questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O pálido ponto azul

Eis a nossa Terra: nobre, altiva. Deslumbrante em todo o seu fulgor. O que poderia ser capaz de arruinar essa ordem tão esplendidamente bem orquestrada? Não muito perante os nossos minúsculos pontos de vista. Mas não pouco para galáxias e mais galáxias rodeadas por meteoros, buracos negros e outros perigos inimagináveis pelo espaço sem fim. Não, não precisa haver paranoia de que o mundo irá acabar amanhã. Mas ainda assim é preciso viver como se assim fosse.


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Nascer, crescer, reproduzir-se e morrer. Isto te faz lembrar de alguma coisa? Sabe aquelas primeiras aulas de ciências quando você ainda se vangloriava por fazer um feijão de verdade brotar a partir de um pedaço de algodão? Pois é, além dos primeiros passos para se tornar o cientista cultivador de hortas algodoeiras do futuro, você certamente deve se recordar dessa definição que você recebeu para o ciclo da vida. E decerto também ficou chocado: afinal, toda uma existência pode ser resumida assim tão fácil? Como é que eu vou poder aproveitar a vida se toda ela é capaz de ser explicada em apenas quatro frígidos verbos? Que horror!

Ressaltar que se trata somente de um exemplo básico talvez já não sirva para se recuperar de tamanho trauma. O estrago está feito. E ficará cada vez mais difícil fazer o indivíduo perceber que, mais do que quatro verbos insensíveis, estes são quatro fluxos presentes tanto na duração de uma vida quanto na de um instante. Se tais livros de ciências fossem mais poéticos do que rigorosamente didáticos talvez ficasse mais claro para os leitores de primeira viagem que entre o início e o fim existe simplesmente o universo e tudo mais que habite nos seus olhos mirins.

David_Rijckaert_III_-_Old_man_with_a_vanitas_still_life.tif Basta saber olhar além das aparências...

Contudo, a compreensão desse conceito passa por um agravante ainda mais crítico: mesmo considerando esse plano extrabásico para relatar tudo aquilo que possuímos somente em quatro vocábulos, ainda assim tem hora que o ciclo não fecha. É gente que morre sem se reproduzir. Gente que morre antes de crescer. Gente que morre sem nem nascer. A única certeza que o sujeito tem é que vai morrer e pagar impostos, mais nada. Parece que a situação só está piorando, por que eu não inventei uma desculpa para faltar nesse dia?...

Por mais que soe complicado, uma hora é imprescindível encarar a realidade que muitas vezes se esconde além dos nossos restritos cotidianos. Assim como Carl Sagan fez ao observar a foto do “Pálido ponto azul”. Nessa imagem é retratado um vasto ambiente espacial repleto de escuridão permeada por pequenos brilhos estelares. Além disso, finas camadas de luz também cortam a paisagem. E dentro de uma delas há um pequeno objeto circular meio opaco, meio cabisbaixo que parece um pouco perdido ali no meio. Mas a sua débil cor azul não nos deixa enganar: este ponto é a Terra. Tudo o que conhecemos, todos aqueles que amamos, tudo o que nos faz sermos nós mesmos. O nosso lar está ali. Deslocado, desfocado, em quase nada destoado. Como um pálido ponto azul. Um mero detalhe fosco no meio do caos.

Pale_Blue_Dot_unaltered.jpg Eis novamente a nossa Terra! Ela está bem ali, viu: tem gente que diz que se você chegar bem perto pode até enxergar a muralha da China. Posso jurar que enxerguei um chinês agorinha mesmo!

E se todo o nosso planeta pode ser ridicularizado dessa maneira perante a imensidão do universo, quanto mais as nossas humildes vidinhas de curtíssima duração? Há momentos que às vezes podem parecer eternos. Coisas que não dão a mínima mostra de mudança. Porém, isto só pode ocorrer quando deixamos de perceber como são frágeis os elos que nos mantêm em equilíbrio. Pontes de barbante sobre os desfiladeiros mais profundos do pálido ponto azul. Basta um vento traiçoeiro ou uma pisada em falso para que o castelo de cartas venha a ruir sem demora.

É claro que atualmente estamos muito mais preparados para enfrentar esse tipo de adversidade: conhecemos muitos desses riscos e trabalhamos continuamente para evitá-los. Mas as nossas bases de apoio nunca chegam a ser 100% sólidas. Nem podem ser. Mesmo assim nenhum motorista espera se tornar vítima de um grave acidente de trânsito quando atentamente respeita os limites de velocidade estabelecidos. Nenhum músico imaginou morrer no auge de sua carreira quando alcançasse os 27 anos. E nenhuma equipe esportiva sonhou que não disputaria a final de campeonato mais importante de sua história simplesmente porque o seu voo não chegaria ao destino final. Nos três casos somente um instante era capaz de alterar todos os seus rumos. E alterou.

Não, não precisa ficar com raiva do seu professor de ciências do passado por causa disso: o ciclo é esse mesmo. Mais curto ou mais longo, não deixa de ser esse. O importante vai ser a qualidade do que estiver entre as duas pontas, todo o valor que se dá para a preciosa existência que ocorre nesse meio. Pois o nosso pálido ponto azul não é muito diferente daquele mesmo inocente broto de feijão que foi plantado dentro do algodão. A sua estrutura pode ser frágil, o seu entorno pode não lhe garantir muita proteção contra os perigos externos. Mas tratando-o com dedicado cuidado e condicionando-o sob o clima adequado, até mesmo dentro de um simples copo de plástico esse broto poderá germinar e celebrar o milagre do seu desenvolvimento. E viver eternamente enquanto possa.

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Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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