questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

Pelas tênues veredas entre a ciência e a essência

Tem que ser pensado, mensurado, avaliado, registrado, divulgado se quiser provar, diz a ciência tradicional. E o que não se encaixa em algum dos parâmetros acaba rotulado conhecimento popular, vulgar, o famoso achismo. Mas e se o achismo puder chegar tão ou até mais longe do que a academia? Será que o sentir do ambiente não pode ser tão útil ou mais do que a visão racional sob condições artificiais de laboratório?


Sculpture_Entitled_Boy_by_artist_Ron_Mueck.jpg Salvador Dalí e Ron Mueck podem ter muito pouco em comum. Mesmo assim, as suas exposições de abordagens completamente opostas atraíram multidões no Brasil e no mundo. E a tendência por atrações similares ao âmbito de trabalho de cada um já não é tão recente. Assim, como Kandinsky, Jean Bazaine e tantos outros defendem que a época que o artista vive é o único influenciador do qual ele nunca conseguirá escapar, podemos encontrar um retrato mais fiel de nós mesmos dissecando as essências das nossas expressões visuais mais aclamadas.

As obras de Dalí são o principal símbolo do surrealismo, trabalhos com muito uso da fantasia e paisagens oníricas. Não está muito longe de outros como Chagall, Miró e Picasso, que se utilizavam de figuras e formas imaginárias para dar voz a sensações intensas, beirando a loucura. A ordem é a busca pela maior abstração possível, aquilo que choque pela total incongruência que apresente à primeira vista. Anastasiya_Markovich_Balls_of_World.jpg "Bolas do mundo" de Anastasya Markovich, onde estruturas comuns partem para uma porta desconhecida aberta por anjos nos céus.

Já Ron Mueck é o lado (metaforicamente falando) totalmente avesso à abstração e ao irreal: seus trabalhos de esculturas que surpreendem pelos detalhes fisionômicos para retratar pessoas fazendo atividades comuns pode ser agrupado às também muito consideradas exposições fotográficas e, indo um pouco mais além, até com os corpos da exposição BODIES a exibirem toda a sua versatilidade muscular mesmo depois de mortos e embalsamados. Esta é a ala dominada pelo real, hiper-real. Demonstrar as diferentes facetas de nosso mundo por meio da perfeição representativa, tornar pedaços de tela ou de pedra em réplicas cada vez mais fiéis ao que realmente enxergamos até o ponto de gerar certa dúvida se “é de verdade ou não” no caso de Ron Mueck.

A mais pura abstração e o mais puro materialismo. Duas vertentes aparentemente contraditórias a se expandirem progressivamente por seus próprios caminhos. Mas que inesperadamente (ou invariavelmente) podem acabar se cruzando justamente no momento em que uma pensa ter perdido totalmente o rastro da outra.

Dalí foge do concreto para enxergar além do que está acostumado, busca as forças latentes que estão por trás de nosso mundo burocrático e racional. É uma arte voltada ao óculo, a verdadeira massa do iceberg, a mente inconsciente. Porém, o escape da realidade nada mais é do que a não aceitação do estado atual de coisas por qualquer motivo impulsionador que seja. E que acarreta no asilo entre a nostalgia e a esperança, uma volta às origens que reflita um futuro mais adequado. É por essa razão que ambientes referentes à natureza são tão comuns, símbolos importantes de uma desejada serenidade em tempos de cólera.

Já a obra de Mueck não reflete a mesma coisa: ela está direcionada ao mundo que realmente vimos, o iceberg aparente, a mente consciente. Aqui o presente demonstra o seu valor, a tecnologia atual permite com que a realidade seja modelada detalhadamente. Agora a existência prática se autossustenta e oferece um ambiente plenamente saudável para o desenvolvimento da vida.

Ainda parece muito contraditório: Contudo, temos de nos lembrar das cabalísticas palavras de Hermes Trimegisto: o que está em cima é como o que está embaixo. Matéria e espírito. Consciente e inconsciente. São apenas maneiras diferentes e complementares de representarem um único todo. 256px-Feng_shui_svg.png Um dos teoremas do Yin e Yang diz: quando potencializados, Yin gera Yang e Yang gera Yin.

Na ciência, esta antítese está fortemente amparada pela aproximação aparentemente ilógica entre a física com a psicologia e a espiritualidade. O mundo quântico está dando nós na cabeça de muitos conservadores desde que não funciona com a mesma base de nossas estruturas macroscópicas. Partículas atravessam barreiras, são imprecisas e as flutuações quânticas podem fazer a energia aparecer do “nada”. O que assustadoramente passou a fazer paralelos com os conceitos de Jung sobre o inconsciente coletivo (conjunto de arquétipos presente em nós que de alguma forma é herdado das gerações passadas, como o medo do escuro que reflete a insegurança dos homens primitivos durante a noite ou o medo de animais perigosos) e a sincronicidade (aproximação de dois eventos diferentes pelo mesmo significado, como eu cantarolar uma música mentalmente e outra pessoa aparecer cantando exatamente a mesma canção, sonhar que está em determinado lugar e depois realmente encontra tal lugar na realidade).

Amit Goswami, um dos físicos mais defensores dessa aproximação, retrata que a ciência cada vez mais se aproximará da religião a ponto de Deus poder ser estudado e comprovado cientificamente com base na evolução dessas aproximações de matérias inicialmente totalmente alheias uma à outra.

O jeito é continuar seguindo esse ritmo. E manter os pés sobre cada um dos caminhos parece que será o melhor para compreender as suas influências mútuas e evocar o estado e a essência de um balanceado equilíbrio interno e externo.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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