questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O herói está morto?

Oh! E agora quem poderá nos defender? A mesma pergunta ecoa, mas ninguém mais se habilita para atendê-la. As pessoas se desesperam, correm para todos os lados em busca do salvador de outrora. Só que ele não está mais lá. Já faz parte do passado. E a ânsia por dias melhores recai em uma melancólica nostalgia que impede de ver os novos heróis que estão agora mesmo brotando da lama para brilharem no mundo.


Peter_Paul_Rubens_179.jpg O momento em que a flecha de Páris traspassa o calcanhar de Aquiles: é preciso sair da vida para entrar na história?

Relaxe um pouco, vamos com calma. Procure se tranquilizar bem que eu quero fazer uma experiência com você. Pronto? Então vamos fazer um pequeno teste de memória: você se lembra do seu primeiro bicho de estimação? Do primeiro dente que caiu? Dos lugares que mais marcaram a sua infância? Da música que mais te sacudiu? Você se lembra dos momentos que fizeram a sua vida mudar da cabeça aos pés?

Se quiser pode se manter um pouco mais nesse primeiro parágrafo. Não precisa ter pressa, o importante é que você sinta tudo o que estas reminiscências lhe transmitam. E que assim você alcance um peculiar estado de entorpecimento o qual a pessoa nunca sabe explicar ao certo a origem. É uma mistura de contentamento pelo que passou com a tristeza de que tais momentos não possam mais voltar a acontecer exatamente do jeito que eram. Se você também ficou assim, bem-vindo a bordo: acabamos de sentir nostalgia juntos.

Augustus_Earle_-_Solitude.jpg Ah, como seria bom voltar no tempo...

As lembranças mexem com a gente. Por mais que fujamos, o passado nos acompanha por onde quer que andemos. E mesmo que algumas dessas recordações possam ter sido ruins, o tempo provavelmente atenuou em muito a dor que um dia possam ter causado. Quem revira um álbum de fotografias recheado das mais diversas histórias e não fica com vontade de revivê-las? Pode nem ter sido algo muito marcante na época, mas a passagem do tempo faz questão de lançar cada vez mais brilho a um caso relativamente comum assim como também adiciona sabor a um caro vinho.

Esse estranho fenômeno regido pela mudança de tempo também não é diferente quanto à mudança no espaço: afinal, a grama do vizinho sempre é mais verde, não é? Nós sabemos muito bem como a nossa grama demanda constantes cuidados para apará-la, evitar ervas daninhas, colocar o fertilizante certo, deixá-la o mais saudável possível. Porém, ao mesmo tempo, o vizinho parece adotar somente um terço das nossas preocupações e ainda ter mais sucesso em embelezar o seu jardim. A distância também atenua os defeitos e por isso o que está mais distante da nossa realidade tende a ser cada vez mais endeusado à medida que os quilômetros se incrementem.

A minha intenção não é questionar nem a grandeza do passado e nem daquilo que nos está distante. Talvez ambos sejam realmente merecedores de tais honras. Mas será que aquilo que nos está próximo neste exato instante também não pode ser digno de tal tratamento? Será que os defeitos da pessoa ao lado são realmente mais numerosos ou são simplesmente mais fáceis de serem enxergados? Esta questão talvez fique mais clara quando falamos, por exemplo, do conceito de herói.

Vamos lá, mais um pequeno teste para você: agora procure parar, respirar e se concentrar para então pensar em pelo menos 5 pessoas com as quais você mais se inspira, aquelas que são verdadeiros heróis para você. Valem personagens fictícios, imaginários, extraterrestres, o que você preferir.

Ironman_in_SpaceX_2010.jpg Sugestivo?

Vai com calma, muita calma... Conseguiu montar a sua lista? Bem, mesmo que você a faça rapidamente, provavelmente a sua relação já demonstrará as mesmas tendências da minha e a da grande maioria. Pois me diga: quantos dos seus escolhidos você já viu pessoalmente ou pelo menos conviveu por um tempo suficiente para conhecer realmente bem o seu perfil? Possivelmente poucos. E, além disso, quantos dos seus nomes ainda estão vivos? Talvez ainda menos...

Mais uma vez: estou longe de pôr em dúvida a idoneidade de alguém só por não estar tão perto de nós no momento. Mas será que um santo de casa também não pode fazer milagre? E será que os nossos ditos heróis são tão admirados só porque não tivemos acesso às suas particularidades como facilmente temos das pessoas de nosso círculo de conhecidos?

É aquela história: o guru só ganha ares místicos enquanto mora no topo de uma montanha do outro lado do mundo. E o santo só pode conquistar esse título depois que já não está mais entre nós. Só assim para ambos serem lembrados somente pelas obras em que trabalharam. Mas isso não quer dizer que esses dois também não passassem por momentos de raiva, insegurança e angústia. Assim como todos passam. O que, por sinal, pode gerar questões bem interessantes: se o meu vizinho chato vivesse no Alasca, qual seria a imagem dele que chegaria até mim? Se ele tivesse vivido há 100 anos como me seria descrito hoje? Como realmente ter certeza se o herói que coloquei na minha lista não foi sempre igual ao meu vizinho chato?

Não há pessoa perfeita. Existem somente pessoas que procuram fazer mais ou menos diferença no mundo a partir das próprias virtudes e dificuldades pessoais. E qualquer um que faça esse tipo de sacrifício em prol de algo além do próprio umbigo pode ser digno de tal título. Não importa o seu time de futebol, o corte de cabelo, a opinião política, o seu jeito estranho ou os seus vícios mais perturbadores. O que conta mesmo é o esforço para fazer aquilo que pode e deve ser feito de acordo com as possibilidades de cada um.

Assim, quero propor somente uma última tarefa: refaça a sua lista. Talvez você já tenha colocado algum parente ou conhecido nela antes, mas tente pensar em mais alguns. Pode deixar que eu também vou tentar remontar a minha por aqui. E que hajam mais heróis vivos de agora em diante, por favor!


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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