questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

De Godzilla a Jurassic World: a evolução da involução

Cuidado, olha o monstro! Quem deixou essa peste entrar? Eu falei para amarrá-lo bem! Não importa se ele quebrou todas as correntes, o seu dever era mantê-lo quieto ao menos enquanto nós pudermos ganhar algum dinheiro com isso...


Velociraptor-by-Salvatore-Rabito-Alcón.jpg

Em meio a novas filmagens de sucesso de clássicos da ficção científica na forma da 3ª maior bilheteria da história em “Jurassic World” e de novas versões de “Godzilla”, é interessante verificar a fórmula inerente às suas estruturas para continuarem chamando a atenção do público mesmo com roteiros extremamente similares.

Convenhamos: a história em geral é praticamente irretocável ao longo das continuações. A base narrativa sempre se passa por um ser desproporcionalmente temível por causa da ação dos homens que subitamente sai do controle, causa uma destruição em massa, ameaça o futuro da humanidade e ao final o perigo é erradicado de alguma maneira, mas nada que não evite o surgimento de novos e graves tormentos futuros em razão de uma nova recaída da desenfreada cobiça humana que naturalmente garante sempre a possibilidade de novas sequências com a mesma linha de raciocínio.

Então, por que esses filmes ainda nos são atrativos? Por que nos assustamos de verdade com o bote de um velociraptor mesmo sabendo exatamente o que irá acontecer? Mais do que as histórias em si, é justamente o jogar de luzes sobre temores pouco resolvidos da atualidade que parece ser um fator mais relevante. O momento em que a sombra de cada um é repentinamente encurralada por monstros abomináveis depois de uma longa perseguição e agora apenas resta enfrentar essa aberração de frente...

O Godzilla levanta diretamente a questão da energia nuclear a partir dos seus primeiros filmes nos anos 50 como uma reação explícita a esse terror global: devido ao mau uso dessa perigosa potência um monstro praticamente invencível surge para fazer as pessoas pagarem o devido preço por brincarem com fogo, ou melhor, radiação. Todos conhecemos esse fantasma nuclear. Ele nos ronda constantemente, pacientemente aguarda por algum impensável vacilo na segurança das mais confiáveis usinas. Nós sabemos disso. E continuamos aceitando naturalmente o risco. Pode ser por fatores econômicos, políticos, até medicinais. A radioatividade sustenta os nossos pilares até o momento em que não ganha força suficiente para se voltar irada contra nós...

Gdzilla!!!.jpg "Corram, insolentes, fujam agora de seu próprio veneno! Muhahaha!!!"

No entanto, este perigo, apesar de sempre presente, já não nos assusta tanto: neste cenário pós-guerra fria, ao menos por enquanto, não existem potências militares que se ameacem mutuamente com um alarmante número crescente de ogivas nucleares. A valorização de sua utilização para fins civis tende a manter a quantidade empregada em níveis estáveis e melhor controlados. O Godzilla não perde a sua monstruosidade, mas já somos mais capazes de mantê-lo no mar a uma boa distância de nossas cidades. Como diria José Padilha, o inimigo agora é outro. O Godzilla evoluiu ao longo do tempo para ficar artificialmente similar a seres extintos há milhões de anos em suas mais variadas formas. O Jurassic World está aberto ao público para o seu próprio deleite suicida.

Jurassic_Park_Tyrannosaurus.jpg "Tô nem ligando, sobra mais comida para o almoço! Muhahaha!!!

O grande problema é a origem de cada aberração da natureza: a ferocidade de Godzilla é resultado de um acidente, uma negligência que permitiu com que a energia nuclear por si só desenvolvesse um temível mutante. A ação humana é apenas um degrau para que o monstro surgisse. Na série jurássica é diferente. Tudo nunca passa de um irresistível desejo de controlar seres naturalmente muito mais fortes que o Homo sapiens a partir somente da nossa abençoada inteligência. Não há acidentes para que os monstros existam, a sua criação é devidamente planejada. Seria a maior prova de que também podemos brincar de Deus e devolver a vida ao que não teria mais condições de sobreviver em nosso ambiente natural.

E toda essa excepcional conquista é destinada ao nosso mais puro entretenimento, para aprisioná-los em um parque temático e nos divertirmos por sermos a espécie indiscutivelmente dominante mesmo diante dessas feras destruidoras. Ainda se essa iniciativa fosse ocultada por um motivo pelo menos mais “razoável”, como ter o objetivo de entender os organismos antigos para desenvolver novos tipos de curas, verificar como a vida evoluiu desde então. Mas nem isso foi uma preocupação: vamos clonar dinossauros porque é legal. Porque assim podemos asseverar a superioridade humana sobre o universo. E principalmente porque é absurdamente lucrativo.

A ditadura da felicidade. A hedônica busca do prazer a todo custo. E que por isso é vendida a qualquer preço: não há nada mais entusiasmante do que desafiar perigos cada vez mais arrepiantes. Não é muito diferente de parques de diversão onde zombamos do poder da gravidade em montanhas-russas alucinantes e outras atrações que te viram para todos os lados possíveis sem o menor perdão. Pular de paraquedas ou até viajar pelo espaço. A lista é grande. E certamente poderia abrigar um exótico zoológico com fósseis vivos sempre famintos graças aos seus incontáveis e vorazes dentes modificados geneticamente.

O medo de sermos exterminados por falhas no manejo de energias superpotentes já não é maior do que o de ser devorado pelo progresso excessivo de tecnologias alimentadas pela nossa própria arrogância. Agora o risco já não nos é, de certo modo, externo: ele ocorre justamente se tudo o que queremos der certo. Se as nossas próprias aspirações prosperarem até demais. E o maior problema é esperarmos quebrar seriamente a cara para então compreendermos porque o Capitão Nascimento passou de leal apoiador a ferrenho contestador de um sistema oligopolista que impera de maneira retrógrada e deteriorada em sua mais pura ambição autodestrutiva. Ou traduzindo: em terra de ciência sem limites, quem tem um bocado de bom senso é um pouquinho mais ajuizado.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Leandro Dupré Cardoso