questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O Açougue Maldito

Da próxima vez que você encontrar o açougueiro do seu bairro pergunte com bastante firmeza para que a resposta seja sincera: a carne está realmente macia hoje? Claro que a resposta será afirmativa, disto não há dúvidas. Mas observe bem o modo como as palavras cortam o ambiente, como a sua faca se movimenta pelo ar na mesma hora. Caso suspeite de qualquer coisa saia correndo logo. Não dá para saber quando, ao fugir de uma perseguição, você não acabará entrando em outra...


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A velha questão se repete: estará o nosso destino tão irremediavelmente traçado a ponto de não sermos capazes de alterá-lo por mais que tentemos? Maior símbolo da inevitabilidade, Édipo tanto fugiu que da forma mais impensável enfim deu de cara com as severas palavras do Oráculo. Ah, mas isso foi no tempo da carochinha, lá no cafundó da Grécia Antiga... Ok. Quer um exemplo mais atual e de quebra bem pertinho da sua casa? Talvez você ainda não tenha ouvido falar no crime da Rua do Arvoredo que chocou a região de Porto Alegre no ano de 1863. Mas certamente sabe que o período de 1964 a 1985 foi marcado pelo governo da ditadura militar no Brasil. Pois este será o cenário ideal para que, mais de cem anos depois do crime inicial, o destino tenha a possibilidade de se repetir por mais uma vez dentro do livro de terror “O Açougue Maldito”, de Luiz Augusto Pereira.

1863: a população gaúcha se espanta com o caso do açougue de fachada que era usado para encobrir crimes praticados com requintes de crueldade em seu interior. Porém, em 1976, um crime isolado como este seria a menor das preocupações de qualquer um, inclusive de Rose Ramos. Tendo perdido o marido em uma morte súbita logo após a notícia da trágica e ainda mal explicada morte dos pais, aquele soturno ambiente autoritário em que as pessoas simplesmente “somem” sem a mínima garantia de que voltem a aparecer torna-se ainda mais sombrio para Rose.

Cellule_hommes-prison-guingamp.jpg Quando de uma hora para outra a sua vista tem a possibilidade de se tornar esta (inclusive para aqueles que não têm nenhuma razão prática para temer, mas que já se familiarizaram com as obras de Kafka o suficiente para terem medo até da sombra), então é preciso tomar alguns cuidados...

Tudo o que a mulher precisa é de um pouco de tranquilidade para recolocar os seus pensamentos no lugar e uma maior sensação de segurança para cuidar de seu filho Flávio, de apenas 4 anos. É por isso que Rose resolve sair de São Paulo e retornar para a sua mais sossegada cidade natal, Miracatu, no interior do estado.

“Pelo menos agora teria mais tempo de cuidar melhor da criança, um menino sorridente e saudável. Não seria fácil, mas iria começar tudo de novo, do zero. Nada seria como antes. Não tinha o marido, a mãe, nem o pai, que sempre a apoiavam em tudo. Agora era só ela e o menino. Só os dois.” (pág.14)

Vendo-se isolada num momento de maior necessidade, Rose ainda se vê obrigada a arrumar a homérica bagunça em que foi deixada a sua antiga casa. Não era para menos: a morada esteve completamente fechada por alguns anos, mais especificamente desde a morte dos pais. O que, na prática, lhe trouxe um problema ainda maior: reviver os seus velhos medos.

Já em sua infância, Rose atormentava-se com algumas aparições sobrenaturais que surgiam pelo recinto e suspeitava de alguma espécie de “bruxaria” que acompanhasse a construção. Contudo, agora a sua casa havia ganhado fama pública de mal-assombrada após a sua mãe ter sido vista esfaqueada supostamente pelo seu pai, que teria se enforcado logo após o crime. Para completar o medo que rondava por aquela misteriosa casa, os corpos de ambos nunca foram encontrados. Assim como as pessoas que declararam ter visto os mortos também sumiram alguns dias depois.

Porém, apesar de continuar a enxergar apavorantes vultos pelo lugar, Rose nunca acreditou muito que esses espíritos tivessem influenciado o pai a praticar tal assassinato: o genitor havia sido uma influente personalidade local da indústria bananeira que, com a troca do regime de governo e o maior incentivo ao setor automobilístico, viu o seu império desmoronar depois do sucateamento da ferrovia que alimentava a economia da região. Miracatu havia sido deixada às traças. Mas ainda assim a mulher tem certeza de que o pai não teria ficado louco o suficiente para cometer uma atrocidade dessas.

E assim, cheia de medos e dúvidas, mas sabendo que precisava tocar a vida em frente, Rose gradualmente recomeçou: conheceu um carroceiro que lhe fazia vários serviços domésticos, estocou suprimentos, preparou os materiais de construção para uma reforma pesada e ainda enturmou o seu filho com a vizinhança. Além de também ter conhecido o açougueiro da região.

Bem diferente do antigo vendedor de sua infância (que, aliás, havia sido um dos primeiros a desaparecer), o novo açougueiro, jovem e bonito, desperta em Rose os mais íntimos desejos de que a sua solidão possa finalmente acabar e, de quebra, conseguir um amparo masculino para cuidar do seu menino ainda tão novo.

Ele até pode ter alguns hábitos estranhos como nunca estar na bancada quando um cliente chega ou jamais receber em sua porta algum caminhão que reabastecesse a sua provisão de carnes. Mas desde que o interesse aparentemente recíproco entre ambos foi adornado com a declarada vontade de se tornar pai, Rose praticamente não teve dúvidas de que o rapaz seria realmente ideal para ela.

WeaponFocusEffect.jpg Não é um amor?

A carência e o juízo da mulher entrarão em um embate constante: afinal, as pessoas continuam desaparecendo inexplicavelmente. Prováveis dissidentes políticos não podem ter voz. E nunca se sabe quando se pode ser considerado como um deles. Rose também tem esse receio. Mas conseguirá ela vencer os seus próprios desejos e salvar a sua família do perigo eminente?

Com ressalvas apenas quanto a questões estruturais como a realização de uma revisão mais apurada, uma fluidez maior de ideias e um menor uso da linguagem indireta, “O Açougue Maldito” se mostra como mais uma jornada de Édipo em busca do livre-arbítrio: Rose, com medo de que descobrissem o passado oposicionista do pai, tenta fugir de uma eventual perseguição do governo indo morar em um pacato lugar deixado ao deus-dará. E mal sonha ela que tal marasmo em sua cidade de origem possa estar sendo causado justamente por infiltrados do regime, inclusive um belo moço de avental impecável e um grande facão entre as mãos ao qual ela está fatalmente destinada a encontrar apesar de todo o seu empenho em escapar do Estado que tudo vê...


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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