questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

Lucy e as fronteiras do conhecimento

Quando a criação de Adão dá lugar à criação de Lucy, o feminismo tanto da criadora quanto da criatura perde os seus traços mais originais: o sentimentalismo esperado é trocado por uma oferta puramente do mundo racional para um ser irracional. O conhecimento torna-se a verdade absoluta. O problema, então, será permeá-lo de bom senso para que ele não destrua os seus próprios alicerces...


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Quando se reúnem artistas plenamente renomados do calibre de Scarlett Johansson e Morgan Freeman para estrelarem um novo filme de ação pode-se esperar apenas mais alguma história clichê, um digno filho de Hollywood talvez apenas com uma leve pitada de sal a mais, porém nada muito fora do padrão. Mas isso realmente não acontece em “Lucy”.

Não vou negar: o filme tem os seus buracos. O pior deles parece claramente ser na insistência do comprovadamente falso conceito de que utilizamos somente 10% da nossa capacidade cerebral. Considerando que o diretor declara diretamente em entrevistas que tem plena ciência de que essa ideia é de fato um mito, não posso imaginar outro motivo para ele fazer uso dessa abordagem a não ser por razões puramente comerciais. Assim poderia chamar continuamente a atenção do público com a escalada de consciência de Lucy mesmo nos oferecendo uma informação errada. Contudo, esse evidente equívoco se torna até aceitável perto das demais bases que sustentam a trama em um complexo emaranhado de questões existenciais.

“Lucy” é um filme ousado, um daqueles que não aceita meio termo: ou você se satisfaz com os rumos filosóficos que a história adquire ou se decepciona profundamente com a falta do bom e velho bangue-bangue tradicional em um prometido filme de ação. No início até parece que será realmente esta a tendência: envolvimento com mafiosos, tráfico de drogas, submundo do crime. Até aí nada de novo. É somente quando o organismo de Lucy entra em contato direto com uma nova droga sintética que as coisas começam a ficar interessantes em uma história que passa a ser completamente diferente.

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Esta é Lucy, uma espécie de elo perdido para o desenvolvimento da espécie humana. Seria a Lucy atual também o marco de separação definitiva da humanidade para a origem de outra espécie ainda mais complexa?

Todo o período anterior se mostra pleno de brutalidade e ignorância. A partir de agora quem dará as cartas será a ditadura do conhecimento. Afinal, o efeito da substância artificial na corrente sanguínea provoca um aumento explosivo do metabolismo da mulher, desencadeando a contínua ascensão de sua capacidade cerebral até o difamado percentual de 100%.

Só que tamanha conquista também exige um alto preço: à medida que Lucy ganha cada vez mais habilidades mentais, sua personalidade acaba perdendo justamente as emoções mais básicas, seus sentimentos dão lugar a um tratamento frio e calculista perante tudo e todos.

Essa mudança drástica de perfil é que se torna crucial para o entendimento da história: pois é aparentemente neste momento em que a mulher decide empreender uma altruísta corrida contra o tempo para deixar as suas grandes descobertas nesse avançado estado de consciência como um precioso legado para a humanidade. Uma referência clara a Prometeu que roubou o fogo dos deuses para oferecer aos homens. Mas Lucy realmente não quer terminar a sua vida acorrentada e com um simpático corvo a devorar-lhe o fígado todos os dias.

Ela quer se eternizar. Existem vários homens fortes da máfia chinesa em seu encalço, mas Lucy nem liga: a sua inteligência será aproveitada ao máximo para transformá-los nas marionetes que abrilhantarão o seu próprio espetáculo. Que agigantarão o seu “sacrifício” pela humanidade sem que ninguém se dê conta de que se está apenas a ajudando a perpetuar o seu poder crescente. Que deve ser conquistado a qualquer custo.

Lucy vira uma máquina imparável. A mulher nem se importa em andar com o carro na contramão ou mesmo pela calçada em alta velocidade. Os acidentes ocasionados pela sua imprudência não lhe afetam, os seus nobres fins justificam os questionáveis meios.

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Basta imaginar um Robocop alucinado a fazer justiça com as próprias balas para se ter noção do comportamento compulsivo que se impregna em Lucy.

O lema de Lucy é diretamente expresso na trama: respondendo ao argumento de que tamanho saber pudesse ser prejudicial a uma sociedade com valores e morais deturpados, ela defende que somente a ignorância traz o caos e, por consequência, o conhecimento só poderia trazer a ordem. É assim que ela convence os cientistas em seu auxílio a lhe aplicarem uma última dose cavalar da droga sintética e enfim reinar absoluta por todo o espaço-tempo. E o que recebemos em troca? Um mísero pen drive como relíquia para os seus colaboradores.

Mas não, Lucy, a coisa não é tão simples assim: tudo funcionaria direitinho se nós fôssemos seres neutros, isentos de sentimentos como você. Mas não somos. As nossas sensações mais íntimas podem ser naturalmente administradas por nosso pensamento racional, mas nunca deixam de martelar.

É nítido o avanço que o conhecimento nos proporcionou com a medicina, a tecnologia, a informática. Progredimos muito. Porém, estas são somente ferramentas. O modo como as manejamos é que dirá se as utilizamos para construir prédios ou fabricar bombas, para desenvolver projetos de inovadora sustentabilidade ou apenas aperfeiçoarmos modelos retrógrados que levam a mais exaustão de recursos naturais e do planeta. A ordem ou o caos.

Portanto, apesar de ser importante,o conhecimento não pode ser o fator fundamental para resolver esta questão. Jung já dizia para conhecermos todas as teorias, dominarmos todas as técnicas. Mas no momento em que tocássemos uma alma humana deveríamos ser simplesmente outra alma humana.

Enquanto a nossa galopante racionalidade não for acompanhada por um sincero desejo de amor ao próximo não se pode existir realmente progresso. Só se os nossos frutos possuírem uma sólida estrutura holística, buscando o que seja realmente mais satisfatório para nós, os outros e todo o universo em conjunto, é que poderemos ter orgulho de fazer parte da verdadeira geração do futuro.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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