questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

A era i-Racional

Quando as insensíveis máquinas misturam o alto grau de interatividade entre os próprios membros com o seu mais do que desenvolvido raciocínio lógico, o que se forma? A nova era i-Racional, que controla tudo e todos como marionetes de fios invisíveis.
Mas ainda falta uma última cartada: a inteligência emocional humana. O único fator que ainda concede um pouco de vantagem à humanidade. Isso se os robôs também não a aprimorarem nessa minha nova história de ficção.


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Você já imaginou se, depois de um leve momento de distração, tudo aquilo que você conhecesse, tivesse (e até mesmo fosse) simplesmente desaparecido de um trato? Pois é sobre essa inquietante quebra de estruturas que me debruço no segundo livro que venho a publicar com a editora Clube de Autores, “A era i-Racional”.

“Seu corpo estava pesado, sua mente já parecia cansada. Era como se tivesse ficado inconsciente por séculos. A única coisa que conseguia vagamente distinguir a sua frente pelos olhos ainda sonolentos era o que aparentava ser uma máquina que passava sobre a sua cabeça e de onde uma garra metálica se estendia ameaçadoramente na direção de seu rosto.”

Humberto era um pai de família comum: esposa, dois filhos, um bom emprego. Nada de especial. A não ser pelo seu próprio nome: “Humberto” provém originalmente do antigo dialeto germânico e significa algo como “ de inteligência brilhante”. E é tal destreza cerebral tanto para o lícito quanto para o ilícito que irá transformá-lo no principal entrave para aquele que pretende espalhar a ignorância pelo globo...

É preciso tirá-lo da jogada. Ao menos enquanto ainda pudesse atrapalhar. Assim, enquanto passeia despreocupadamente com a família por um parque de diversões, seu destino está prestes a mudar quando adentrar em uma misteriosa atração, o “Labirinto da cavalgada de Hélio”, uma referência ao deus Hélio, símbolo do sol na mitologia grega, que usaria a sua cavalaria cósmica para dar a volta por todo o comprimento da Terra todos os dias assim como o próprio astro-rei faz para nos oferecer sua luminosidade diariamente.

Apenas pelo seu título já se pode perceber que não se trata de um labirinto comum: na verdade, ele não oferecia tanta dificuldade assim desde que a pessoa já é capaz de divisar a saída ao final do mesmo corredor por onde acaba de entrar no lugar. Basta andar em linha reta, não tem erro. Mas também não há emoção. E é dela que o labirinto se alimenta: pois todos dizem que o lugar, que possui espelhos por todo o corredor principal, ainda possuiria um deles que seria especial por refletir não somente a imagem habitual de quem se olha, mas o reflexo que a pessoa deseja enxergar. E este só seria acessível por meio das inúmeras entradas laterais que não seriam visitadas por aqueles que buscam a comodidade do corredor. Ao final, todos desistem dessas bobagens e não se arriscam em ficar presos no labirinto enquanto a saída se mostra tão facilmente. Menos Humberto.

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A imagem comum não basta: é preciso ir além do que o espelho tradicional diz.

Não resistindo a essa irrefreável curiosidade, o homem adentra o desconhecido por vontade própria. O que talvez comprove que o caminho não era tão ignoto como se pensava: o labirinto nada mais é do que seu próprio cérebro a ser analisado. Caso Humberto o enxergasse de cima isso talvez ficasse mais claro dado que o corredor central é como o espaço que separa os dois lados do cérebro e os confusos caminhos das entradas laterais representam as infindáveis dobras de cada um dos hemisférios. O corredor central é o equilíbrio, o ego do visitante. E as entradas laterais irão revelar as suas bases, o id e o superego na língua de Freud, por meio de na verdade dois espelhos que exibem os desejos reais da pessoa observada, ainda que sejam os mais profundos. Tão profundos que nem o próprio Humberto pode aceitá-los como seus. O homem desmaia. E um mundo completamente novo iria se desenhar durante o longo período em que seus olhos fossem mantidos bem fechados.

Com o corpo moído de tantos sonhos de aflição, Humberto desperta. E o clima torna-se efetivamente kafkiano quando tudo fica repentinamente cinza: as paredes, as máquinas, a garra metálica pouco acima que parece sempre prestes a comprimir-lhe impiedosamente a cabeça. Porém, não obstante esse ar de fábrica, ainda parece que o homem está dentro de um hospital visto que acabava de acordar sobre um leito clínico. Acontece que, agora, as intervenções em um corpo humano não eram consideradas muito diferentes da manutenção praticada em qualquer material danificado. Quando algo se estraga passa a precisar de ajustes que otimizem novamente o seu desempenho. E toda essa leva de humanos e objetos em avaria era encaminhada para um só lugar: a fábrica da juventude.

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Será que... fomos longe demais?

E sua esposa? Seus filhos? Seu emprego? Se ainda estes fossem os seus maiores problemas: logo o homem vem a descobrir que possui controle de seus movimentos apenas do pescoço para cima. Seus braços e pernas ainda podem se deslocar, contudo o fazem mediante os comandos não de sua mente, mas de um sistema externo que ordena as suas locomoções por um dispositivo que Humberto descobre estar implantado em sua coluna e na de todos os outros. Ou melhor, também não havia mais Humberto: seu novo código para reconhecimento torna-se JÓ2719PR29, muito prazer. Este era o início de seu novo funcionamento como empregado compulsório de um mundo autoritariamente dominado por robôs, máquinas e sistemas mais do que avançados.

Mas, afinal: será tudo sonho ou realidade? Nunca se sabe até que ponto a interatividade daqueles seres de aço poderia chegar...

Ali não existem mais plantas, nem animais. Para que robôs precisariam disso? Se nem os humanos precisam mais comer e nem dormir dado que a bateria que carregam em suas colunas recarrega automaticamente à medida que se movem para trabalhar. E eles estão trabalhando a todo instante. Todos trabalham sem parar. Não há necessidade de pausas e existem muitos fios para serem ordenados ainda. Menos conversa e mais resultados!

Em uma sociedade totalmente insensível e massificada, a missão de JÓ2719PR29 não será nada fácil: descobrir o que ocorreu com sua família e fazer toda a sua vida voltar ao normal. Todavia, o prosseguir de sua revolução solitária irá revelar muitas surpresas, como o fato de a maioria dos robôs também estarem sendo explorados por um ente maior, EF217CL210, o qual nunca se tem certeza de tratar-se de um sistema, um computador superpotente ou qualquer outra coisa totalmente nova. Assim, o homem transformado em máquina terá de lutar contra este adversário intangível, enfrentar alicates inflexíveis e monstros de aço inoxidável para comprovar que a sua real identidade ainda pode prevalecer e permitir que ele volte a se chamar Humberto por mais uma vez.

Disponível no site do Clube de Autores.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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