questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

Samádia - A lenda da ilha perdida

Profecias que nunca dão errado. Uma mística ave cujas intenções nunca estão realmente claras. Florestas quânticas, terremotos devastadores e cobras pouco domesticadas. Muitas delas.
Estes serão apenas alguns dos obstáculos que a cidade de Sáltano terá de enfrentar para que o reino de Samádia ressurja em todo o seu esplendor. A não ser que a cidade, invariavelmente, esteja fazendo toda a história apenas voltar ao início...


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Uma ilha dividida. Uma profecia aterradora. Uma cidade emergente. Essa será a tônica que irá basear a busca pelo reino perfeito em meu novo livro “Samádia – A lenda da ilha perdida”, lançado pela editora Clube de Autores.

Tudo era perfeito enquanto Samádia existia: sendo uma ilha desconhecida pelo resto do mundo e igualmente impenetrável pelas suas falésias gigantescas, o povo samádio que ali habitava vivia em plena harmonia consigo e com a natureza ao redor. Não poderia haver mais desejos onde a paz fosse soberana, não é? Na verdade, não exatamente...

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O bucolismo por tantos desejado tende a durar pouco quando efetivamente alcançado...

Começando a pensar que moravam sobre uma torre de Babel natural, os samádios se viram cheios de tantos privilégios que iniciaram a supor que fossem superiores a todos os seres vivos do planeta. E, por isso, só faltava agora se igualarem aos próprios deuses para atingirem o apogeu de sua civilização. Porém, diz a lenda que tanta propensão não pôde ser deixada incólume pela providência divina: como castigo pela ousadia, a ilha antes circular agora teria gradualmente “baixado” para assumir o formato de uma espiral que liga da altura original até ao nível do mar. Ademais, os samádios também arcaram com as consequências tendo de se dividir em nove povos que habitariam pontos diferentes da ilha e perderiam toda a essência que lhes guiou a vida por tantos séculos.

Hoje em dia, a ilha perdeu até o seu nome: chama-se apenas “Ilha Inclinada”. Suas nove cidades cresceram e se desenvolveram. Mas sempre olhando para seus próprios umbigos: nenhuma possui mais consciência da existência da outra depois de tantos séculos de isolamento. Sendo uma referência à árvore sagrada da mitologia nórdica, Yggdrasil, cujo tronco abriga nove mundos pelo eixo do universo, a falésia maior da Ilha Inclinada reúne apenas nove cidades potenciais, mas que nunca somarão suas qualidades e dividirão seus defeitos enquanto não trabalharem juntas. Alguém precisa tomar alguma iniciativa para isso. E tal atitude veio justamente do povo que poderia ser considerado o menos social dentre eles: Soriano.

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Representação de Yggdrasil com a águia na copa, os cervos pelo tronco e a serpente enrolada pelas raízes.

Soriano era uma cidade perfeccionista, analítica até a raiz do cabelo. Sua marca principal era a tecnologia para o desenvolvimento de fábricas que produzem apenas as coisas que considera “necessárias”, como comidas enlatadas, armas, despertadores para poderem voltar a trabalhar e máquinas que facilitassem ainda mais o seu trabalho. Só trabalho, trabalho e trabalho. Até que tanto esforço passou a não fazer muito sentido: níveis tão altos de produção eram direcionados à demanda duvidosa de seus muquiranas habitantes, gerando estoques monstruosos que passavam a comprometer todo o espaço da cidade. Reduzir o trabalho? Nunca! O que precisavam era de mais demanda E onde encontrá-la? As matas ao redor não pareciam muito convidativas. O melhor talvez fosse justamente lançar-se ao mar e procurar mercados pelo resto do mundo. E para isso precisavam de um porto bem qualificado.

Entretanto, os sorianenses não podiam construí-lo em seu território: Soriano era a segunda cidade de baixo para cima daquela ilha elevada, o que já era alto o bastante para invalidar tal ideia. Era preciso alcançar o nível do mar. Então seriam obrigados a atravessar fronteiras nunca antes ultrapassadas. O que poderia haver no caminho até as praias? Imaginavam qualquer tipo de perigo, menos uma outra cidade...

Sáltano. Um lugar tão asqueroso como seu povo degenerado. E não era por acaso: sendo a cidade mais baixa da ilha, a gravidade fazia todo o efluente dos rios ser despejado ali. Junto a todos os metais pesados e toxinas que os contaminam. E que são majoritariamente lançados pelo próprio Soriano e suas indústrias incansáveis...

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O território de Sáltano é fétido, repugnante, venenoso. Não é para menos que o nome da cidade se formou a partir de Sal + Pântano...

O que torna o seu Frankenstein mutante um sedento por vingança: Sáltano não vê o dia em que poderia sair da lama de seus infindáveis pântanos para fazer justiça contra aqueles outros povos que sempre o marginalizaram perante o mais baixo grau da sociedade tanto literal quanto metaforicamente. E agora a chance aparecia quando menos esperava...

Sáltano temia o arsenal invejável de Soriano. Porém, conhecendo o gênio pacífico da cidade, não demorou para aproveitar-se da construção do porto e começar a enriquecer à custa dos sorianenses enlouquecidos por trabalho. E que mal sabiam que alimentavam um novo monstro...

As consequências são as mais inimagináveis: tomado por seus fortalecidos impulsos de acerto de contas, Sáltano conquista Soriano com as próprias armas que havia adquirido com a mesma cidade. E não pretende parar por aí: agora que pôde sentir o gosto da vitória pela primeira vez, a cidade baixa não quer mais que este o abandone. Depois de anexar Soriano, Sáltano quer estender o seu território para todo o restante da ilha. É apenas o início de uma nova jornada pela formação de seu grandioso império, o Reino da Ilha Inclinada.

Contudo, Sáltano terá de ter muita paciência e resignação para perceber que o mundo não gira em torno de seu umbigo e que povos não são manejáveis como figurinhas colecionáveis. Seu perfil terá de se tornar bem menos autoritário e intransigente para que sua liderança possa ser realmente aceita e ainda lhe reste alguma esperança de sobrevivência. Afinal, a antiga profecia a respeito do destino da ilha oferece apenas duas possibilidades bem claras: “Quando o pântano o sapo deixar enfim duas alternativas irão restar: num salto com todos vai se enlevar ou o próprio sal lhe irá sufocar.”


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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