questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

A mecanicidade da laranja descascada

Uma sociedade civilizada decerto estaria longe de fomentar o crescimento da ação de desordeiros como Alex e sua gangue junto a seus atos de crueldade declarada. Mas... será mesmo? O ser humano em si não mudou. Então onde foi parar este seu lado deturpado, brutal, desumano? Espero que já não esteja totalmente embrenhado pelos inconscientes e insensíveis gestos do dia a dia...


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ULTRAVIOLÊNCIA.

Só de escutar essa palavra já ficamos com calafrios. Desviamos os olhos instintivamente, fingimos que não é com a gente. Pobres de nós. Apenas fechamos as pálpebras diante dos monstros que certamente não hesitarão em nos devorar...

Conhecendo melhor a história da “Laranja Mecânica” de Anthony Burgess, temos uma noção de um ponto de vista oposicionista à ordem geral e que, saído de um grito da própria marginalidade, toca em um ponto revelador com o qual não nos é conveniente ter acesso: a prática do mal é um marco da individualidade de um ser assim como a prática do bem desde que este se dê por vontade própria. Segundo o narrador-personagem do livro, mais valeria alguém que faz o mal por iniciativa própria do que quem faz o bem forçadamente, por obrigação, uma mera convenção coletiva e não como um generoso ato de caridade. E o pior é que ele me parece realmente certo.

Mas, por favor, não estou incentivando nenhum uso de violência na prática, quanto mais a brutalidade sem limites que os personagens da história imprimem sem nenhum sinal de compaixão ou arrependimento. O equilíbrio emocional de um ser vivo passa por um estado de paz tanto exterior quanto interior. Porém, para poder atingir o equilíbrio é mais do que necessário reconhecer que o mal é inerente a nós mesmos ainda que não o admitamos. Quanto maior a luz, maior é a sombra atrelada a ela. O psicanalista Carl Jung já dizia que para que a copa de uma árvore pudesse alcançar os céus era preciso que as suas raízes se estendessem até o inferno.

Feu_-_VTdJ.jpg A chama da existência não deixa de ser um espetáculo tanto deslumbrante quanto perigoso...

Isto não significa que você deva sair batendo no primeiro que encontrar para comprovar esta teoria: apenas um pensamento mais invejoso, um súbito instinto de vingança, alguma reação espontânea que, ao ser logo percebida, também é rapidamente talhada pela raiz. O problema ocorre quando estas sensações (auto)destrutivas não são compreendidas como tal e passam a se tornar cada vez mais comuns em uma bola de neve que arrasa tanto os arredores quanto a própria pessoa.

É quando a violência torna-se trivial, quando a barbárie deixa de se tornar chocante e assistimos com indiferença ao cometimento das maiores atrocidades. Quando o mal se constitui como uma banalidade da vida assim como Hannah Arendt o descreveu. Esta jornalista judia de meados do século XX acompanhou o julgamento de um influente membro nazista após a guerra em um processo que ganhou escala global. Acontece que, ao destrinchar cada vez mais o perfil do réu, Hannah não percebia traços particulares de uma pessoa violenta e, por incrível que pareça, nem antissemita. Aquele representante do nazismo na verdade não passava de um homem mediocremente normal, sem aspirações quixotescas e nem traumas irrecuperáveis. Tratava-se simplesmente de um ser humano fruto de uma sociedade alienada quanto todos nós e que por isso obedecia a ordens irrestritamente. Mesmo que fossem as ordens mais isentas de moralidade como as que o nazismo pregava. E que conseguiu atingir todo um povo em uma fé tão cega que após o fim da guerra a maioria dos alemães deve ter ficado um bom tempo sem possuir noção das atrocidades que tinham cometido. Como imaginar que o único mundo onde viviam pudesse estar errado? E pior, como realmente ter certeza se o nosso próprio cotidiano atual não se institui sobre bases completamente imorais?

BM-HannahArendt2006.jpg Hannah Arendt causa polêmica até hoje com suas ideias de que a falta de senso crítico às pessoas ocasiona o degringolar de uma violência friamente autorizada (e estimulada) pelo Estado

Neste exato instante, existem pessoas fazendo reverências a ditadores malucos, existem pessoas idolatrando corruptos de mão cheia, comprando produtos de empresas exploradoras do trabalho infantil, apoiando marcas de uma sustentabilidade somente de fachada para que permaneçam no ideário popular como “marcas verdes”. O apoio que se presta a mentes desequilibradas, que colocam o seu interesse individual acima do interesse público, é o que alimenta a desordem e estimula a sem-vergonhice sem limites. Tudo isso porque preferimos obedecer cegamente à toda e qualquer ordem que baixe sem que raciocinemos sobre a sua precisão e bom senso primeiro. E nos tornemos cúmplices de nossa própria opressão.

O mal está dentro de nós, isto é um fato. Por isso mesmo é que a nossa missão é compreender a sua existência, admitir o problema e trabalhar sobre ele a fim de que uma primeira reação egoísta possa se tornar o mais humilde altruísmo na prática. Assim como o Yin tende a gerar o Yang, o mal deve ser constantemente assimilado para que o bem possa firmemente se desenvolver em nossos íntimos em uma contínua espiral de evolução.

Porém, muitas vezes pode facilmente surgir uma dúvida cruel: o que é o bem e o que é o mal? Como realmente saber se estou alimentando o lobo do progresso ou do caos? Certeza absoluta nunca se há de ter, fatalmente. Mas para maximizar as possibilidades de acerto basta manter sempre os olhos abertos. Enxergar todo o ambiente assim como o seu conteúdo mais particular. Evitar estereótipos que tornem a sua visão parcial. Conhecer o máximo de opiniões possíveis sobre o assunto, mas ao final formular a sua própria. O que lhe parecer mais fundamental disso tudo, então, deverá fazer parte de seus ideais, todos aqueles parâmetros mais básicos que irão reger as suas ações por mais que todos os outros digam o contrário. Pode ser que todos esses ideias venham a caducar um dia neste mundo de metamorfose ambulante. Mas é preciso que o bom senso esteja sempre presente para guardar o que for necessário e trocar aquilo que também o seja.

Estejamos atentos. Que o passado possa servir de lição para o futuro. Que o mal possa cimentar uma grande escalada de harmonia em nossa própria personalidade. Contudo, assim como Jung também declarou, que “conheçamos todas teorias, dominemos todas as técnicas. Mas que ao tocar uma alma humana, sejamos apenas outra alma humana”.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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