questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

A Mega-sena e o Gênio da Lâmpada

Andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar! Não tem música melhor para se fazer uma fezinha. Pois se até o Aladdin achou do nada uma lâmpada mágica por que é que eu também não posso simplesmente ganhar na Mega-sena? Os sheiks árabes que me esperem, vão só comer grãos de areia de deserto atrás das minhas aladas sandálias de ouro. Quer dizer, isto se sobrar alguma coisa depois de eu comprar todos os oásis que estou imaginando...


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Ganhar na loteria é o sonho de muitos. Por trás de um simples bilhete se esconde o desejo de que a sorte, ainda que improvável, lhe conceda uma bênção literalmente caída do céu para mudar de vida. Viagens, casas, carros. Luxo, muito luxo. Um incremento material realmente invejável. Mas será que é possível sustentar tudo isso com a mesma cabeça de antes?

Sabe aquela história de que você sai da pobreza, mas a pobreza não sai de você? Pois é, trata-se justamente o que ocorreu com uma boa parte dos ganhadores de boladas desse naipe. É tanto dinheiro, a pessoa se vê em um deslumbramento tamanho que muitas vezes sai a gastar como louca tudo o quanto pode. E, no final, pode até acabar com menos bens do que antes dependendo da tragicidade da coisa. Ou ao menos com aquele amargo gosto de que poderia ter feito a quantia ter rendido muito mais.

Por isso não me parece que a loteria seja capaz de proporcionar uma verdadeira mudança de vida. Claro, uma parruda conta corrente não faz mal a ninguém e facilita bastante a execução de investimentos maiores. Todavia, quem possui esse pensamento de fazer investimentos e permitir que o dinheiro renda já pratica isso sem precisar ter ganhado nem a rifa da esquina. Assim como o gastador mais compulsivo também extrapola a sua renda mensal total independentemente de quanto este total seja: se tem, ele gasta e ainda parcela mais um pouquinho.

Em suma: só o dinheiro não é capaz de mudar a vida de ninguém. O dinheiro em si não é a solução para os problemas de ninguém. O único que pode resolver os seus problemas é você mesmo. Só você pode praticar a sua própria mudança de vida a partir de alguma mudança de atitude. E uma história que pode ilustrar essa ideia ainda melhor é a do “Aladdin e a Lâmpada Maravilhosa”.

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Pode parecer um pouco estranha a comparação ao início, mas as semelhanças são bem marcantes quando analisadas de perto: uma lâmpada mágica parece algo irreal, um objeto que praticamente ninguém terá acesso. Mas, ao mesmo tempo, todos adorariam tê-la em mãos para obterem uma gama aparentemente infinita de possibilidades propiciadas pelos desejos inegavelmente atendidos pelo gênio. Só que, na realidade, essas possibilidades não são exatamente infinitas: há um limite que diz até que ponto se pode ir adiante. E esse limite se refere ao total máximo de três desejos para se fazer.

O interessante é que na história original narrada por Sheherazade em “As Mil e Uma Noites”, existia até mais liberdade quanto a isso: os desejos eram ilimitados, porém o gênio só obedeceria àquele que possuísse a lâmpada em determinado instante, o que também ocorre no filme criado pela Disney.

De qualquer forma, Aladdin se mostra um gestor impecável de recursos: de garoto humilde passou a príncipe do reino tendo, após a morte do sultão conforme o conto original, liderado o seu povo com paz e sabedoria até o fim de seus dias. Mas teria chegado Aladdin a esse ponto se não fosse pela própria capacidade? O gênio o ajudou bastante a dar os primeiros passos, mas foi Aladdin quem teve de aprender a andar sozinho. Essa questão fica evidente nos primeiros desejos do menino no conto original logo que, sendo de uma família humilde, Aladdin só se preocupa em ter o que comer para os próximos dois ou três dias. E depois mais comida. E depois mais comida. Como os desejos podiam ser feitos a qualquer hora, a todo momento eram pedidas ainda mais refeições. Porque este era o tamanho do seu mundo. Se Aladdin perdesse a lâmpada nesse início, provavelmente morreria de fome.

Contudo, o garoto cresce durante a história e vai ganhando inteligência suficiente para fazer pedidos mais ousados. O que faz com que, quando um mago que também sabia do poder da lâmpada efetivamente a toma de Aladdin na história original, o jovem não titubeia em montar um plano para assassinar o mago, pegar a lâmpada de volta e conseguir a mão da princesa ao eliminar essa “concorrência”. Nesse ponto já caberia uma plausível discussão a respeito do quão longe podemos ir ao sermos movidos pela ambição e até chegarmos a cometer essas atitudes pouco ortodoxas para alimentá-la. Afinal, você tem que saber gerenciar os seus recursos, mas nunca desrespeitar os próprios princípios ou a consciência pesada vai terminar por sujar todo o seu patrimônio.

Só que uma boa parte nem chega a esse ponto: os gastadores compulsivos agem como o Aladdin criança, preocupando-se apenas com as necessidades mais visíveis e de curta duração. E essa situação também é demonstrada por uma história alternativa, mas ainda com essa temática de um gênio mágico.

You_have_3_wishes.jpg Adivinha quem apareceu outra vez? Sou eu! Aquele que atende os seus pedidos, mas que sozinho não é capaz de salvar nenhuma cabeça perdida...

Trata-se do relato sobre um casal bem pobre que morava num casebre dentro da floresta. O seu sustento baseava-se nas caçadas que o marido fazia pela região e assim iam tocando a vida. Todavia, em uma época de inverno bastante rigoroso, as caçadas não vinham sendo muito proveitosas. O casal passava fome em silêncio. Até que, remexendo pelos últimos pedaços de madeira que tinham para acenderem uma fogueira e se aquecerem um pouco, ele apareceu: um gênio! O ser fantástico logo declarou total obediência e a possibilidade de que o casal fizesse três desejos quaisquer que tivessem em mente.

Ambos ficaram abismados, em puro êxtase com essa oportunidade única para mudarem completamente de vida (vejam só!). Porém, enquanto pensavam, os seus estômagos ainda roncavam. E o da mulher falou mais alto quando ela fez um pedido para que o gênio trouxesse linguiças a fim de que o casal pudesse jantar naquela noite.

O homem logo ficou indignado: com tanta coisa para pedir e a mulher pede somente linguiças! O marido ficou tão transtornado que se deixou levar pela emoção. E então, espumando de raiva, fez o segundo pedido ao gênio para que aquelas linguiças ficassem penduradas no nariz da mulher.

Percebendo tarde a burrada que havia feito, o homem não teve muita escolha a não ser gastar o último desejo pedindo que tudo voltasse como era antes. E assim foi feito: as linguiças sumiram, o gênio também. Restou somente o casal com a mesma fome, o mesmo frio... E de novidade surgiu apenas o arrependimento pela oportunidade mal-aproveitada...


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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