pessoa que ela deixa de arcar com as responsabilidades que possui para viver em um mundo de ilusões, sua Terra do Nunca particular, tornando-se excessivamente apegada a brinquedos e desenhos animados. Guardadas as devidas proporções, essa situação não é muito diferente do que vemos hoje: adultos rendidos a telas de videogames, levados a exibir vidas mais do que perfeitas em suas redes sociais, mas ainda com calafrios profundos frente a cabelos brancos e aos seus outros monstros repelidos para debaixo da cama que vêm assombrar os seus sonhos cor-de-rosa.

Isso sem contar o efeito contrário, mais próximo ao Capitão Gancho: a adultização precoce de crianças que as leva a possuir agendas lotadas de compromissos, assistir a cenas a cenas inapropriadas em pleno horário nobre e a conviver com toda uma estrutura pouco adaptada para desenvolver-se à maneira e ao tempo adequados.

Adultos crianças e crianças adultas. Não seria muito mais fácil aproveitar as características intrínsecas a cada estágio para desfrutá-los na hora e na dosagem certa? Porém, é sempre preciso lembrar que nenhuma dessas fases é eterna e que a metamorfose para a próxima irá ocorrer de uma forma ou de outra. Controlando o instinto de madureza exacerbada do Capitão Gancho, basta apenas mostrar a Peter Pan que a realidade não é nenhum bicho de sete cabeças desde que se saiba adaptar-se a conviver com ela.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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