questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O Quinze "reloaded"

Déjà vu. Você já deve ter tido algum. Lembra-se de como essa estranha sensação de "já haver visto isso antes" era desconcertante, incompreensível? É bom prestar mais atenção da próxima vez: pode ser o alerta de que o seu destino está seguindo o seu predeterminado ciclo por mais uma vez...


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Este ano marca o centenário da devastadora seca de 1915 que assolou tanto o nordeste brasileiro a ponto de virar o tema principal do livro “O Quinze” de Rachel de Queiroz. Porém, este artigo não é simplesmente um texto comemorativo enfeitado de velinhas para a celebração do seu aniversário. O que me perturba, guardadas as devidas proporções, é o seu retorno.

Em 2015 o ciclo se repete com força não menos considerável a partir da crise hídrica, energética e econômica no país. E o pior é que esse viés não é nada de inesperado: sempre há os períodos mais e menos chuvosos que de certo modo se equivalem, assim como ocorre com épocas de prosperidade e declínio. Contudo, se tanto a economia quanto as águas tendem a essa oscilação em torno de uma média similar, quer dizer que não existe evolução? E que, por consequência, não possuímos controle suficiente para alterar mais radicalmente nosso destino? Calma, muita calma, vamos entender tudo isso por partes.

Rachel_de_Queiroz_-_Não_me_deixes.png A escritora Rachel de Queiroz: relatora das secas passadas e anunciadora das secas futuras?

O próprio Euclides da Cunha em “Os Sertões”, escrito há pouco mais de 100 anos, já percebia que o regimento das secas pareciam seguir alguma desconhecida lógica superior: cada período de falta severa de água ocorria geralmente de cada 9 a 12 anos, calhando sempre de acontecerem durante períodos mais ou menos semelhantes de cada século. Parece não ser por acaso que as secas de 2015 e 1915 tivessem se espelhado também nas de 1808-1809 e 1710-1711. Tal continuidade quase imperturbável demonstra bem a capacidade da vida de nascer, morrer e regenerar-se num ciclo constante. Porém, ao mesmo tempo a adoção de um círculo ao invés de uma espiral nos remete sempre ao mesmo estado de início como se não tivéssemos nos movido por todo esse tempo. Como se Sísifo não fizesse esforço nenhum para carregar sua pedra até o alto da montanha. É então que entra a inflexibilidade da roda do Samsara.

Samsara.jpg A roda de Samsara dividida em seis fatias relativas a cada karma que um ser vivo pode se ver intimamente atrelado

Este é o conceito do budismo que representa o caminho circular a ser perpassado por todos os seres vivos. Basicamente a aplicação do seu previamente traçado destino de vida, a trilha de seu karma. Então, não se pode escapar de todos os rumos que devemos fatalmente percorrer? Na verdade, a roda não é tão infalível assim: o seu verdadeiro propósito é ser apenas um estágio a ser enfrentado antes de se alcançar níveis maiores de iluminação.

Sim, então ela pode ser refutada. Mas não é muito simples: acredita-se que dentre todos os seres vivos apenas o ser humano, usando a sua racionalidade e consciência de si mesmo para se afastar dos desejos terrenos, seria capaz de quebrar sua roda predeterminada. Neste momento é, então, alcançado o estado de Nirvana (a libertação do sofrimento pela superação das amarras do mundo físico) e a pessoa se tornaria plenamente capacitada para definir seus próprios caminhos de maneira virtuosa. Conquista íntima que, igualmente guardadas as devidas proporções, é retratada na trilogia “Matrix”.

Em “Matrix Reloaded” descobre-se que todos os cinco escolhidos anteriores foram anomalias no sistema matematicamente esperadas pelas máquinas. Seu surgimento traria sempre a esperança de libertação para a humanidade, contudo, seu destino igualmente planejado o faria retornar à fonte apenas para salvar os últimos sobreviventes da queda de Zion e perpetuar o controle das máquinas no sistema da “Matrix”.

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Todavia, com Neo é diferente: para resgatar Trinity a tempo, Neo quebra a roda ao se recusar a voltar à fonte e ainda assim buscar o fim da guerra com as máquinas. Seu desenvolvimento pessoal pelo equilíbrio do mundo físico com o mental / emocional / espiritual o habilita para provar de atitudes inovadoras que gerem resultados otimizados, realmente alcançando a tão aguardada trégua para os humanos.

Em todos os sentidos, por mais que não se reconheça, a seca de 2015 sempre esteve nos planos da natureza para eventuais baixas hídricas e também no conceito do capitalismo para crises cíclicas. Iria ocorrer mais cedo ou mais tarde devido a muitas razões fora de nosso controle e até bem fora de nossa própria compreensão. No entanto, nós não podemos nos acomodar demais e nos acostumar com a passividade diante de rotinas levemente variadas, porém indesejadas do cotidiano que podem acabar por nos sufocar.

É quando o dia a dia, a família, a sociedade ou qualquer outro fator externo assume o papel da roda de Samsara e estabelece um destino para você sem a sua real consideração. E também é desses casos particulares que se pode começar a sair do quadrado para alcançar revoluções gerais. Sim, evolução existe, ou ainda estaríamos fazendo gravuras nas cavernas com nossos próprios excrementos.

Porém, contraditoriamente, imagino que seja exatamente neste instante que a Oráculo de “Matrix” surge para nos defrontar com seu olhar arguto por entre um desconcertante sorriso de canto de boca enquanto propositadamente ainda nos desafia: “será que a humanidade realmente se libertou de seu destino como refugiado nas cavernas ou apenas se confirmou como um eterno refugiado de si mesmo sob a máscara de um falso desenvolvimento da modernidade?” Ok, talvez não fosse propriamente nestes termos, mas a ideia não seria diferente.

E é verdadeiramente um raciocínio tentador para a validação da inexorabilidade do destino. Contudo, nesse meio tempo, Zion sempre esteve de pé com seus habitantes em pleno contrafluxo das correntes tradicionais. E tiveram de passar cinco gerações de escolhidos antes que Neo chegasse. Então iremos esperar que, no momento propício, haja aspirantes equivalentes a Morfeu e Trinity para lhe mostrarem o caminho que somente o próprio Neo poderá percorrer.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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