questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O separatismo de tudo

O papel está se tornando a mais valorizada representação de nós mesmos: é ele quem sabe o que queremos, o que estudamos, o que somos. Sua frieza estabelece os inflexíveis destinos vinculados a currículos e diplomas para a seleção dos mais bem-aventurados pelos tortuosos caminhos do mercado e da academia. O escrito é sagrado diante da vã tentativa de mostrar a cara como ela realmente é...


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A hipocrisia está solta no ar: é impressionante como os esforços de alguém podem não ser pautados por si mesmos, mas pelo tamanho da influência daqueles que os percebem. Títulos são geralmente os mais importantes e vistosos. Afinal, um médico deve saber muito melhor o que devemos fazer de nossas próprias vidas do que nós, reles mortais desprovidos de jalecos e bastões de Esculápio, assim como ninguém pode ser considerado apto a conversar com um grupo de crianças da forma mais corretamente engessada possível sem possuir um distinto diploma em pedagogia. Pobres avós, serão obrigados a correr para os vestibulares antes de falar adequadamente com os netinhos...

Forside_Gammel_ung_profil.jpg E foi assim que... não, espera... Na página 121 da apostila diz que eu só posso lhe contar isso quando você estiver 12 centímetros mais alta... Onde é que a régua foi parar?

Tais absurdos resultados parecem ser o cúmulo de um gradual processo autodestrutivo: a fragmentação da vida. Nossa crescente individualização tem cada vez mais construído um muro extremamente sólido entre o ego e o mundo. Os seres são considerados diferentes entre si e essas aparentes divergências ocasionam disputas irracionais e conflitos disfuncionais. Guerras cotidianas contra o próprio universo que nos sustenta.

Em terra de cego, essa situação demonstra-se fortemente nas bases da educação, no mais puro ambiente escolar: a aprendizagem é dividida em mais ou menos 13 áreas onde, entrando e saindo professor, cada um deles geralmente valoriza a própria matéria e possivelmente mais algumas em detrimento de outras, mas dificilmente todas. Assim como os alunos. Porém, essa visão limitada surge de um conceito essencialmente certo, mas que ao ser elevado de categoria gera a mesma fragmentação: é quando o professor de física diz que tudo é física, o de química diz que tudo é baseado em química. Até de um instrutor de autoescola já ouvi dizer que tudo era trânsito. E ele não está errado. Nenhum deles está. Só faltou perceberem que a física, a química e o trânsito estão tão coerentemente sustentados quanto todos os outros ramos do conhecimento que obedeçam à lógica de tudo que nos permeia.

Estamos todos sob os mesmos lençóis, todos sob a mesma energia cósmica espalhada por diferentes formas sem perder a sua consistência. Português e matemática podem parecer assuntos opostos, mas tanto as letras como os números seguem raciocínios similares: menos com menos dá mais, assim como dois “nãos” na mesma frase significam “sim”. Uma equação revela caminhos para um determinado resultado, assim como uma descrição requintada de detalhes leva a uma construção literária conveniente para qualquer bucólica paisagem. Caso se procure mais a fundo, é notável o número crescente de correspondências. O que nos fará chegar à conclusão de que, apesar de aspectos inicialmente diferentes por completo, português é matemática. Português é física. Matemática é química. Trânsito é filosofia. Quem entende bem de uma está naturalmente preparado para compreender a outra desde que saiba transpor devidamente cada forma de pensar.

Panthéisme.jpg A semelhança entre o grande e o pequeno é maior do que se imagina...

E não para por aí: saindo do campo de matérias, esse deslocamento pode se estender a qualquer coisa. Assim, até uma pedra pode ser semelhante a um humano desde que possui suas mesmas energias só que dispostas sob maneiras bem diversas.

Para finalizar, deixo um exemplo descrito por Italo Calvino em seu livro “As cidades invisíveis”, em que demonstra como aglomerados urbanos possuem características similares às emoções humanas e aos princípios fundamentais que regem a existência:

“Da cidade de Zirma, os viajantes retornam com memórias bastante diferentes: um negro cego que grita na multidão, um louco debruçado na cornija de um arranha-céu, uma moça que passeia com um puma na coleira. Na realidade, muitos dos cegos que batem as bengalas nas calçadas de Zirma são negros, em cada arranha-céu há alguém que enlouquece, todos os loucos passam horas nas cornijas, não há puma que não seja criado pelo capricho de uma moça. A cidade é redundante: repete-se para fixar alguma imagem na mente. (...) A memória é redundante: repete os símbolos para que a cidade comece a existir."


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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