questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

Um pouco de ingenuidade não faz mal a ninguém...

Vamos, acorde: o dia já nasceu! Vista a armadura, embainhe a espada e parta para cumprir a sua missão. Mesmo que o seu fiel escudeiro não compartilhe dos mesmos ideais, o seu cavalo esteja caindo aos pedaços e a sua musa inspiradora não inspire os suspiros de ninguém. Ainda assim vale a pena caçar gigantes em moinhos de vento. Pois se as pás que giram o mundo moem as nossas vidas de maneira inflexível, por que não haveríamos de lutar contra esses verdadeiros monstros que procuram padronizar as nossas existências?


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Ignorância é força.

Este era um dos lemas adotados pelo partido totalitário do livro “1984” com o objetivo de controlar as massas a seu próprio favor. A ideia seria manter o povo “anestesiado”, distante da verdadeira realidade para assim torná-lo mais modelável de acordo com os interesses do governo em cada momento da narrativa. Para fazer com que uma mentira contada muitas vezes se torne verdade.

Essa conotação abordada reflete a nossa ideia comum de que a verdade nos liberta e a ignorância nos escraviza. Um símbolo ainda mais nítido desta diferença fica claro nas pílulas utilizadas no filme “Matrix”: a pílula vermelha te leva a destrinchar o mundo real em todas as suas agruras enquanto a azul te mantém feliz e satisfeito no seu mundo de ilusões. Daí vêm as eternas discussões dos defensores de ambos os lados: uns pensam que o conhecimento só gera sofrimento, mas ao mesmo tempo seria a mais moral das escolhas ao passo que outros preferem aproveitar os prazeres da vida ao máximo, etc.

Red_and_blue_pill.jpg A grande dúvida...

Porém, o meu foco não será sobre esse debate neste momento. Na verdade, o que eu queria questionar era a validade de um dos princípios que eu coloquei pouco acima: será que a ignorância realmente só nos escraviza? Será que a ingenuidade também pode ser libertadora?

Essas perguntas podem soar estranhas ao início, como também soaram para mim. Afinal, o ingênuo é comumente visto como bobo, tolo, infantil, que acredita em tudo que ouve porque nada viu. Uma pessoa digna de pena por se tornar uma marionete daqueles que propositalmente se aproveitam desse seu baixo conhecimento de mundo. Esta era a visão que eu tinha, assim como quem está lendo devia ter uma noção bem similar. Até que eu me deparei com o livro “Milagre nos Andes”, de Nando Parrado.

O autor é um dos sobreviventes de uma tragédia ocorrida em 1972 que ficou mundialmente conhecida, tornando-se até tema de outros livros e de um filme. Trata-se do acidente aéreo que fez com que uma equipe uruguaia de rúgbi que ia participar de um campeonato do esporte no Chile permanecesse presa no meio dos Andes por mais de 2 meses. Muitos integrantes do voo morreram de imediato, porém uma boa parte foi obrigada a lutar constantemente contra adversidades ferozes como o frio congelante, a falta de água e alimentos, o enfraquecimento progressivo dos seus corpos e o total desamparo que lhes caiu ao descobrirem que as buscas por eles haviam sido encerradas pela dificuldade que os helicópteros de resgate tinham para vasculhar aquela região montanhosa com rajadas de vento traiçoeiras. Devido ao ambiente inóspito da área, todos eles já haviam sido dados como mortos.

Cordillera_de_los_Andes.jpg Não é para menos que o grupo não foi encontrado tão cedo: nessa vastidão de pedra e gelo até a fuselagem de um avião se tornava quase indistinguível de qualquer outra rocha para as equipes de busca.

Assim, os sobreviventes vão vivendo um dia após o outro, enfrentando cada desafio por vez. Porém, eles percebem que todas as ações que tomam são puramente paliativas caso o grupo não invista em atravessar uma montanha a oeste que possivelmente os levaria a algum vilarejo chileno para pedirem ajuda. O problema é que essa montanha era tão alta que mal se podia enxergar o seu pico mesmo ao se observar de uma longa distância. Ademais, nenhuma das pessoas ali tinha noções mínimas de alpinismo e nem de como escaparem a uma empreitada tão arriscada quanto galgar milhares de metros em um clima de ar rarefeito e frio absoluto com suas roupas comuns e corpos exaustos. Qualquer especialista, notando a falta de equipamentos essenciais para a segurança e as condições nada favoráveis do ambiente, facilmente já saberia o destino de todos de antemão. Todavia, não possuindo esse discernimento, os sobreviventes acreditaram que podiam e continuaram. Afinal conseguiram. E eis que o próprio Nando admite:

“Se soubéssemos alguma coisa de alpinismo, teríamos percebido que estávamos perdidos. Por sorte, não sabíamos nada, e a ignorância nos deu nossa única chance.”

