questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O Destino do Lobo

O vento soprou contra a alcateia, apurando os sentidos dos lobos. Para quê? Só relembrar aquilo de que já suspeitavam: as suas presas estavam mais disputadas, os seus caçadores tinham se desenvolvido e ganhado novos truques. Qual mágica o grupo de animais poderia fazer? A concorrência aumentou e isto era um fato.
Ventos agourentos que fazem estremecer de medo... Onde estão os ventos adventos que permitem vislumbrar a oportunidade? E qual não é a surpresa ao se perceber que ambos faziam parte daquele mesmo vento que soprou.


Wolf_Destiny.jpg

É difícil aceitar a mudança. No entanto, é exatamente isso que fazemos a cada segundo que passa. Por bem ou por mal, a única certeza que há é que nada será como antes. E se essa metamorfose ambulante naturalmente já assusta muita gente, quanto mais com relação àqueles que não fazem parte da espécie dominante do planeta. Nestes casos o humor da natureza pode ser extremamente determinante para a sobrevivência ou a extinção de alguma espécie. E é sobre essa constante batalha entre a própria personalidade e as exigências do ambiente ao redor de que trata o enredo do livro “O Destino do Lobo”, de Paola Giometti.

O lobo, apesar de ser um bicho gregário por sempre ter vivido entre alcateias, é um animal que também sabe valorizar muito a sua independência e a posição favorável que ocupa no topo da cadeia alimentar de seus habitats. Até o homem aparecer: a floresta se torna um lugar mais inseguro do que o comum quando o predador universal subitamente surge espalhando o fogo e disseminando o medo por onde passa. E mesmo que o ser humano ainda carregue uma tendência autodestrutiva muito forte, é bom não estar perto quando a sua incontrolável bomba atômica interna explodir.

Polarwolf_-_Canis_lupus_arctos.jpg É bom permanecer com essas orelhas bem espertas, companheiro. O perigo pode morar ao lado...

Este é o dilema que Kushi, a loba alfa de uma alcateia que habita uma montanhosa área de taiga entre 14 e 18 mil anos atrás, terá que enfrentar junto com seus colegas lupinos.

Os lobos valorizam muito as mensagens vindas de seus ancestrais. É por causa das lutas das gerações anteriores que a alcateia pôde sobreviver e, ainda que não estejam mais entre eles, as suas palavras permanecem vivas como os principais guias de seus destinos. Não há um momento certo para os ancestrais se manifestarem, por isso é sempre preciso estar atento aos sinais, aos mais diversos fenômenos da natureza por onde eles possam espiritualmente se expressar. Somente assim um lobo é capaz de ouvir o Grande Uivo. E foi durante o momento em que o grupo assistia aos brilhos de uma aurora boreal no céu que Kushi finalmente o ouviu. E descobriu que a mensagem não devia ser tão boa assim...

“— O que é pior do que a morte? — questionou Tuska, arrepiando os pelos da nuca.

— Ser domado — respondeu a loba alfa, num tom preocupante. — Os ancestrais disseram que os lobos serão domados pelos homens em suas aldeias.” (pág. 21)

O desespero logo se espalhou pela alcateia. Este era o destino que seus antepassados haviam visto para a espécie? Um futuro repleto de morte, sofrimento, maus-tratos e... dominação? Não, não se podia aceitar isso. Um lobo não pode abdicar de sua independência ou então já não será mais um lobo. Será um escravo. Um mero cumpridor de ordens à mercê dos mandos e desmandos dos humanos.

Neste caso, a situação já seria mais grave do que se pensava: a essa época os humanos já utilizavam alguns lobos para caçar e atacar tribos vizinhas. Lobos que eram tão treinados para matar que eram capazes de atacar até outros lobos selvagens! Era a corrupção da própria espécie... Um autogenocídio insensato... O lobo havia virado o homem do lobo... E agora, o que vamos fazer?!

'The_Scream',_undated_drawing_Edvard_Munch,_Bergen_Kunstmuseum.jpg Parem o mundo que eu quero pensar!

É preciso ir em busca de respostas. Galgar montanhas, vencer pântanos, rios caudalosos e rochedos traiçoeiros. Sair do próprio ninho e atravessar o mundo para encontrar a solução que sempre esteve dentro de seus corações: afinal, os ancestrais sempre têm razão. Os lobos deveriam mesmo lutar contra esse terrível destino? Ou será possível que este fosse o promissor futuro que se desenhasse para a espécie?

As dúvidas fervem, as incertezas enlouquecem. Todo processo de mudança é assim. A liberdade traz importantes vantagens que Kushi e sua alcateia já conhecem muito bem. Porém, ser domado pelas pessoas já não soa mais como uma ideia tão absurda. Ou melhor, domado não: domesticado. Desde que humanos e lobos se entendessem entre si e formassem uma relação amistosamente saudável entre as espécies não haveria mal nenhum nisso. As pessoas ganhariam a proteção de leais cães de guarda e os lobos garantiriam a segurança de serem acolhidos com abrigo e suprimentos a todo o tempo. De qualquer forma apenas se seguiria o fluxo natural das coisas que rege o benefício mútuo entre os seres vivos.

Todavia, conhecer o caminho ainda é bem diferente de trilhar o caminho: Kushi e a sua alcateia terão de manter os focinhos bem atentos aos ventos que os rodeiam. A floresta esconde muitos perigos e provações que influenciarão bastante os rumos das jornadas que almejam. E será preciso enfrentar todos eles caso queiram realmente traçar “O Destino do Lobo”. Mas de uma coisa já dá para ter certeza: de fato, um lobo não pode abdicar de sua independência ou então já não será mais um lobo. E isto pode ser melhor do que se imagina.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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