questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

Entre mapas e estacas

É um 6? Não, é um 9!
É de chocolate? Não, é de cacau industrializado!
Está frio porque está ventando? Não, está ventando porque está frio!
Pois é, nunca dá para agradar a todos. Opiniões divergentes estão agora mesmo pulsando, explodindo, colidindo ferozmente umas sobre as outras para provar quem é a mais forte nessa apocalíptica batalha dialética. Só que muitas vezes nenhum dos lados está de fato errado: é apenas um enfoque diferente sobre a mesma coisa. Se toda unanimidade é burra, vamos mandar um viva para a guerra dos opostos que se completam!


map-of-world-upside-down-south-pole-on-top.jpg http://www.laparola.com.br/30-criativos-mapas-da-terra-diferencas-culturais-em-forma-topografica-e-um-pouco-de-entretenimento

Percebeu alguma coisa estranha, não foi? É claro, está invertido! Que autor de artigos mais desleixado não se dá conta de que justo a sua imagem de capa está de ponta-cabeça? Algum sujeito excessivamente míope ou inimigo declarado da geografia, só pode.

Contudo, eu garanto que essas duas suspeitas não condizem com a realidade visto que os meus dois bons olhos se aproveitam de noções cartográficas fidedignas para assegurar que é a mais pura verdade: a Terra é exatamente assim. A figura não está ao contrário. Acontece que este é um mapa-múndi australiano. E, assim como a maioria dos mapas elaborados por habitantes do hemisfério norte aumentam as proporções do território europeu e outros próximos, este aqui também quis puxar a sardinha para si e simplesmente colocar a Austrália lá no topo do mundo. Uma atitude ousada, mas visivelmente longe de ser inédita.

Essa questão de proporções é até compreensível dado que não é com exatidão que se transfere uma imagem esférica para um objeto plano e as maiores deformações devem sempre ficar distantes do abençoado país-natal do cartógrafo. Mas inverter o negócio todo?! Fazer uma alteração tão evidente num desenho teoricamente imparcial não poderia ser aceitável, é um ultraje gritante! A menos que seja somente mais um possível ponto de vista.

Por que o norte precisa ficar em cima e o sul embaixo? Desde que se disponibilize uma rosa dos ventos apontando para as direções corretas não há mal nenhum nisso. Sem contar que já nos habituamos tanto às imagens tradicionalmente divulgadas sobre o planeta que nem questionamos mais o fato de querermos achar um lado de cima e um de baixo de um corpo esférico, como se uma bola realmente pudesse ser colocada em pé ou de ponta-cabeça. Como se achássemos que o sol, a Via Láctea e todo o resto do universo convergissem para deixar o polo norte como o ponto indubitavelmente mais alto do nosso planeta...

Esse é um falso consenso que se prega, mais uma daquelas “mentirinhas” cotidianas. Por isso é preciso ter sempre atenção: os nossos consensos são semelhantes a estacas que formam as trilhas do nosso pensamento. Sem elas se torna bastante complicado traçar um caminho pela mata densa e se perder pela floresta da vida vira apenas questão de tempo. Todavia, uma vez que o sujeito saiba os terrenos que deva evitar e domine as técnicas de sobrevivência mais básicas, esse viajante já pode distribuir as suas estacas e esticar o arame farpado para separar os trajetos aparentemente com mais riscos daquele que imagina ser o ideal.

Mystic_Vale_path._READ_INFO_IN_PANORAMIO-COMMENTS_-_panoramio.jpg Construir uma trilha é como encontrar uma ordem dentro do caos. Ou ao menos pensar que se está realmente encontrando uma...

Daí vem o problema de se lidar com estacas: elas estão firmemente enterradas no solo e não vão sair dali enquanto alguém não resolver seriamente movê-las. Obviamente se essas demarcações saíssem sozinhas não haveria razão prática para todo esse trabalho e cada nova viagem seria um grande convite a errar eternamente pelo desconhecido. Só que essa imobilidade, ao mesmo tempo em que define os nossos limites para descobrirmos por onde podemos caminhar, também pode impedir que vejamos outras trilhas potenciais.

Neste exemplo de se atravessar uma floresta seria o equivalente, na ausência de uma bússola, a orientar o seu trajeto pelo lado das árvores onde o musgo cresce. Saber que no hemisfério sul o musgo aparece mais na porção sul dos troncos é um ótimo ponto de partida para se localizar por um lugar que não lhe é habitual. Não ter esse conhecimento certamente dificultaria a sua jornada. Mas possuí-lo também não significa necessariamente um avanço definitivo: essa regra não funciona com todas as plantas que surgirem, o musgo ainda é capaz de crescer por todos os lados de um tronco. E a partir do momento que você se esquece disso e finca uma estaca no lugar errado são geradas trilhas falsas, apenas criando uma ilusão ainda maior de que se está andando pelo caminho correto quando, na prática, você só está cada vez mais perdido. E nem sonhando que o problema possa se originar das concepções mais básicas e firmes do seu estimado conhecimento de botânica.

Moss_on_tree_2.jpg E aí? Esquerda? Direita? Frente? Acho que vou acabar plantado aqui mesmo até descobrir...

Duvidar do indubitável. Questionar o inquestionável. Isso não quer dizer que você deva deixar de usar suas estacas mentais, muito pelo contrário: é preciso ter noção dos próprios princípios e dos próprios limites para se chegar a um objetivo desejado. Apenas verifique bem essas estacas antes de enterrá-las e também periodicamente depois de fazê-lo. Avalie o peso, certifique-se da consistência, leia com atenção o seu rótulo e o prazo de validade. E só então decida se vale a pena utilizá-la ou não, sempre sabendo que pode ser preciso voltar atrás a qualquer instante sem nenhum problema.

Apenas a real percepção do erro pode gerar o acerto. Assumir o caos já é o início da geração da ordem. É assim que tudo começa, vide a história do próprio universo que nos sustenta. Afinal, não é necessário muito para se concluir que nem sempre os nossos umbigos estão localizados no topo de um mundo absolutamente sem topo...


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/artes e ideias// @obvious, @obvioushp //Leandro Dupré Cardoso
Site Meter