Mesmo assim, a falta de técnicas apuradas quase lhe custou a vida: a travessia poderia ter sido em muito facilitada caso avançassem por outro caminho menos íngreme e onde pedras gigantescas não rolassem montanha abaixo sobre suas cabeças, também não andariam tanto no período perto do meio-dia quando parte do gelo derrete e o trajeto se torna perigosamente escorregadio. Ao mesmo tempo, conhecimentos sobre a maior necessidade de pausas e do respeito ao limite de somente 500 m para serem subidos por dia a fim de não piorarem o estado de seus corpos na altitude seriam decerto fatais ao retirarem todo o ânimo que teriam para vencer o obstáculo.

Então volta a pergunta: a ignorância realmente só nos escraviza ou também pode auxiliar a nos libertar? A pílula azul também poderia nos levar à verdade nem que fosse por outro caminho? E agora?

Pelo menos na minha visão, o conhecimento continua a ter um papel fundamental: ele é que vai propiciar a construção do percurso para essa dita busca da verdade. No entanto, como também se afirma em “Matrix”, ao mestre cabe mostrar a porta e ao discípulo cabe atravessá-la. Não adianta existir toda uma trilha perfeitamente definida caso você não tenha interesse em andar por ela. E para despertar essa coragem, a ingenuidade / ignorância é essencial.

O grande problema da pílula vermelha é a acomodação que ela causa: à medida que a pessoa acha que sabe tudo que deve saber sobre algo é que se cria a falsa ideia de que não há nada mais além do que ela já alcançou. É como aquela máxima: “É melhor que não se leia livro nenhum do que se satisfazer em ler apenas alguns deles.” Ninguém consegue ser senhor da verdade: este é um processo constante de evolução em que a pessoa tem ciência de que sabe um pouco, mas também detém a sincera humildade de admitir que sempre pode aprender um pouco mais. Assim, quem fica satisfeito em ter noção de somente parte da verdade perde a vontade natural de continuar crescendo enquanto aquele que nada sabe pode ir até mais longe que o sujeito anterior por estar sempre aberto a novos pontos de vista.

Ou seja, a pílula vermelha pode ser tão ou até mais prejudicial que a azul para o entendimento da lei imutável da vida: só sei que nada sei. Em “Matrix”, até o próprio protagonista Neo chega a cair nessa armadilha retórica no momento em que não enxerga como, racionalmente, os humanos poderiam ser capazes de sobreviver à guerra com as máquinas. Então ele percebe que o seu mundo pode ir além do que parece. E Neo passa a acreditar.

“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.” (Jean Cocteau)

Conforme vou escrevendo, parece-me que o foco se distancia dessa discussão comum entre qual pílula preferivelmente tomar: ambas têm suas qualidades e defeitos, podem tanto ajudar quanto atrapalhar. Na prática, isto não importa tanto, mas sim algo que eu comentei antes: o acreditar. Independente do caminho que você siga, o mais essencial ainda é acreditar que você pode fazer diferente para tornar esse caminho um pouco melhor. O que pode implicar em atitudes sonhadoras demais para serem sequer cogitadas como possibilidades reais.

Pode ser que os membros da trilha tortuosa da razão lhe chamem de ingênuo ou que os pertencentes à trilha esburacada da ignorância lhe chamem de louco. Mas manter aquela ingênua criança dentro de si que clama por mais paz e esperança é o primeiro passo para que este devaneio já comece a se realizar e o impossível possa efetivamente acontecer. É o momento em que nós principiamos a atravessar a barreira aparentemente invencível dos nossos próprios Andes.

E se um grupo de sobreviventes que chegaram a ser dados como mortos conseguiu fazê-lo, por que nós também não podemos? Por que não?

“You may say I’m a dreamer, But I’m not the only one. I hope someday you’ll join us, And the world will be as one.” (John Lennon)


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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